Prazeres da mesa

Reportagem, Sem categoria, Viagens

Sinta a tailândia

Uma experiência única e inesquecível de aromas marcantes com um dos povos mais gentis e receptivos do planeta

Por: Prazeres Da Mesa | 12.apr.2016

Por Carolina Esquilante

Fotos: Carolina Esquilante e divulgação

Ao deixar o aeroporto de Suvarnabhumi, em Bangcoc, já é possível sentir o cheiro característico das ruas da Tailândia. A princípio, quem nunca visitou o país não vai perceber, mas após uma semana transitando por lá fica impossível não associá-lo aos condimentos, principalmente o curry, que se faz presente em todos os restaurantes e lares locais. A viagem exaustiva até a capital, Bangcoc, leva mais de um dia, saindo de São Paulo, pela Turkish Airlines. São 13 horas até Istambul, na Turquia. Caso tenha sorte, a conexão é imediata, mas na volta para o Brasil foram 5 horas de espera no aeroporto. De Istambul, são mais 9 horas e meia, aproximadamente. Entretanto, todo esse tempo em tráfego e o fuso horário de 10 horas são recompensados com as espiadas iniciais na cidade, ainda no trajeto para o hotel, e nos primeiros contatos com os tailandeses, um dos povos mais alegres e receptivos que já conheci. Os templos, a culinária picante, mas com frescor, as praias e as cores da Tailândia fazem do país um destino imperdível.

Bangcoc

A cultura riquíssima fica evidente logo na chegada ao hotel Shangri-la, onde o turista é recebido com pulseiras feitas de flores frescas e com o cumprimento local, em que se une as mãos, eleva os dedos até a altura do nariz, inclina o corpo para a frente e se diz Sawadee Kaa, para mulheres, e Sawadee Krap, para os homens. A construção do luxuoso hotel oferece um panorama do que o visitante vai encontrar no país, com 65 milhões de habitantes, dos quais 95% s„o budistas. O ambiente, com muitas velas, pinturas antigas da cidade, imagens de elefantes, considerados sagrados, e flores diferentes, aguça a imaginação para o que está por vir.

Ainda lá é possível ter o primeiro contato com o que eles chamam de Sarn Phra Phoom, “casa dos espíritos”. A pequena acomodação, de acordo com a crença tailandesa, deve estar presente em todas as construções como sinal de respeito aos espíritos bons que já habitaram aquele local. É uma forma de pedir proteção contra os espíritos ruins. O povo a respeita da mesma maneira que têm deferência pelos avós. Quando se chega à casa de alguém, deve dirigir-se ao local sagrado e dizer que não fará nada de mal ás pessoas daquela família. É algo que impressiona antes mesmo de  o significado ser compreendido. Até as residências mais simples são sempre enfeitadas, bem cuidadas e é possível  observar algumas oferendas às almas dos ancestrais.

Assim como as construções, a cultura e os templos -um mais incrível do que o outro – impressionam. O contraste entre luxo e pobreza é muito grande e presente no dia a dia do país, onde hotéis luxuosos destoam das moradias humildes.

Em relação á comida, o Shangri-la também apresenta uma amostra do que o visitante encontrará pelo país. Logo no café da manhã, noddles e curry. Caso não tenha estômago para encarar uma refeição dessas tão cedo, o cardápio conta com desjejum internacional também, e serve croissants maravilhosos, torradas, diversos tipos de ovos e um chocolate frio que vale muito a pena, além de uma vasta mesa de frutas locais.

Ainda em Bangcoc, tivemos as primeiras percepções do custo da Tailândia: preços absurdamente baixos, tanto em hospedagem quanto para comer e fazer compras. Ainda assim, o divertido é negociar com os vendedores, que, tão logo avistam o cliente em sua barraca, na rua ou nas lojas, correm atrás com calculadora informando o preço e esperando pela contraproposta. A moeda local, o baht, é desvalorizada, e 1 dôlar vale cerca de 33 bahts. Na maioria das vezes é possível conseguir o produto por até metade do que foi pedido inicialmente, para isso, basta investir na negociação. Em Bangcoc o turista pode se aventurar no Asiatique Riverfront, uma espécie de shopping a céu aberto, com tudo o que se pode imaginar, de roupas, pashiminas e imagens de Buda a equipamento de muay thay – luta típica de lá e com adeptos em todo o globo-, capas de almofada e essências. O lugar conta também com alguns restaurantes, mas o foco principal são as compras.

