Prazeres da mesa

Vinhos

O GRANDE AMERICANO

O enófilo paulista Luis Magalhães reuniu os amigos para comemorar seus 50 anos de vida. Para marcar ainda mais a data especial abriu nada menos que 13 safras de Opus One, de 2000 a 2012. Claro que PRAZERES DA MESA esteve presente. Confira como foi essa grande noite

Por: Prazeres Da Mesa | 4.may.2017

Por Marcelo Miwa

Fotos Divulgação 

O mundo do vinho é uma eterna câmera lenta. Ao menos quando pensamos nos grandes vinhos, são necessários alguns anos de muito trabalho e escolhas certas para se chegar ao resultado. O ícone americano Opus One não viveu história diferente e, apesar da primeira safra ser do ano de 1979, pode-se dizer que a inspiração para o Opus One nasceu em 1962, antes mesmo da existência da Robert Mondavi Winery, quando Robert Mondavi e a mulher fizeram uma longa viagem pela Europa e visitaram 48 vinícolas. Além da forma artesanal e cuidadosa com que faziam seus vinhos, franceses, italianos e alemães, eles buscavam baixo rendimento e amadureciam os vinhos em barris de carvalho – duas importantes lições aprendidas por Mondavi.

Outro capítulo que influenciou para o surgimento da joint-venture entre americanos e franceses, ocorreu três anos antes da fundação de Opus One. Em 1976, o aclamado “Julgamento de Paris” colocou o vinho californiano de forma definitiva no cenário dos grandes vinhos do mundo. A assim apelidada degustação colocou frente a frente rótulos da França (Bordeaux e Borgonha) e dos Estados Unidos (Califórnia). O resultado das avaliações dos jurados, degustadores conhecidos e respeitados, majoritariamente franceses, mostrou que os vinhos americanos competiam dignamente com os semelhantes franceses e, em alguns casos, os superavam.

Todas essas lições se materializaram, cerca de oito anos depois, com o lançamento das duas primeiras safras de Opus One, 1979 e 1980, conjuntamente. Boa parte da repercussão se deu pela ousada estratégia de precificar cada garrafa em 50 dólares, algo inédito na época, e acabou por criar um novo nicho de mercado.

Pelo acordo, há igualdade absoluta entre as partes, pois cada um tem 50% das ações de Opus One e o vinho é resultado da concordância dos técnicos franceses e americanos. Aliás, esse mix de escolas é um dos grandes fatores que fizeram despertar a atenção de Luis Magalhães para o acompanhamento do Opus One nas diversas safras.

No início, a vinícola não tinha vinhedos próprios ou adega, e o vinho era produzido com as uvas e a estrutura de Mondavi. Em 1981, houve a primeira compra de vinhedo, uma parcela do mítico To Kalon, conhecido pela excelência da Cabernet Sauvignon. Hoje, somam 68,4 hectares em To Kalon e outras parcelas vizinhas, dentro de Oakville, que dão origem ao Opus One e a um segundo vinho chamado Overture, feito em vinícola própria. Como sempre, a base do vinho está apoiada na Cabernet Sauvignon e, nessa última década, a rainha das tintas começou a ceder mais espaço para as outras castas bordalesas: Merlot, Cabernet Franc, Malbec e Petit Verdot. Como curiosidade, os tempos de maceração com as cascas também vêm sendo reduzidos, de extremos 44 dias na safra 2000 para 18 dias na de 2012, o que confirma a impressão da busca de vinhos mais elegantes, menos concentrados e que são mais abordáveis na juventude. Metade da empresa segue com os descendentes de Philippe de Rothschild e a outra metade pertence hoje à Constellation Brands, que comprou os ativos de Robert Mondavi Winery. Nosso amigo Luis Magalhães pode ficar tranquilo, seu aniversário entra para a história como um marco do vinho no Brasil. Seguimos com as impressões de cada safra.

