Prazeres da mesa

Reportagem, Vinhos

PÁTRIA DOS ROSÉS

Se você é daqueles que torcem o nariz para uma garrafa de vinho rosé, fique preparado para mudar de atitude quando encontrar um dos bons produzidos na região francesa da Provence

Por: Prazeres Da Mesa | 10.apr.2018

Por Marcel Miwa

Fotos Divulgação

St-Tropez, Cannes, Nice… Uma boa parte das pessoas logo associa a Provence a essas badaladas cidades banhadas pelo Mediterrâneo (com centenas de iates ancorados) ou aos clássicos campos de lavanda. Claro, a região provençal é tudo isso e também é reconhecida por uma bebida que se tornou referência de seu estilo (não me refiro ao pastis): os vinhos rosés.

Os vinhos rosés feitos na Provence conseguiram a invejável posição de ser sinônimos de um estilo de bebida e qualquer apresentação de rosado feito onde quer que seja menciona a referência ou inspiração na Provence. Mas o que há de especial e único nessa região para chegar a esse status? Visitamos uma série de produtores para tentar desvendar essa receita.

vinho genérica

A primeira resposta surgiu logo ao desembarcar na estação de trem em Aix-en-Provence. Saindo de Lyon com clima chuvoso, em pouco mais de 1h30 cheguei à Provence com o dia ensolarado. Michel d’Espagnet, proprietário do Château de Pourcieux (importado pela Cantu), explica que o maciço de Saint-Victoire e o Monte Aurelién formam uma concha na qual os ventos (o mais famoso deles, o Mistral) convergem e provocam uma aeração constante nos vinhedos que ficam aos pés dos montes. Antes de chegar a Pourcieux, Michel comenta que deveria passar pelo Château Ferry-Lacombe (importado pela Zahil), uma vez que Michel Pinot, que comanda a vinícola, havia trabalhado algum tempo no Brasil, fala bom português, e o vilarejo de Trets ficava no caminho. O ex-executivo do Carrefour comprou a vinícola como um plano para a aposentadoria e viu o negócio prosperar. Hoje, o filho Matthieu ajuda na parte enológica e administra os 65 hectares de vinhedos, nos quais dominam Grenache, Cinsault e Syrah, cultivadas de forma quase orgânica (fazem parte do grupo Terravitis). Neste ano a vinícola ganhará uma nova unidade de produção, destinada exclusivamente aos vinhos feitos com uvas de terceiros. Cerca de 80% da produção são destinados aos vinhos rosés e a linha se divide, por ordem crescente de preço, em: Haedus, Naos, Cascaï e Equinoxe. Algo curioso, mas praticamente uma constante na Provence, é que as vinícolas utilizam apenas tanques de concreto ou de inox, mesmo para alguns tintos. Barricas de carvalho são raridade e de certa maneira indicam o caminho para vinhos mais frescos. Na degustação, os rosés, todos da safra 2015, agruparam-se em dois pares de estilos: Haedus e Equinoxe com frutas vermelhas ácidas (cranberry e framboesa), com leve cítrico e bom frescor. O primeiro mais contido e redondo, enquanto o segundo o mais exuberante de toda a linha, com mais frutas vermelhas, resultado dos 70% de Syrah, e leve nota salina no final. Já o par, Cascaï e Naos, é dominado por notas cítricas (grapefruit, laranja e lima) e minerais, com certa vantagem para o primeiro pela acidez que deixa o conjunto vibrante, pedindo pelo próximo gole. Como curiosidade, saiu-se bem o tinto Equinoxe 2012, também feito com 70% Syrah e 30% Grenache, mas com rendimento reduzido em 30% em relação ao vinhedo que produzirá um rosé. Rico em frutas negras maduras, com toques de alcaçuz e pimenta-negra, o vinho tem taninos compactos e finos e álcool muito bem integrado.

Retornando ao caminho até Pourcieux, Michel revela a segunda virtude do terroir local. “Conforme a cor alva dos maciços indicam, o solo tem um grande componente calcário, que drena facilmente a água. Tivemos muita chuva recentemente e apenas as partes com mais argila verão alguma água empoçada.” O Château de Pourcieux, construído em 1760, está no meio do vilarejo homônimo e o castelo serve de morada e vinícola para Michel. Por ser um velho conhecido do mercado brasileiro, ganhador diversas vezes do concurso Top Ten da ExpoVinis Brasil, d’Espagnet decidiu fazer uma degustação um pouco diferente dos componentes varietais que entram no corte do Château de Pourcieux Rosé. A vinícola tem 26 hectares de vinhedos, todos na Côtes de Provence – Sainte Victoire, com maior parte de Syrah e Grenache. A degustação, com amostras da safra 2016, começou com o Syrah rosé, cheio de fruta vermelha madura e flores. A textura é untuosa e a acidez boa, mas sem extremos. Em seguida, foi a vez do Grenache rosé, com frutas vermelhas frescas, terra e folhas secas. A acidez é mais intensa e viva do que a do Syrah. “Por isso, a Grenache é o esqueleto de meus vinhos”, diz Michel, que costuma associar a Syrah a uma expressão feminina e delicada, e a Grenache a um lado masculino, de força. Um outro Syrah foi servido em seguida, de um vinhedo mais próximo dos pés do monte Saint-Victoire. O resultado é um rosé com especiarias, fruta vermelha fresca e um toque cítrico. Menor intensidade, mas maior elegância. Depois Michel apresentou um blend de partes iguais de Grenache e Syrah e o resultado se mostra bem próximo do vinho final. A fruta negra fresca, a untuosidade e a especiaria da Syrah se conectam bem com as frutas vermelhas, grapefruit, terra e acidez da Grenache. Por fim, foi servido o Château de Pourcieux 2015, um ano considerado ótimo pelo clima estável. Talvez pelo calor do ano, a expressão da Syrah se mostre mais evidente, com fruta (cereja, goiaba e framboesa) fresca, toques de iogurte e textura delicada. É a safra disponível no mercado brasileiro. Durante o almoço, Michel d’Espagne apresentou mais duas curiosidades: o branco 2016, feito 100% com Rolle, a mesma Vermentino, e com quatro meses de contato com as borras. O resultado final mostra aromas de limão, geleia de limão-siciliano, louro e alecrim, com untuosidade e bom frescor. E o tinto Pourcieux Grand Millesime 2001, 95% Syrah de vinhas velhas e 5% de Cabernet Sauvignon, estagiado por 24 meses em barricas de carvalho francês, um terço novas. Um grande tinto com notas de frutas vermelhas maduras, páprica, café, tabaco e funghi, com taninos amaciados pelo tempo e textura acetinada com álcool bem integrado. “É uma pena, pois nossos tintos precisam de tempo, você pode ver o mesmo em Ferry-Lacombe, há potencial mas são difíceis de vender”, diz Michel.