01/12

Sala Rim Naam

Logo que cheguei à Tailândia fui conhecer o restaurante Sala Rim Naam, que pertence ao Hotel Mandarin Oriental, o primeiro a ser construído no país, em 1879, e famoso por receber os visitantes com uma apresentação teatral, encenada com danças, sem falas, que abrilhanta e muito a refeição. Figurino, maquiagem, cabelo e instrumentos musicais específicos enchem os olhos de quem assiste. Tudo muito colorido e realizado com belíssima delicadeza.

Na primeira parte da “peça” é contada a história de Suwannamalle, uma lendária mulher, distinta por sua beleza. Ela fica no centro do palco, enquanto outras três personagens entram em cena carregando flores de lótus, e alguns homens tocam instrumentos musicais. Suwannamalle é muito retratada na literatura tailandesa, é como se sua beleza, comparada à de flores raras, iluminasse a natureza das outras mulheres, que revelam suas qualidades por meio dos movimentos do corpo. Nos atos que seguem, a admiração continua, porém o menu, preparado pelo chef Narain Kiattiyotcharoen, um dos professores de culinária da escola do hotel, rouba a cena, e as sensações picantes e de frescor, presentes em todos os pratos servidos, dominam os clientes. Segundo Narain, a nitidez de pimenta e especiarias em um prato de curry é atenuada e equilibrada pela doçura do creme de coco, o que só aumenta os sabores de ingredientes mais delicados. Apesar de ser um picante diferente para o paladar do brasileiro – eles realmente dominam o uso das pimentas e até mesmo quem não é muito chegado ao ingrediente acaba se apaixonando pelo tempero- , alguns pratos são muito fortes, e o nível de ardência é indicado no cardápio com desenhos de pimentinhas. O curry é, sem dívida, um dos casos que fazem o comensal literalmente chorar. É um mix de sabores, sensações, difícil de explicar, na verdade, é uma experiência, que vale a pena vivenciar.

Apesar do desenho das pimentas, até os pratos em que elas não estão indicadas são picantes, mas, ao mesmo tempo, delicados e equilibrados. A maioria dos preparos é acompanhada por um arroz branco parecido com o gohan (arroz japonês). Naquela noite, uma das receitas marcantes foi um trio de “petiscos” que misturava peixe frito, salsicha picante e pata de caranguejo, com cubos de melancia para suavizar o efeito da pimenta. O porco também aparece em muitos preparos e, durante o jantar, foi servido com salada e frutas, que davam o frescor necessário ó fato essencial para o chef, que faz questão de mudar o menu de acordo com a sazonalidade dos ingredientes, para levar o que há de mais fresco aos clientes. “O povo tailandês tem o costume de equilibrar diferentes sabores: salgado, picante, azedo, doce e às vezes amargo. As texturas dos alimentos também desempenham um papel muito importante em nossa culinária e é por meio desse contraste de sabores e texturas que a comida tailandesa se torna tão fascinante e única”, afirma Narain.

O menu seguiu cheio de sabores e surpresas, assim como todas as refeições na Tailândia. Os molhos agridoces tinham presença garantida, principalmente à base de alho crocante.  “Alguns ingredientes, como raízes de coentro, alho e pimenta-branca, não deixo faltar na minha cozinha. Eles adicionam aroma e realçam o sabor de todos os tipos de carne e frutos do mar”, diz o chef.

As sobremesas são muito coloridas, e o coco tailandês, presente em vários preparos, é de sabor e textura incomparáveis. Sendo possível encontrá-lo em mix de frutas, com pérolas de tapioca e como sorvete. Ao final da refeição, Narain fez questão de deixar uma mensagem: “Acredito que, quando mostro a culinária tailandesa para visitantes estrangeiros, revelo a minha verdadeira identidade e tenho a oportunidade de mostrar-lhes a diversidade da minha cultura. É com grande orgulho que apresento um pouco da Tailândia por meio da comida”.

