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O mundo acaba em beleza

Rota pelos fiordes da Patagônia chilena, no extremo sul da América, garante gastronomia e paisagens de tirar o fôlego

Por: Prazeres Da Mesa | 10.mar.2017

Por Isabel Raia, do Chile*
Fotos divulgação

04 Belleza, luz y color. Glaciar El brujo

Está com a sua lista de coisas a fazer antes de morrer em mãos? Pois então, anote: navegar pelos fiordes patagônicos e, ali, tocar em uma geleira na chamada Rota do Fim do Mundo. Para isso, você precisa embarcar no Skorpios III, um hotel sobre as águas, entregar-se ao passeio distante da tecnologia e se preparar para ser hipnotizado pelas paisagens e descobrir que o mundo é ainda mais bonito longe do celular e da internet. De quebra, saboreie o conforto da cozinha chilena.

O barco sai de Puerto Natales – para chegar lá você terá de viajar cerca de 4 horas de avião até Santiago (partindo de São Paulo), outras 3 horas até Punta Arenas, no extremo sul do Chile, e mais 3 horas de van até o porto. O trajeto extenso é compensado na chegada, acredite. Aproveite o caminho terrestre para admirar o Estreito de Magalhães, a maior e mais importante passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

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Ao chegar ao barco, aproveite para relaxar enquanto saboreia um dos drinques oferecidos no bar, como o típico pisco sour ou espumante com calafate, fruta típica da região e que carrega consigo a lenda de trazer de volta à Patagônia aquele que a provar. No decorrer do passeio pelas geleiras é possível ver muitos arbustos repletos da frutinha, que nasce em baixas temperaturas. A calafate, que visualmente lembra um mirtillo mais avermelhado, tem sabor levemente azedo e cai bem tanto em drinques, quanto em sobremesas.

Depois de relaxar no bar, é hora de seguir para o restaurante. Prepare-se! Durante todo o percurso não faltarão comida e bebida, tudo incluído no pacote. O atendimento é sempre personalizado, visto que são apenas 90 hóspedes por viagem. Assim, ao sentar-se à mesa, o comensal escolhe qual vinho preencherá a taça daquela noite, branco ou tinto – os rótulos, sempre chilenos, variam a cada refeição.

Todo o cardápio é planejado antes de zarpar e passa pela curadoria de dona Mimí, viúva do criador do Skorpios, Constantino Kochifas Cárcamo, e que aos 86 anos faz questão de estar presente em todas as temporadas. É ela quem coordena a cozinha, o aconchego das cabines e o bem-estar dos passageiros.

Sempre são servidos entrada, prato principal e sobremesa e o menu é anunciado aos passageiros na refeição anterior. Por exemplo, durante o café da manhã (formado por um bufê de deliciosos pães feitos integralmente no barco, tortas e bolos), os garçons passam de mesa em mesa explicando o que será servido no almoço para que, se tiver alguma restrição, o comensal possa avisar a tempo de preparar uma nova receita que lhe agrade. Isso vale para vegetarianos, pessoas com restrições alimentares ou mesmo quando o ingrediente escolhido não apetece ao paladar do viajante.

A pedida é apenas para que todos estejam presentes no restaurante no mesmo horário, como em uma família. “Aqui não tratamos os hóspedes por ‘senhoras e senhores’, mas por ‘amigas e amigos’. Queremos que todos se sintam em casa”, diz o capitão Luis Antônio Kochifas, filho de Constantino e dona Mimí. Alto-falantes por todo o barco fazem o convite à mesa no café da manhã, almoço, chá da tarde e jantar.

Assim, prepare-se para saborear centolla, salmão, camarão, sopas, empanadas, entre outras receitas típicas no melhor estilo comfort food. Vê-se claramente o toque de dona Mimí na comida, sempre caprichada e saborosa, com temperos que lembram o caseiro e receitas que esquentam o corpo gelado após o passeio pelas geleiras. Os pratos, assim como as sobremesas, vêm decorados e, muitas vezes, desenhados para saciar também a vontade que nasce ao olhá-los.

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Quebrando o gelo

O trajeto pela rota Kaweskar, nome dado em homenagem aos primeiros habitantes da região percorrida, permite que o viajante inclua um passeio terrestre na viagem, o que resulta em uma noite a mais hospedado no barco, ainda ancorado. E, se quiser uma dica, vá. Aproveite a oportunidade para se maravilhar com as águas de tom azul-esverdeado impressionante no Parque Nacional Torres del Paine. A explicação para o efeito colorido dos rios e lagoas está na sedimentação dos degelos glaciais, responsáveis pela formação desses reservatórios de água.

O parque, com extensão de 181.000 hectares, é uma das joias entre a Cordilheira dos Andes e a Patagônia, e é percorrido em uma van com paradas estratégicas para apreciar a paisagem e tirar fotos. Em um dos pontos, a curiosa história dos dois lagos que, apesar de divididos pela estrada, por vezes se tornam apenas um devido ao vento de 250 quilômetros por hora, responsável por ondas tão grandes e fortes que mudam completamente a paisagem do local.

