Prazeres da mesa

Vinhos

O CHILE INVESTE

Para manter o amplo domínio no mercado brasileiro, o Chile continua fazendo importantes eventos no Brasil e seus vinhos mostram que ainda têm fôlego para inovar e surpreender o mais sedento enófilo

Por: Prazeres Da Mesa | 14.may.2018

Por Marcel Miwa

Fotos Norio Ito, Divulgação e Arquivo PDM

Engana-se quem pensa que entende tudo sobre determinada região produtora de vinho. Com o Chile não é diferente. No evento anual promovido pela Wines of Chile, o Master Sommelier chileno Hector Vergara selecionou os rótulos que foram apresentados por Jorge Lucki, e eles surpreen­deram. Os vinhos chilenos respondem por mais de 45% dos importados vendidos no Brasil e é o principal produto comercializado entre os dois países. Lucki iniciou com um pequeno histórico da presença dos vinhos chilenos por aqui. “Na década de 1990, o Chile era uma fonte confiável quando se buscava uma opção, e eram poucas na época, fora da Europa. Isso foi reflexo do investimento feito na década anterior, quando os chilenos investiram em tecnologia e mapeamento dos vinhedos.” Em uma segunda fase, nos anos 2000, Lucki comentou que foram feitos mais estudos para reconhecimento de novas regiões chilenas, que hoje chegam a 17 vales, e reconheceram que o potencial está na diversidade do terroir chileno, e uma consequência natural para preservar esse potencial é o bem-sucedido programa de sustentabilidade das vinícolas associadas à Wines of Chile.

Com o tema “Qualidade e Diversidade”, os dez vinhos degustados provaram que o Chile vitivinícola entrega uma ampla gama de estilos de vinhos, com personalidade bastante marcada no nariz e com a boca cada vez menos austera. Arestas de álcool ou taninos, razoavelmente comuns em um passado recente, hoje são raros, um retrato do domínio técnico da viticultura e da enologia. Vamos às particularidades de cada um.

vinho generica

Undurraga T.H. Sauvignon Blanc Lo Abarca 2016

Marques de Casa Concha Pinot Noir Edición Limitada 2016San Antonio

R$ 165 – Inovini

91 pontos

Projeto inovador do enólogo Rafael Urrejola, que busca identificar expressões particulares de microparcelas de vinhedos. A Sauvignon Blanc, por exemplo, dá origem a três rótulos conforme sua origem: Casablanca, Leyda ou San Antonio (Lo Abarca). Este Lo Abarca é feito de uma parcela com pouco menos de 2 hectares, arrendada da Casa Marin. No nariz, limão, aspargo e menta sobressaem. A leve untuosidade é resultado da breve passagem (seis meses) por barricas de carvalho usadas
e recebe a companhia de ótima acidez.
Final com pitanga, leve salino e pão tostado.

Ventisquero Tara White 1 Chardonnay 2014Ventisquero Tara White 1 Chardonnay 2014

Atacama

R$ 250 – Cantu

94 pontos

O inovador projeto comandado pelo enólogo Felipe Tosso começou em 2007, quando implantaram 10 hectares de vinhedos na região do Atacama. O solo muito salino, mas rico em calcário e cascalhos, não permitiu a produção nos dois primeiros anos. Este Chardonnay fermentou espontaneamente em tanques de inox e barricas de carvalho (30% do volume), sem adição de sulfitos. O resultado é algo raro: apresenta leve turgidez por não ser filtrado, aromas de pera, caju, ameixa-amarela e amêndoa tostada. Na boca, lembra um Jerez Fino menos alcoólico, por ser salgado e com mais notas de amêndoa e pão tostado. Há ótima acidez, boa estrutura e final com damasco e flores secas.

Marques de Casa Concha Pinot Noir Edición Limitada 2016Marques de Casa Concha Pinot Noir Edición Limitada 2016

Bío-Bío

R$ 138 – VCT Brasil

89 pontos

O enólogo Marcelo Papa apresentou esta novidade da gigante chilena. A linha Marques de Casa Concha nasceu na década de 1970 e foi crescendo conforme trabalhavam novas variedades e regiões. Há cerca de quatro anos começaram a produzir edições limitadas com interpretações mais ousadas e contemporâneas. Agora, é a vez deste Pinot Noir, feito no sul do Chile, cerca de 600 quilômetros ao sul de Santiago. O solo de argila vermelha de Bío-Bío resulta neste tinto delicado nos aromas (groselha, amora, folha seca e toffee) e com boa estrutura. Os taninos são mais gordos que o habitual e sem arestas.

Casa Donoso Limited Release Sucesor Romano 2015Casa Donoso Limited Release Sucesor Romano 2015

Maule

R$ 200 – BEV Group

89 pontos

São poucas as vinícolas que dispõem dessa uva pouco conhecida. O Romano foi identificado em 1988 nos vinhedos da Casa Donoso, com algumas videiras espalhadas em um campo de Cabernet Sauvignon. Hoje, é cerca de 0,5 hectare da casta, com idade média de 80 anos. O perfil dos taninos, compactos e sutilmente selvagens, mostra que a variedade teve a rusticidade bem domada. Os aromas também fogem
do lugar-comum e, além da fruta vermelha e negra madura (cereja e bala de framboesa), são diversas referências de especiarias.