01/12

Entendendo a culinária

A gastronomia tailandesa é um divisor de águas, não tão radical quanto “ame ou odeie”, mas seus fortes condimentos e sabores exóticos fazem muitos torcer o nariz. E isso ficou claro após a experiência na Sala Rim Naam. Para os que experimentam e viram amantes dessa “arte”, as escolas locais são um prato cheio para voltar para casa com uma bagagem valiosíssima. O Blue Elephant, da chef Nooror Somany, é a pedida certa.

Para começar, é realizada uma visita guiada, por ajudantes da chef, ao mercado local, para conhecer todos os ingredientes que serão usados, caso de ervas, frutas e peixes. Transitar por ali é uma tarefa difícil, pois o espaço é disputado também por motoqueiros, mas o contato direto com os produtores e as explicações são muito valiosas. Provamos o kaffir lime leaf, uma folha que parece eucalipto, que dá um fruto verde e pequeno, do qual se utiliza a casca ralada para fazer o curry. O lemon grass, conhecido também por cymbopogon, é uma erva verde e comprida, da família da citronela e do capim-limão. Já o pakchee È uma espécie de coentro usado para sopas. Algumas frutas como o rumbutan e o mangosteen, além do tamarindo doce, cujo sabor lembra o de bananinhas, são usadas em preparos agridoces. Isso sem falar nas ervas que podem ser encontradas no Brasil, como a raiz e a folha de coentro. Para refrescar, conhecemos o cha yen, bebida vendida em um carrinho de rua que lembra um chá gelado, servida pura ou com leite, em um saquinho, que parece uma minissacola, com um canudo.

Ingredientes devidamente apresentados, os alunos voltam para a escola para colocar a mão na massa. Cada um recebe uma apostila com cinco receitas, que são executadas pela chef Nooror. Em seguida, cada um vai até sua ilha de trabalho e pode caprichar – mais ou menos -em alguns ingredientes, como as pimentas. A salada de pomelo – fruta que pode ser substituída pelo abacaxi -é ótima para iniciar a refeição por causa do frescor e do agridoce atribuído pelo molho de tamarindo. Na sequência, o peixe cozido no vapor, com ervas, pimentas e um toque de limão, jé mais forte, com temperos marcantes, mas ainda leve.

O noodle, presença garantida nas casas tailandesas, n„o podia ficar de fora, sendo preparado com leite de coco, frango, pimentas, e com uma superfície formada durante o processo de produção do leite de soja, que é retirada e levada para secar ao sol; receita mais cremosa e agridoce do que a habitual.

Para finalizar, o tradicional curry com frango, mas que também poderia ter sido preparado com carne ou somente com vegetais. Esse, sem dá vida, um dos pratos mais marcantes, que faz o comensal, literalmente, chorar. Após todo o trabalho de preparo, vem a parte divertida: provar tudo o que foi executado e receber o certificado de curso concluído.

Mas não é preciso cozinhar para desfrutar das delícias do Blue Elephant. Localizado em dois endereços na Tailândia, um em Bangcoc e outro em Phuket, a casa abre para almoço e jantar e apresenta um menu degustação para ninguém botar defeito, com pratos dos mais delicados aos mais picantes, que chegam à marca de quatro elefantes ó indicação máxima de picância no cardápio.

01/12

Floating Market e Maeklong

As atrações turísticas e culturais na Tailândia são inúmeras e imprevisíveis. É o caso de dois curiosos mercados, muito famosos, o flutuante e o da linha de trem. O primeiro é marcado por barquinhos que ficam nos canais do distrito de Damnoen Saduak, há cerca de 100 quilômetros de Bangcoc, e existe há mais de 100 anos. Antigamente, ali era aberto apenas aos moradores locais, que faziam as compras do dia a dia. Entretanto, com o aumento do número de turistas na cidade, virou parada garantida. Nos barcos é possível encontrar todo o tipo de comida, de frutas e temperos a preparos que fisgam os visitantes pelo estõmago, caso das panquequinhas de coco e das bananas fritas no leite de coco. Nos arredores, um amontoado de camelôs vende os mais diversos produtos, de pashiminas, sedas e roupas a imagens de Buda e objetos de decoração.

