Prazeres da mesa

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Segredos de Minas

Além da vasta história entremeada com a exploração do ouro, Tiradentes guarda costumes e tradições culinárias agora desvendados por Tanea Romão

Por: Prazeres Da Mesa | 9.feb.2017

Por Fabiana Badra Eid, de Tiradentes*

Fotos António Rodrigues

Quando voltou da Colômbia em 2012, após participar de um projeto da Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) divulgando a Copa do Brasil no exterior, Tanea Romão foi convidada para levar suas geleias para a cidade histórica de Tiradentes, em um evento da Secretaria de Turismo de Minas Gerais. Ao avistar a luz do fim de tarde espelhada na Serra de São José, pensou que gostaria de morar na cidade – mas jamais imaginaria que, depois de poucos meses, ali seria o novo endereço de seu Kitanda Brasil.

Misto de restaurante e fábrica de geleias, já conhecidas no mercado pelo uso de pectina de maçã na composição e pelos sabores inusitados, a chef autodidata construiu fama na cidade de Gonçalves (também em Minas), mas resolveu partir para novo destino. Em Tiradentes há três anos, a casa com muro de pedras e jardim interno parecia estar à espera da chef. Tanea se encantou pelo lugar e foi tudo dando certo para ela ficar de vez. “A cidade me escolheu”, diz ela, com um sorriso.

Tiradentes é também uma surpresa no quesito gastronomia: além de fazer parte das cidades históricas de Minas Gerais, já foi um dos locais de onde mais se extraiu ouro no Brasil. Chamada de Arraial Velho de Santo Antônio e Vila de São José do Rio das Mortes, somente em 1889 é que ganhou o nome Tiradentes, em homenagem ao herói da Inconfidência Mineira. Com um dos centros históricos de arte barroca mais bem preservados do Brasil, voltou a ter importância turística na metade do século XX.

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Entre suas belezas encontra-se a Matriz de Santo Antônio, datada de 1710, segunda igreja barroca construída com ouro no Brasil, e uma parte da Estrada Real – que no século XVIII foi percurso de escoamento do metal precioso. E como o turismo atrai boa comida, a cidade é recheada de lugares com tradição mineira ou novidades difíceis de passarem despercebidas.

A 190 quilômetros de Belo Horizonte e com tantos atributos e espaços para se conhecer, nossa anfitriã, como boa pesquisadora que é, fez um roteiro especial para Prazeres da Mesa mostrando um pouco do que existe na cidade e nos arredores e como encontrou seus fornecedores. Um guia pela riqueza das plantações, da queijaria, dos doces, cachaças, enfim, tudo o que está intimamente ligado ao mundo da boa comida.

Começando por uma das preciosidades: vizinha a São João del Rei, na região do Campo das Vertentes, em Coronel Xavier Chaves, está a fazenda que produz o queijo catauá – que, como diz Mariana Rezende, filha do produtor João Dutra, “já vem vestido para vender”, por ganhar uma redinha na embalagem. O catauá é feito com leite bovino cru e tem maturação prolongada; a receita lembra a do queijo português da Ilha de São Jorge, trazida pelos antepassados de João Dutra, que vieram de Portugal no século XVII com o gado caracu. João conta que, com o tempo, o gado perdeu a linhagem pura e agora fazem o queijo com o leite da raça jersey, rico em caseína, o que quer dizer maior teor de gordura também e, consequentemente, mais riqueza de sabor.

O catauá, originário dos Açores, tem fermentação natural e produção de pequeno porte, limitada a cerca de 800 queijos por mês. Dutra explica que preserva o pasto nativo, de que o gado tanto gosta, e isso faz parte do terroir. A criação recebe tratamento homeopático, fazendo com que o queijo não perca sabor e autenticidade.