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No dia seguinte, o destino foi a cidade de Brignoles, a cerca de 35 quilômetros, a leste de Pourcieux. Ali está sediada a Vins Bréban (Pão de Açúcar e Biolivas), um dos grandes projetos da Provence. São cerca de 7 milhões de garrafas produzidos anualmente, apenas um terço exportado. A empresa teve um início curioso: no formato de cooperativa e focado exclusivamente em espumantes. Depois dos anos 1960, o pai de Jean-Jacques Bréban, sr. Raymond, voltou-se para os vinhos tranquilos, com destaque para os rosés. Hoje a empresa familiar tem contratos de longo prazo com viticultores e dita os padrões de qualidade e manejo dos campos.

A longa degustação (Bréban produz entre 40 e 50 diferentes produtos, alguns de vinhedos próprios, designados como Domaine) se concentrou em rótulos disponíveis no mercado brasileiro. Um dos segredos da empresa é nunca guardar os vinhos engarrafados, estão sempre nos tanques e conforme recebem os pedidos seguem para a linha de engarrafamento. Os destaques foram o Mini Mi rosé 2015, como um passo de entrada para os rosés da Provence, um bom mix de frutas vermelhas ácidas. Um degrau acima de complexidade e intensidade estão o Roc de Candelon rosé 2015 e o Mimi en Provence 2015. O primeiro feito com Grenache e Syrah (60% e 40%) tem expressão em maior parte cítrica, com toque de iogurte e flores brancas e acidez com boa intensidade. O segundo tem boa complexidade, com grapefruit, rosa e cranberry, toques minerais e acidez na medida. Durante o almoço no estrelado La Celle, com assinatura de Ducasse, Bréban evidenciou o grande mérito dos rosés da Provence: “Esta é uma construção de marca de 20 anos. A região concentra 88% da produção nesse estilo de vinho, mas ele representa apenas 5% dos rótulos do mundo. O próximo passo mostra que os rosés podem ser consumidos no decorrer do ano e não apenas no verão, algo que funciona na França e nos Estados Unidos”. Apesar de serem muitas marcas, Bréban consegue imprimir um estilo nos vinhos  e vai ao encontro da facilidade que o consumidor pede para escolher os rótulos.

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Para fechar o roteiro provençal, foi a vez de visitar o Domaine de Saint-Ser (Chez France), literalmente aos pés do Saint Victoire. A simpática Jacqueline Guichot morava em Paris e (mais um) como plano de aposentaria decidiu se mudar para a Provence e, em 2005, começou a produção de vinhos em Saint-Ser. Hoje são 47 hectares de vinhedos, dos quais saem 70% de rosés, 25% de tintos e 5% de vinhos brancos. Ex-farmacêutica, Jacqueline entendeu que, no campo, a cultura sem químicos seria benéfica ao local e atualmente pratica o biodinamismo em toda a extensão da propriedade, que também funciona informalmente como museu a céu aberto, com diversas obras espalhadas entre as parcelas. Claro que a paisagem por si só também é uma obra artística.

Na degustação, os vinhos impressionam pela delicadeza, raramente primam pela exuberância. Em vez disso, a complexidade, a textura delicada e o final complexo ditam a regra nos vinhos do Domaine. O Domaine de Saint-Ser Cuvée Prestige 2014 rosé se mostra vivo, com grapefruit, especiarias (pimenta-rosa), cranberry, com álcool imperceptível e bom frescor; um bom passo de entrada ao estilo da casa. O Cuvée La Ermite 2014, além de Grenache e Syrah, traz 20% de Rolle (branca) e o resultado se mostra mais cítrico e elegante, com final de ervas frescas. Os tintos também merecem ser conhecidos e o Cuvée Tradition 2011 traz a fruta negra e vermelha da Syrah e da Grenache com os taninos firmes e bem macios da Cabernet Sauvignon. Um pouco menos típico, mas comportando-se como um grande tinto está o Les Hauts de Saint-Ser 2011, maior parte de Cabernet Sauvignon, de vinhas com mais de 35 anos de idade. Ainda jovem, o vinho tem estrutura potente, mas com álcool bem integrado e taninos acetinados. No nariz muita fruta vermelha madura com canela e um toque de baunilha. Para as próximas safras Jacqueline está testando duas ânforas de barro que estão parcialmente enterradas na vinícola e tanques de cimento em formato de ovo. Estes pensados para os brancos, 100% Rolle, que devem passar parcialmente por barricas. Esse é apenas o primeiro capítulo de uma vinícola dinâmica (e biodinâmica) que busca dar o próximo passo na qualidade e na singularidade dos vinhos da Provence. Vale a pena acompanhar as próximas safras.

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