Garcés Silva Boya Syrah 2015Garcés Silva Boya Syrah 2015

Leyda

R$ 120 – Mistral

94 pontos

A grande revelação do painel, tanto pelo preço quanto pelo estilo. Conhecida pelo uso e marca do carvalho nos Amayna, a vinícola contratou o enólogo Rafael Tirado para desenvolver essa nova linha Boya. O resultado é um Syrah com fruta pura e concentrada; amora, cereja e leve cacau e cedro no nariz. A textura tem boa fluidez, com álcool imperceptível, ótima acidez e taninos muito finos. No final, mais violeta, grafite e iodo. Maria Paz Garcés Silva comentou com orgulho que seu primeiro lote de exportação foi direcionado ao Brasil.

Casa Silva Microterroir de los Lingues Carménère 2011Casa Silva Microterroir de los Lingues Carménère 2011

Colchagua

R$ 350 – Vinhos do Mundo

90 pontos

A variedade nos últimos anos é sinônimo de tinto chileno. Foi identificada apenas em 1994, já que antes era misturada e tratada como Merlot. Em 1997, a Casa Silva, com a Universidade de Talca, conduziu um estudo que identificou zonas específicas aos pés dos Andes, no Vale de Colchagua, onde a Carménère poderia amadurecer de forma plena dentro de seu ciclo tardio. Assim nasceu este rótulo, que já é um clássico da variedade e um dos primeiros a moderar as notas herbais que tanto marcavam esses vinhos.

Las Niñas Premium Orgánico 2015Las Niñas Premium Orgánico 2015

Apalta – Colchagua

Sem importador

88 pontos

A jovem vinícola tem certificação orgânica e seu principal tinto é resultado da mescla de Cabernet Sauvignon, Syrah, Mourvèdre e Merlot. A vinificação de cada variedade ocorre separadamente, e o vinho estagia durante 20 meses em barris de 500 litros de carvalho francês. A vocação mediterrânea de Colchagua se pode notar não apenas pela presença da Mourvèdre mas também pelos taninos firmes, leve calor e fruta potente. Como complemento e para equilibrar os componentes, há boa acidez, notas de especiarias na boca e concentração moderada.

Neyen 2011Neyen 2011

Apalta – Colchagua

R$ 250 – Wine for You

91 pontos

Neyen nasceu em 2003 pelas mãos de Patrick Valette. Em 2010, Agustin Huneeus, que se projetou para o mundo do vinho com Quintessa (Napa), comprou a propriedade de Apalta e, no ano passado, foi a vez de a espanhola Gonzalez Byass comprar Neyen. Entre os ativos, a fama de um dos primeiros grandes tintos de Colchagua, vinhedos muito antigos de Cabernet Sauvignon e Carménère, que chegam a 120 anos, e a competência do enólogo Rodrigo Sotto, que permanece na vinícola. Em 2011, o blend é composto de partes iguais das duas variedades e as frutas vermelha e negra são sua marca.

El principal 2013El principal 2013

Pirque – Maipo

R$ 781,90 – Decanter

93 pontos

A comparação com o Bordeaux pode parecer lugar-comum, mas nesse caso a complexidade, a integração e o polimento faz lembrar um grande exemplar bordalês. Não por acaso, o projeto iniciado em 1993 teve Patrick Valette (ex-Ch. Pavie) na direção enológica e, hoje, o talentoso enólogo Gonzalo Guzman conta com a assessoria de Patrick Léon, ex-Mouton Rothschild. Em 2013, um ano de clima fresco, a Cabernet Sauvignon responde por 87% do assemblage (com Petit Verdot e Cabernet Franc) e se mostra de forma elegante: frutas vermelhas e negras frescas, canela, cappuccino e erva-doce. Um tinto agradável e elegante, hoje, mas com capacidade de evoluir por muitos anos.

Pérez Cruz Pircas de Liguai Cabernet Sauvignon 2013Pérez Cruz Pircas de Liguai Cabernet Sauvignon 2013

Pirque – Maipo

R$ 167 – Casa Santa Luzia

91 pontos

Da mesma sub-região onde está El Principal está a Viña Pérez Cruz. Sob o comando do enólogo German Lyon, que explicou que o sucesso de Pirque está no clima mais fresco próximo dos Andes e o solo de argila cheio de pedras que dão a drenagem necessária para o bom desenvolvimento da Cabernet Sauvignon. Uma pesquisa para identificar as melhores parcelas de vinhedo, iniciada em 2009, deu origem

a este vinho 100% Cabernet Sauvignon. O estilo é bastante clássico, com frutas vermelhas, cedro e toques de eucalipto e mentol.
Os taninos são muito finos e firmes, há bom frescor, e concentração e madeira estão em ótima medida para o conjunto.

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