Pegando a estrada de volta para São João, um pouco mais adiante do centro, encontramos a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e fomos conhecer o banco de hortaliças não convencionais que forma a maravilhosa horta. Você já ouviu falar em beldroega, araruta, chuchu de vento, vinagreira? Essas e muitas outras são espécies que estão em processo de multiplicação na Fazenda Experimental Risoleta Neves, criada em 2010, como alternativa de alimentação e renda para agricultores familiares do estado mineiro.

Como conta a pesquisadora Izabel Cristina dos Santos, dessa forma mais de 20 espécies crescem de modo sustentável, com cultivo orgânico, sem o uso de venenos ou agrotóxicos, preservando espécies nativas e outras que se desenvolvem bem ali. A ideia é propagar o uso das hortaliças com cursos, divulgação e distribuição das mudas.

Por falar em horta, várias propriedades em volta da cidade de São João fazem parte do roteiro de agroturismo Colônia Viva. São quase todos descendentes de imigrantes que chegaram à cidade por volta de 1888 e criaram raízes na terra, desenvolvendo o cultivo de hortaliças, frutas e legumes – e hoje recebem turistas para visitas, café da manhã e para comercializar os produtos.

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O Sítio São Geraldo é uma das opções para visitar. A proprietária Regina Maria Taroco mostra com muito orgulho toda a força do agricultor que trabalha na terra. Os 24 hectares de terra têm canteiros gigantes de hortelã, brócolis, couve, mandioca crescendo em uma bela paisagem. Além da enorme plantação, Regina e a família ainda produzem linguiça e fubá de moinho de pedra. Literalmente, uma delícia de lugar.

Na região, esse tipo de atividade vem crescendo bastante. São muitas as alternativas de visita, como o Sítio Giarola, onde 30 variedades de mudas são cultivadas por Romildo Giarola – muitas delas ainda em forma de brotos, muito apreciados pelos donos de restaurantes da região, como os de alface, chicória, almeirão. Mais adiante um pouco, o café da manhã da Fatinha, com hora marcada, tem feito sucesso. Rosane Fátima de Almeida (a Fatinha) serve bolos variados, broa de fubá, rosquinhas, casadinho de goiabada, biscoito de polvilho, manteiga e queijo. Tudo feito por ela.

Saindo de lá, em direção ao centro de Tiradentes, em uma das principais ruas está a placa do Chico Doceiro, com tradição de mais de meio século fazendo doces que até hoje são únicos em ponto e textura. Ainda à frente do negócio, seu Chico recebe diariamente leite de Vitoriano Veloso (lugar apelidado de Bichinho), que é fervido com um pouco de açúcar para dar o ponto ao famoso doce de leite que recheia o canudinho de massa folhada feita ali mesmo, pelas mãos abençoadas do Chico doceiro. Além do doce de leite, brigadeiro, doce de figo, cocada, cajuzinho e mais 12 tipos de docinho são exibidos diariamente na vitrine de madeira com vidro. Com 84 anos de idade, elegante e muito simpático, Chico se sente feliz em preparar as guloseimas – e quem prova não as esquece jamais.

Já que falamos em Bichinho, esse é outro lugar imperdível para quem passa por Tiradentes. A comunidade está no Circuito Turístico da Trilha dos Inconfidentes e na Estrada Real que faz parte de Prados. Cheia de casas de artesanato, também oferece vista para a magnífica Serra de São José, delícias da comida mineira. Passando por lá, não deixe de almoçar no restaurante Tempero da Angela, comida mineira de primeira qualidade, feita em fogão a lenha, com uma variedade e frescor de tal ordem que fica difícil escolher o que se vai comer.

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 Mais descobertas

Nossa guia Tanea Romão virou cozinheira por causa das geleias. Nessa brincadeira, começou a cozinhar usando o produto como um ingrediente dos pratos. Para aguçar a criatividade de alguns chefs da cidade, ela propôs um desafio a um pizzaiolo, um restaurante mexicano e um de cozinha brasileira contemporânea.

Aceita a provocação, os três escolheram um sabor de geleia e voltaram no dia combinado, com o prato pronto. Milton Ricardo, da Pizzaria S. Barthô, veio com piadina de massa de pizza crocante e fina, com recheio de curry de banana, do Kitanda Brasil, e girândola Vertenties, uma massa enrolada com queijo camembert e geleia de abacaxi da casa. Ótima combinação.

