Prazeres da mesa

Reportagem, Vinhos

POTENTE DA SERRA

Vertical do tinto Casa Valduga Storia Merlot mostra o grande momento da vinícola gaúcha

Por: Prazeres Da Mesa | 26.sep.2017

Por Marcel Miwa

Foto Divulgação 

O potencial da Merlot na Serra Gaúcha tem sido bastante propagado desde os anos 2000. No entanto, faltavam no mercado rótulos que de fato mostrassem sua grandeza. Eis que nos meados desta década surgiram esses vinhos, feitos com base na uva Merlot e com os cuidados típicos dos grandes do mundo: rendimento menor das videiras, seleção mais restrita dos cachos, fermentação em pequenos lotes e utilização de barricas de carvalho de boas tanoarias. A Casa Valduga está entre as vinícolas que aproveitaram a excelente safra 2005 (considerada uma das melhores da história para tintos no Vale dos Vinhedos) para lançar o Storia Merlot. Ele, que passou a ser o principal tinto da vinícola, nasceu com a proposta de ser lançado apenas em anos que o clima permita o perfeito amadurecimento da Merlot, uva tinta de casca razoavelmente fina e sensível à podridão, e com cuidados que requerem capital humano intensivo, desde a colheita até a vinificação.

Como regra geral, a Merlot que dá origem ao Storia provém do Vinhedo da Valduga, no Vale dos Vinhedos, conduzido em espaldeira. Uma primeira seleção é feita para deixar apenas os cachos de uvas com melhor formação e exposição ao sol (raleamento). Na fase da colheita, são feitas diversas passagens pelo vinhedo para colher cada cacho em sua fase ótima de maturação. Uma vez colhidos, os cachos são levados para a vinícola e, após o desengaçamento (separação dos galhos e grãos), é feita nova seleção dos grãos de uva. A fermentação ocorre em tanques de aço inox e, em seguida, segue para barricas de carvalho francesas novas, nas quais o vinho estagia de 12 a 18 meses. Depois de engarrafado, o vinho repousa de 18 a 24 meses na cave da vinícola antes de ir ao mercado. Resumindo: um protocolo de vinificação trabalhoso, mas necessário para alcançar a excelência.

Na vertical, faltou apenas a safra inaugural 2005, pois, segundo João Valduga, um dos comandantes da empresa: “Não imaginamos que o vinho daria tão certo no mercado, não tivemos a preocupação de guardar as garrafas, e o estoque se esgotou”. Mais importante que potência e longevidade do vinho, o grande mérito do Storia está na limpeza e precisão com que a fruta aparece, com o frescor típico dos tintos nacionais, sem notas herbáceas ou taninos agressivos. Vamos às nuanças de cada safra:

 Storia 2010

Storia 2011

R$ 230,36 (casavalduga.com.br)

Lançado na segunda metade de 2016, o vinho ainda está jovem. Os 18 meses em barricas francesas novas marcam o conjunto com aromas de pão tostado, malte e baunilha, na companhia de fruta negra madura (ameixa e amora) e bem definida. Na boca, mostra-se atraente, com ótimo frescor, taninos finos e com boa presença e álcool que não incomoda. A textura é macia e untuosa, e a fruta se mostra íntegra e fresca, provocando agradável salivação. O estilo é internacional, com precisão e sem o álcool de muitos exemplares do Novo Mundo. 93 pontos

Storia 2010 

A fruta segue o mesmo perfil de 2011, com ameixa e cereja madura e as notas das barricas: baunilha, malte e cravo, um pouco melhor integrados ao conjunto. Na boca, há boa acidez, mas taninos um pouco mais austeros, e a fruta se apresenta um pouco mais madura. No final, há um toque de álcool, que pode se integrar com mais tempo na garrafa, e as especiarias da madeira retornam com maior intensidade. Nota-se que o vinho está em fase de polimento na garrafa, alguma paciência deve ser recompensada. 90 pontos

Storia 2008 

A versão mais elegante do Storia. A fruta aparece de forma mais delicada (ameixa e cereja frescas), com toque floral (violeta) e madeira sedutora (pão tostado, baunilha e creme inglês), mas um degrau acima do da fruta. Os aromas já estão bem integrados, com leve couro começando a se mostrar na boca. Os taninos são finos e, somados à boa acidez e à mediana concentração, formam um conjunto bastante fácil de ser bebido. No final, o vinho também transmite a sutil sensação de calor, resultado dos 14% de álcool. 91 pontos

Storia 2006 

Com dez anos na garrafa, o vinho mostra boa evolução. As diversas famílias de aromas se apresentam com a mesma intensidade e ajudam na sensação de equilíbrio e complexidade. Fruta negra madura, violeta cristalizada, terra, tabaco, couro e café são as principais notas no nariz. Os taninos, em grande quantidade, estão bem amaciados pelo tempo e ajudam na estrutura do vinho, sem ressecar a boca. No final, a fruta permanece com bom vigor junto com elegante nota tostada. A acidez é suficiente para dar o drinkability. 92 pontos

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