Já o mercado de Maeklong tem o diferencial de estar localizado na linha do trem. Qual não é a surpresa do turista ao chegar e avistar todos os comerciantes correndo para recolher as coisas do chão porque o trem está chegando? É no mínimo inusitado. De resto é uma feira comum, com venda de peixes, pasta de curry e comidas típicas. Apesar do número de turistas, é onde os moradores ainda fazem compras.

Aproveite a visita

Uma vez na Tailândia, vale a pena investir e visitar outras cidades. Não deixe de visitar Phuket, famosa por suas belas praias, como Maya Bay, conhecida por ter sido palco de filmagens de A Praia, lançado em 2000, com o ator Leonardo DiCaprio, e Chiang Mai, mais rural, com muitas árvores e vasta natureza. Os guias dizem que é uma cidade muito diferente de Bangcoc e procurada pelo ar puro e qualidade de vida.

Chiang Mai

  • O Night Bazaar em Chiang Mai é um prato cheio para os consumistas de plantão. É uma rua tomada por camelôs e mini-shoppings, ideal para comprar suvenires.
  • Hospede-se no hotel Anantara Resort & Spa, presente em mais de 11 países e que, além de oferecer ótima infraestrututra, tanto nas suítes quanto na área de lazer, é bem localizado e conta com ótimo restaurante. Destaque para o farto café da manhã, com opções típicas tailandesas para os que encaram pimenta logo cedo. 
  • O Hotel Dhara Dhevi vale a visita. Foram gastos mais de 80 milhões de dólares em sua construção. É um complexo cheio de detalhes que reproduzem os templos tailandeses e as casas de lá. Tudo planejado para agradar aos turistas, com cenários e atividades do dia a dia, bem cenográficos, com mulheres fingindo fazer artesanato, por exemplo.

Phuket

  • Hospede-se no hotel Regent Phuket Cape, que oferece serviço de primeira. A piscina de borda infinita, com vista para a praia privativa do hotel, já enche os olhos do turista logo na entrada. Carrinhos de golfe levam os hóspedes aos quartos mais distantes. Alguns contam, inclusive, com piscina privativa, ideal para quem vai em lua de mel. Estrutura de esportes aquáticos, bem como serviço de praia, é cortesia. O café da manhã é delicado e sofisticado, com muitos tipos de pães, geleias e até mel puro, servido em favos.
  • Uma vez em Phuket, o visitante não pode deixar de fazer o passeio de ferryboat pelas ilhas paradisíacas de Phi Phi. Separe um dia, ou dois, caso vá apenas visitar, ou hospede-se nos diversos resorts por lá. O tour até Maya Bay é um dos mais procurados, mas os arredores não deixam nada a desejar. Procure ir cedo, caso queira privacidade, no começo da tarde já fica praticamente impossível chegar com o barco perto da praia.
  • Faça uma pausa no Ao Ling (Baía dos Macacos), uma ilhota ocupada pelos primatas que fazem a festa dos turistas, mas, por favor, não os alimente ou dê bebida. A Tailândia não tem nenhum programa de proteção, então vai do bom senso dos turistas.
  • Almoce no Zeavola resort, com uma vista incrível para a praia. Ele conta com um cardápio de drinques refrescantes e petiscos de frutos do mar e frango ao curry, cestinhas de camarões apimentados e cozidos.
  • Mergulhe em Mosquito e Bamboo Island. A água é tão transparente que antes mesmo de sair do barco é possível vislumbrar o colorido dos peixes. Uma experiência inesquecível e tranquilizante.
  • De volta a Phuket, o restaurante Kun Eng, especializado em frutos do mar, é pedida certa para recuperar as energias pós-Phi Phi Island. Há mais de 40 anos em funcionamento, foi fundado por um pescador que queria oferecer os produtos que pegava. Hoje, é comandado por seu filho. É também ótima opção para dar um tempo nas pimentas e desfrutar de peixes frescos, camarões gigantes, lagostas grelhadas, ótimos drinques e um dos melhores sorvetes de coco da Tailândia. Há ainda música ao vivo e, como faz parte de um complexo de restaurantes do mesmo dono, conta com espaço japonês, adega e bar.
01/12

Matérias Relacionadas