O almoço acontece no restaurante Kaienk, no belo Hotel Rio Serrano Torres del Paine. Em um salão decorado preferencialmente de madeira e com vista para a Cordilheira, espere o melhor da gastronomia contemporânea chilena, como peixes locais servidos na pedra e acompanhados de “risoto” de quinoa e sobremesas com manjar, nome dado ao doce de leite chileno, em diferentes texturas. O vinho não poderia ficar de fora e é escolhido a dedo na adega do hotel, umas das maiores da região.

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Antes de voltar ao barco para zarpar rumo às geleiras, os visitantes são convidados a passear pela Cueva del Milodón, uma caverna de 30 metros de altura, formada pela ação geológica de um grande glaciar, que cobria o território. Em 1895, foram encontrados restos de um animal, chamado de milodón, que estavam completamente preservados graças ao clima, fato que despertou a comunidade local sobre a possibilidade de haver exemplares dessa espécie pré-histórica ainda vivos. Mas pesquisas acabaram com a ideia ao revelar que as peças tinham 13.000 anos. Outros objetos e vestimentas também foram encontrados por lá e mostraram que o espaço abrigou os primeiros homens habitantes daquela localidade.

Por volta das 18 horas, o barco deixa Puerto Natales e todos são convidados a subir até a cabine de comando para acompanhar o princípio da viagem. Assim como em todo o resto do percurso, os viajantes têm acesso livre ao espaço e podem aprender mais sobre a navegação e a história da rota.

“Certa vez encontrei um passageiro caminhando pelos corredores do navio em plena madrugada. Ele estava quieto,  fui perguntar se precisava de algo e foi quando o homem me contou que morria de medo de navegar”, diz o capitão, que convidou o passageiro a conhecer o funcionamento da cabine. “No dia seguinte, nós nos encontramos no café e ele disse que havia dormido plenamente.”

A calma e segurança passada pela tripulação têm um motivo. Apesar de navegar entre geleiras dia e noite, o barco conta com arquitetura reforçada para romper as barreiras. Enquanto embarcações normais têm na proa barras com cerca de 60 milímetros de comprimento, distantes 12 milímetros uma da outra, no Skorpios esses números vão para 90 milímetros e 8 milímetros, respectivamente. Aos passageiros, fica apenas a sensação de uma leve freada e o barulho de chiado da placa de gelo sendo quebrada.

Tranquilizados e bem alimentados, hora de colocar o gorro, as luvas e o colete salva-vidas e chegar pertinho de cada uma das geleiras. Mas não sem antes fazer o famoso brinde 12 + 30, em que todos os navegantes são convidados a tomar uísque 12 anos (há mais de um rótulo disponível) com pedras de gelo retiradas dos icebergs, de 30.000 anos. Saúde!

Entre lá e cá

Antes ou depois das geleiras, faz bem uma paradinha em Santiago. A capital chilena reúne boas opções de gastronomia e muita cultura. Recém-inaugurada na cidade, esta unidade do hotel Cumbres está localizada em Lastarria, um dos bairros do momento. Basta uma breve caminhada para chegar à Avenida Merced ou aos parques da Providencia. Na volta, o Cerro Santa Lucia faz um convite à vista da cidade.

A chegada ao hotel inclui uma passadinha no espaço de convivência, onde sempre há docinhos, água, sucos e café disponíveis aos hóspedes. De volta ao quarto, é hora de tomar banho e se jogar na confortável cama, daquelas para não querer levantar. A não ser pela fome e ai está outro diferencial. O Cumbres Lastarria mantém em seu último andar o Punto Ocho, casa comandada pelo francês Michel Seyve.

O chef foi incentivado pelo pai e desde os 15 anos se dedica às panelas. Trabalhou em hotéis na Ásia, sendo a China o país em que ficou a maior parte da carreira. Entre 2001 e 2003, Seyve realizou o sonho de comandar o próprio restaurante, o Gecko Bar & Restaurant, no Vietnã. A experiência adquirida em quase 40 anos de profissão é mostrada nos pratos de apresentação charmosa que refletem o casamento entre as técnicas francesas e asiáticas. “Aqui tenho liberdade e gosto muito disso”, diz o chef, que, desde agosto (quando o espaço foi inaugurado), conquista os hóspedes e os moradores da região.

A cozinha situada no meio do salão ajuda a abrir o apetite para as criações. Dê a largada com as vieiras em molho de açafrão e azeite de manjericão como entrada, que prometem ficar na memória. Se preferir começar com um prato frio e marcante, aposte na terrine de pato e laranja com redução de vinho do Porto e compota de cebolas, feita na casa.

Na sequência, o polvo com risoto de vinho tinto e manjericão e a saltimbocca de contrafilé de porco com espaguete e verduras, aromatizado com limão-siciliano são boas pedidas. Para a sobremesa, a dúvida é entre a mousse de chocolate com mirtillos, raspas de laranja e mostarda (divina!) e o soufflé gelado de licor Grand Marnier, com calda de chocolate e laranja confitada, um dos bons motivos para voltar ao Punto Ocho.

Além desse restaurante, cercado de vidros e com vista para a Cordilheira, o hotel ainda tem um bar de tapas, que não estava inaugurado na data de nossa visita.

* A reportagem viajou a convite do Skorpios e do Hotel Cumbres Lastarria/ ** Matéria publicada na edição 153 de Prazeres da Mesa

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