01/12

Opus One 2000

Cabernet Sauvignon 84%, Merlot 6%, Cabernet Franc 5%, Malbec 3% e Petit Verdot 2%

Esta safra está entrando em seu ápice. Entre os aromas há fruta negra, pimentão (que indica um ano frio), ervas secas, baunilha e páprica, com boa integração. Na boca, notam-se os aromas de evolução na garrafa – couro e cedro. Os taninos estão macios, compactos e finos, mas o destaque está no frescor, reforçado por leve mentol final. Até esta safra a enologia resultava do consenso entre Tim Mondavi (Mondavi) e Patrick Léon (Mouton-Rothschild). 91 pontos

Opus One 2001

Cabernet Sauvignon 87%, Merlot 6%, Malbec 3%, Cabernet Franc 2% e Petit Verdot 2%

No nariz seria difícil dizer que apenas um ano o separa da expressão do 2000. Logo no nariz se mostra jovem e com grande complexidade. Fruta negra (amora e ameixa) concentrada e pura, grafite, pimentão assado e ervas secas se destacam, com taninos muito finos e acetinados, boa acidez e fruta seguindo como protagonista na boca. Extremamente atrativo hoje e sem arestas, deve evoluir com elegância. No final, mostra aroma de earl grey (chá-preto com bergamota). Esta foi a primeira safra que Michael Silacci, egresso de Stags Leap, assumiu a direção enológica de Opus One, função que exerce até hoje. 93 pontos

Opus One 2002

Cabernet Sauvignon 86%, Merlot 6%, Cabernet Franc 3%, Malbec 3% e Petit Verdot 2%

Esta safra seguiu o estilo de 2001, mas com fruta ainda mais exuberante e madura, com maior concentração na boca. Amora e ameixa maduras e concentradas, com chá-preto e espresso no nariz que antecedem os taninos finíssimos, compactos e com boa acidez. O álcool está muito bem integrado ao conjunto, que deve agradar aos que gostam das expressões de fruta madura e concentrada casada com notas tostadas. 92 pontos

Opus One 2003

Cabernet Sauvignon 91%, Cabernet Franc 3%, Petit Verdot 3%, Merlot 2% e Malbec 1%

Safra bipolar em todo o mundo, não foi diferente na Califórnia. O vinho se mostra ainda fechado, com aromas de mentol, fruta negra concentrada mas sem sinais de sobrematuração, chocolate amargo e malte. Na boca, os taninos são abundantes e mostram leve aresta, aproximando-se de um estilo mediterrâneo, com acidez no segundo plano. Hoje, mostra-se austero e com tostado por integrar. 91 pontos

Opus One 2004

Cabernet Sauvignon 86%, Merlot 7%, Petit Verdot 4%, Cabernet Franc 2% e Malbec 1%

Surpreendentemente jovem e fresco. Pela primeira vez na vertical o aroma de frutas vermelhas dominou as frutas negras (framboesa e licor de cassis). Aparentemente mais simples, as especiarias do carvalho marcam menos o vinho com apenas algo láctico, cedro e toffee. Taninos, acidez e álcool mostram-se potentes e pedem alguns anos para se integrar – estão envolvidos por textura cremosa e sedutora, o ponto alto do vinho hoje. 91 pontos

Opus One 2005

Cabernet Sauvignon 88%, Merlot 5%, Petit Verdot 3%, Cabernet Franc 3% e Malbec 1%

O equilíbrio de 2001 e a fruta de 2002 se repetem nessa safra. Embora ainda não tenha alcançado a complexidade de 2001, há precisão na expressão da fruta, que se mostra madura e fresca com algo de trufa. A madeira está bem casada a aporta aromas de cacau e baunilha. A acidez faz o conjunto brilhar e até a leve aresta dos taninos (menor que em 2003) não incomoda. No final há um toque mineral (grafite) e calor, resultado do álcool que ainda pode se integrar melhor. 92 pontos

01/12

Opus One 2006

Cabernet Sauvignon 77%, Merlot 12%, Caber- net Franc 5%, Petit Verdot 3% e Malbec 3%

Essa safra foi marcada pela temperatura média mais baixa na história de Opus One. Talvez esteja aí a explicação para a menor participação da Cabernet Sauvignon no lote final. Na taça, o resultado se mostrou bem atraente, com boa complexidade na fruta (ameixa, amora e licor de cassis) que se mostra fresca e bem definida. Os taninos são firmes, mas muito finos e envolvidos pela cremosidade que lhe dá o estilo sedutor. A boa acidez o deixa atrativo para beber desde já. O vinho segue com intensidade até o longo final, mantendo fruta, tostado e baunilha. 94 pontos

