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Roberta Sudbrack é a melhor chef mulher da América Latina

Chef vence Prêmio Veuve Clicquot Best Female Chef América Latina 2015 e acredita na conquista da gastronomia brasileira

Por: Prazeres Da Mesa | 19.aug.2015

Por Isabel Raia
Fotos divulgação

chef Roberta Sudbrack (2)Conhecida pelo cuidado e valorização com o ingrediente e por usar técnicas clássicas na cozinha, a chef carioca Roberta Sudbrack, do restaurante Roberta Sudbrack, foi anunciada vencedora do Prêmio Veuve Clicquot Best Female Chef América Latina 2015 e receberá o reconhecimento durante o anúncio dos 50 Melhores Restaurantes da América Latina, que acontece no dia 23 de setembro, na Cidade do México.

Recentemente a chef foi finalista do prêm io Melhores do Ano Prazeres da Mesa/ Cacau Show nas categorias: Restaurante do Ano, Livro do Ano com sua obra Eu Sou do Camarão Ensopadinho com Chuchu, e também como Melhor Comida de Rua com o Sud Dog.

Confira abaixo o bate papo com a chef.

PDM – Há alguns dias seu nome já era citado como favorito para vencer o prêmio. Você imaginava que iria ganhar?

Roberta Sudbrack – Não. Acho que esse prêmio é de todos nós, enxergo como algo brasileiro, uma conquista da nossa gastronomia, dos cozinheiros mais e menos conhecidos, das cozinheiras de forno e fogão, das mulheres maravilhosas que mexem os tachos de cobre para fazer doces incríveis pelo interior do país.Não tem relação direta comigo ou com a minha cozinha. É o fruto do que vemos semeando e plantando há muita gerações, desde a chegada dos franceses os quais sou fã: Claude Troisgros, Lauderent Suaudeau e Emmanoel Bassoleil. Eu não esperava o prêmio e não mudou nada na minha vida. Eu vibro como brasileira porque é importante para a nossa gastronomia.

O que acha que é preciso para destacar mais a cozinha brasileira?

Acredito que estamos no caminho certo. Não acredito no título de nova cozinha brasileira, gosto de chama-la de moderna porque acho que seria muita presunção deixarmos para trás toda a história, tradição e ligação com o passado como se estivéssemos escrevendo tudo novo. Estamos fazendo novas páginas de algo que existe, que é muito forte e está em todos nós. Todos os cozinheiros que se destacam no cenário nacional e internacional trazem junto uma brasilidade muito forte. Me orgulho porque estamos escrevendo essas páginas com muita tranquilidade e coerência, os frutos vão surgindo e vamos colhendo. O Brasil tem o que todos gostariam de ter. Não precisamos criar fatos ou parecer exóticos, temos uma infinidade de expressões, de cozinhas, ingredientes e frutas que é incrível. Só fico triste por causa da minha inquietação de saber que não terei tempo de conhecer toda essa riqueza.

Como você vê o papel da gastronomia do Brasil no mundo?

Estamos fazendo tudo com muita tranquilidade e sem a angústia de ser a próxima cozinha a aparecer e acho isso é ótimo. Temos chefs maravilhoso que levaram Brasil mundo afora como Alex Atala, Helena Rizzo, Rodrigo Oliveira e tantos outros… inúmeros chefs e cozinheiros desconhecidos que fazem trabalhos que emocionam. Às vezes vamos a uma cidade do interior e encontramos um arroz tão bem feito ou um molho de carne beirando a perfeição e é incrível! Então acho que estamos no caminho certo. Quando o Guia Michelin chegou aqui no ano passado, muitas pessoas criticaram, gerou polêmica, eu não me pauto por isso. Mas achei interessante que eles chegaram na América do Sul pelo Brasil e isso é reflexo de uma cozinha com muita coerência e consistência e de trabalho sério feito durante muitos anos.

chef Roberta Sudbrack (3)Você caminha na contramão da cozinha tecnológica, gosta de buscar a essência dos preparos e principalmente dos produtos. Por que tomou esse rumo?

Acho que tem a ver com a minha filosofia de vida, com o que gosto. O artesanato pra mim é fundamental, assim como o contato humano. Sempre quis fazer uma cozinha que fosse moderna e dialogasse com a gastronomia mundial, mas que fosse feita a mão porque gosto de construir tudo do início ao fim. É um caminho mais longo e difícil, mas nunca fui de pegar as vias expressas, gosto de passear pelas estradas menores e ir parando nas cidadezinhas para conhecer. Sou uma pessoa chata com as minhas convicções, mas respeito quem faz diferente e acho que existe espaço para tudo. A gastronomia é livre e é isso que faz dela algo tão fanstástico. Quando lancei essa proposta de mudar o menu todos os dias era muito novo e chocante. Foi difícil fazer essa mensagem ser aceita, mas, no fundo, isso era o passo que precisávamos dar para estar coerente com a natureza e com o que ela pode nos dar. Fizemos e hoje muitos restaurantes trabalham com essa ideia.

Quais são seus próximos planos? Há uma nova casa em vista?

Sim, o DaRoberta vai mostrar um outro lado meu que é a comida de rua. Isso está no meu sangue e faz parte da minha história, afinal comecei a vida vendendo cachorro quente na calçada. Viajei o mundo para explorar e conhecer essa coisa de comida de rua que, apesar de parecer simplista, não é. Há uma conexão muito forte com a qualidade, a procedência e a integridade dos alimentos. Além disso, o fato do preço ser mais acessível me encanta. Então, o novo espaço será um bar de comida de rua, sem copos ou pratos, mas com ingredientes artesanais como a salsicha que desenvolvi durante um ano com uma produtora do interior de São Paulo. E escolhi uma rua aqui no Leblon que é conhecida como “rua das oficinas”, não tem nada de comida por lá, e o bar será montado em uma antiga borracharia.
Ah, e o SudTruck teve agora o projeto aprovado e vai começar a circular pelas ruas. São coisas que tenho feito com uma alegria imensa. Sou muito inquieta, se sirvo três vezes seguidas o mesmo prato já fico enlouquecida e preciso inventar uma coisa nova. Estou encantada com a comida de rua e com a oportunidade de dar voz ao produto artesanal.

 

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