Prazeres da mesa

Vinhos

Amor pela memória do vinho

A história da “Biblioteca Vinária” de um apaixonado pelo vinho e por sua tradição

Por: Prazeres Da Mesa | 29.aug.2018

Carlos Cabral 
Fotos Ricardo D’Angelo

O engenheiro civil Juan Carlos Reppucci, argentino nascido em 1942, imigrou para o Brasil há muitos anos e aqui teve um grande sucesso profissional em sua área de trabalho. Sempre gostou de vinho, mas, particularmente, chamava-lhe a atenção sua história. Há 30 anos, Reppucci deu início a uma coleção de livros cujo tema principal é o vinho. Nestes últimos anos, ele foi fazendo contato com muitas das tradicionais livrarias, alfarrabistas e antiquários de todo o mundo à caça de livros que tivessem como tema o vinho e suas diferentes ramificações. Desde sua origem, pesquisas sobre castas de uva, cultivo, vindima, estudos de ampelografia, de doenças, de métodos de vinificação até chegar ao vinho e seus diferentes terroirs.

Com paciência de monge beneditino, no decorrer destes últimos 30 anos, Reppucci reuniu exatamente 6.500 livros sobre o tema, e os conserva em um apartamento contíguo ao seu.

Posso afirmar que poucas bibliotecas no mundo têm um acervo temático como esse, no qual o vinho recebe toda a atenção. A biblioteca tem 80% de suas obras sobre a bebida, os restantes 20% tratam da presença do vinho nas religiões, na medicina, na botânica etc. Chama muita atenção a coleção de incunábulos, que são livros impressos nos primórdios da imprensa inventada por Gutenberg na Alemanha. Esses raros exemplares são de antes do ano de 1500, estão em perfeito estado de conservação e são todos uma verdadeira joia, que exprime o conhecimento humano. São peças para a eternidade, pois, além de abordarem o tema vinho, revelando a cultura da época, esses incunábulos são autênticas obras de arte, portanto, as iluminuras que apresentam são um capítulo à parte. Essa coleção de hoje, denominada por Reppucci de “Biblioteca Vinária”, tem 84 exemplares dessas joias. Só para ter uma ideia, nossa Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, com quase dois séculos de história, tem em seu acervo 216 incunábulos.

A organização da Biblioteca Vinária obedece aos padrões universais de biblioteconomia.Tudo muito organizado, fichado e registrado. Chamam atenção as obras completas de Plínio, o Velho, naturalista, autor latino do século I d.C., editado em 1476 – obra traduzida do latim para o italiano arcaico e ofertada ao rei de Nápoles. Há também o Libro Della Agricultura, de Pietro Crescenzi, edição de aproximadamente 1450. Uma rica coleção de livros ilustrados chamada “Pomona Italiana”, de Giorgio Gallesio (1817-1839), que teve a restrita edição de somente 170 exemplares, está ali presente e enche os olhos de quem a admira pela riqueza das ilustrações referentes às uvas mais cultivadas na Itália.

Portugal está presente na Biblioteca Vinária com diversas obras, mas se destaca a primeira edição do livro Portugal Vinícola, de Cincinnato da Costa, de 1900, especialmente elaborado para ser exposto na Exposição Universal de 1900. Outro exemplar curioso é uma obra intitulada Le Portugal au Point de Vue Agricole, editada em Lisboa em 1900. Destacam-se também o fac-símile da criação da Companhia Geral da Agricultura do Alto Douro, de 10 de setembro de 1756, e uma cópia da sentença imposta aos revoltosos do Porto, da chamada Revolta dos Taberneiros, de 23 de fevereiro de 1757.

Entre esse paraíso de livros não podia faltar uma edição da Bíblia. Afinal, nesse livro sagrado o vinho é citado mais de 150 vezes e com destaque. Assim, há na Biblioteca Vinária um fac-símile da primeira Bíblia impressa por Gutenberg, na Alemanha, em 1456.

Para celebrar os 30 anos consecutivos de dedicação a essa coleção, Juan Carlos Reppucci teve a brilhante ideia de mandar imprimir um livro contando um pouco dessa história e revelando, com textos e fotos, o que julga ser mais importante em sua coleção. Esse livro chamado Uma Biblioteca Vinária é uma edição do autor com 3.000 exemplares e terá uma parte ofertada e outra vendida com renda para uma entidade beneficente.

Reppucci continua firme no caminho de cada vez mais ampliar sua coleção e, para isso, anualmente viaja pelo mundo para recolher exemplares que vão sendo acrescidos a esse imenso tesouro. Essa é uma prova irrefutável do amor que esse senhor tem pelos vinhos. Uma de suas alegrias é estar sempre reunido com amigos em sua Biblioteca Vinária, degustando vinhos e saberes ao mesmo tempo.

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