Opus One 2007

Cabernet Sauvignon 79%, Merlot 8%, Cabernet Franc 6%, Petit Verdot 6% e Malbec 1%

Por pequena margem foi o melhor vinho do painel. O clima foi descrito como semelhante ao de 2001 e, na taça, houve a confirmação do parentesco. As frutas negras (ameixa e amora) mostram-se em ponto ótimo de maturação, com um toque de trufa e acidez na medida. Os taninos estão muito finos e acetinados e, mesmo jovem, não impedem a apreciação do vinho. A madeira aparece de forma discreta, da mesma forma que o álcool (mal se nota). O tripé de fruta pura, textura cremosa e ótimo frescor o colocaram ligeiramente à frente das outras safras. 95 pontos

Opus One 2008

Cabernet Sauvignon 86%, Petit Verdot 8%, Merlot 4%, Cabernet Franc 1% e Malbec 1%

Novamente a coerência entre clima e taça. Um ano de condições climáticas extremas, de frio e calor, resultou em um vinho potente e com fruta bastante madura acompanhada das notas de especiarias (baunilha e cravo) e tosta na mesma frequência. A textura segue macia e untuosa, com taninos mais gordos e acidez mediana. No final aparece algum canforado e mentol que ajudam a limpar o paladar e dar certa leveza. 90 pontos

Opus One 2009

Cabernet Sauvignon 81%, Cabernet Franc 9%, Petit Verdot 6%, Merlot 3% e Malbec 1%

O vinho se mostra bastante jovem e difícil de antecipar qual caminho deve tomar. Hoje mostra fruta negra madura e exuberante com cânfora, grafite e baunilha, cravo e erva-doce das barricas de carvalho bastante intensas. Os taninos são polidos e gordos (não tanto quanto na de 2008), com álcool e acidez (boa) pedindo mais tempo de garrafa para integração.  92 pontos

Opus One 2010

Cabernet Sauvignon 84%, Cabernet Franc 5.5%,Merlot 5.5%, Petit Verdot 4% e Malbec 1%

Apesar de ser descrito como um ano de calor, o vinho mostra ótimo equilíbrio. No nariz destacam-se violeta, frutas negras (amora e ameixa), cravo e erva-doce. Na boca, torna-se um gigante, com aromas limpos, ainda mais violeta, fruta madura com ótima acidez, taninos muito finos e acetinados e álcool que não se percebe. No longo final, aparecem cedro e earl grey. 94 pontos

Opus One 2011

Cabernet Sauvignon 71%, Merlot 11%, Petit Verdot 9%, Cabernet Franc 8% e Malbec 1%

O salto de estilo foi grande em relação à safra anterior. Aqui a fruta aparece tímida no nariz e os aromas protagonistas são erva-doce, baunilha, avelã e manteiga queimada. Na boca o jogo se inverte e a fruta negra e a violeta mostram boa qualidade. Os taninos são muito finos e acetinados, envolvidos pela textura cremosa – marca de Opus One – e ótimo frescor. Os componentes para um brilhante futuro estão presentes, resta a paciência de alguns anos para que se harmonizem. 93 pontos

Opus One 2012

Cabernet Sauvignon 79%, Cabernet Franc 7%, Petit Verdot 6%, Merlot 6% e Malbec 2%

Como se pode prever, o vinho é bastante jovem com fruta e madeira andando em caminhos paralelos. Como nas duas safras anteriores, a madeira começa a ser trabalhada para aportar menos notas abaunilhadas e mais especiarias como erva-doce e cravo. Na boca, o álcool mostra boa integração com fruta negra madura e há um toque de folha de tangerina. Os taninos seguem o perfil acetinado de 2011, da mesma forma que a boa acidez. Um estilo parecido com o da safra 2011, mas que deve alcançar o ápice antes mesmo da safra anterior. 93 pontos

A moderna vinícola foi construída em 1991 no terrano comprado de Robert Mondavi Winery, na região de Oakville, em Napa Valley. Até a safra 2000, a enologia era divida entre um enólogo de Mondavi e um de Mounton-Rothschild

A moderna vinícola foi construída em 1991 no terrano comprado de Robert Mondavi Winery, na região de Oakville, em Napa Valley. Até a safra 2000, a enologia era divida entre um enólogo de Mondavi e um de Mounton-Rothschild

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