Rodolfo Mayer, do Angatu, optou por uma salada de truta grelhada, com tucupi preto e chutney de manga, trazendo ao paladar sabores doces e salgados que combinam entre si. Sobremesa de sotaque mexicano, Rejane Cunha, proprietária do restaurante CasAzu, escolheu um doce que Frida Kahlo com certeza aprovaria: taco com frutas frescas, creme azedo e geleia de pimenta. A pimenta exalta o sabor das frutas e faz par perfeito com a tortilha, o creme azedo e o frescor da hortelã.

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Recolhendo um ingrediente aqui outro ali, de tantos lugares visitados em poucos dias com a equipe de Prazeres da Mesa, está na hora de voltar para a casa de nossa anfitriã e esperar pelas surpresas que ela vai preparar. Como a pesquisa está no sangue, logo que chega a um novo local, Tanea vai atrás de fornecedores e sai garimpando ingredientes que lhe interessam. A partir daí, mergulha na origem das receitas e no modo de fazê-las. Testes são feitos usando as técnicas e os ingredientes locais para transformar as novidades em pratos que serão servidos no Kitanda.

O cardápio tem novidades quase todos os dias em que o restaurante está aberto. Para a revista, Tanea preparou bochecha bovina com purê de mandioquinha e beldroega (bochecha desossada artesanalmente pelo açougueiro Amarildo Rodrigues de Carvalho, no Açougue Shopping da Carne); costelinha de porco com tucupi em cama de mamão verde; lambari da horta; língua na cerveja preta com polenta de fubá de moinho e pesto de azedinha; pé de porco recheado.

Todas servidas com charme, muitas vezes em marmitas com tecidos de chita acompanhadas das caprichadas caipirinhas da casa – com folhas de pitanga do quintal, cachaça boa e muita criatividade. Tudo bem apetitoso e com sabores genuínos. Como diz a chef, “o Kitanda Brasil é um restaurante em que a pessoa deve estar disposta a resgatar uma história que faz parte da vida do brasileiro”.

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Confira as receitas de piadina kitanda, girandola vertentes, salada de truta grelhada glaceada no tucupi preto com agrião e coentro, taco de frutas frescas, bochecha bovina com purê de mandioquinha e beldroega, costelinha de porco com tucupi em cama de mamão verde, lambari da horta, língua na cerveja preta, com polenta de fubá de moinho e pesto de azedinha, e pé de porco recheado.

Kitanda

Rua Padroeiro Santo Antônio, 240, tel. (32) 3355-1560,

Tiradentes, MG

Queijo Catauá

cataua.com.br

Açougue Shopping da Carne

Rua Frei Cândido, 210, Fábricas, tel. (32) 3772-8853,

 São João del Rei, MG

Sítio São Geraldo

Colônia do Recondêngo, s/no, tel. (32) 9802-7678

Café da Fatinha

Rua Eugênio de Almeida, 365, Colônia do Giarola, tel. (32) 3373-4015

Informações Roteiro Agroturismo Colônia Viva

roteiros@vemprasaojoa.com.br

Tempero da Ângela

Rua Dep. José Bonifácio Filho, 64, Centro, tel. (32) 3353-7010,

Bichinho, MG

CasAzu

Rua da Cadeia s/no, Centro, tel. (32) 3355-1868, Tiradentes, MG

Angatu

Rua Santíssima Trindade, 81, tel. (32) 3355-1391, Tiradentes, MG

Chico Doceiro

Rua Francisco Pereira Morais, 74, tel. (32) 3355-1900, Tiradentes, MG

Pizzaria S. Barthô

Rua Francisco Cândido Barbosa, 31A, Centro Histórico, tel. (32) 3355-2300, Tiradentes, MG

*Matéria publicada na edição 152 de Prazeres da Mesa

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