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Brasil registra milésima cervejaria e setor comemora

Crescimento foi impulsionado pelas marcas artesanais e pela mudança de perfil do consumidor, que está cada vez mais interessado em qualidade e variedade

Que o brasileiro ama cerveja, todo mundo sabe. O que tem mudado, no entanto, é o perfil dos consumidores. Se antes existia a preferência por uma única marca de cerveja, hoje, com tantas opções nas gôndolas, a regra é experimentar. “É o consumidor que dirige o crescimento da indústria”, afirma Carlo Lapolli, presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal). “A nova geração de consumidores está muito mais conectada e aberta a mudanças.”

Como resultado, em maio deste ano o Brasil chegou à marca de mil cervejarias registradas pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). “Esse número é icônico”, diz Carlo. “Hoje existem cervejarias em praticamente 500 municípios, que reúnem juntos cerca de 90 milhões de habitantes. Ou seja, quase a metade da população brasileira já está perto de uma cervejaria artesanal.”

O crescimento significativo do setor também abriu espaço para que o movimento cervejeiro se expandisse para além das regiões Sul e Sudeste, ganhando força em outros cantos do país. Tanto é que a milésima cervejaria, a Mascarenhas, é da cidade Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador.

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Produção tupiniquim

Ao mesmo tempo em que o mercado ainda está em expansão, se comparado ao de outros países com forte cultura cervejeira, o número de fábricas brasileiras teve um boom surpreendente. Ao fim de 2009, por exemplo, havia apenas 255 indústrias ativas. Isso significa que, em 10 anos, o cenário quadruplicou, tendo mais de 100 fábricas sendo inauguradas no país, por ano .

Segundo o presidente da Abracerva, as cervejarias artesanais são as grandes responsáveis por esse número hoje celebrado pelo setor. “Ano passado, mais de 6.000 rótulos foram lançados”, diz. “Isso mostra que o brasileiro é bastante criativo e inovador. Marcas internacionais têm alto custo de importação. E acredito que a popularização da bebida ajuda a formar esse novo consumidor com olhar diferenciado para a cerveja artesanal.”

Cervejeiro profissional

Randy Mosher. Foto: DP Conteúdo | divulgação

A cerveja importada, no entanto, ainda tem papel importante em educar o consumidor a identificar produtos de melhor qualidade. “Aqui no Brasil, costumamos reproduzir as tendências lá de fora”, diz a sommelière e mestra de estilos Taiga Cazarine. “Os estilos catalogados pelo guia americano da Brewers Association dá um norte aos produtores.”

Em relação ao crescimento, Taiga diz que o mais importante e bacana nesse cenário é o aperfeiçoamento da profissão. “O brasileiro é apaixonado por cerveja. Por isso, muita gente que se jogou nesse mercado por hobby não tem expertise. Mas, agora, há o interesse em se profissionalizar.”

O americano Randy Mosher, autor de icônicos livros sobre a cultura cervejeira, também defende tal ideia. “Você pode fazer cerveja muito boa confiando apenas em suas papilas gustativas. Mas chega um momento em que é preciso evoluir para o trabalho de laboratório”, afirma. “Já é difícil o suficiente fazer uma IPA de qualidade, por exemplo, mas para elaborar uma boa Sour ou Fruit Beer é ainda mais complicado. São desafios de receita e também de técnica. Ainda não há pessoas engajadas o suficiente no conhecimento da tecnologia, da química dos sabores. Isso é verdade no Brasil, nos EUA e em todos os lugares.”

É do Brasil

Referência quando o assunto é cerveja, Randy Mosher visita o Brasil desde 2009 e pôde acompanhar um pouco esse crescimento. “Na época havia cervejarias como Eisenbahn, Baden Baden e Colorado que já estavam há algum tempo no mercado. A Brasil Brau (grande evento profissional da indústria cervejeira no país) tinha diversos stands pequenos com cervejeiros caseiros que faziam as receitas no porão; engarrafavam e rotulavam suas cervejas e vendiam para bares locais. Era um cenário underground e meio informal. É muito bom ver como a escala cresceu de lá para cá e também como as pessoas estão interessadas em fazer cerveja brasileira e não americana”, conta.

Em parceria com a cervejaria Tarantino, de São Paulo, Mosher lançou um rótulo colaborativo intitulado Rabo de Águia, em referência ao drinque rabo de galo. A cerveja é uma Catharina Sour, primeiro estilo genuinamente brasileiro e elaborado por cervejeiros de Santa Catarina. A receita, por sua vez, leva jabuticaba e cambuci.

“Sou fascinado por vermute e fiz uma receita para cervejeiros caseiros da Espanha, onde o drinque é muito apreciado”, diz. “Mostrei tal receita para a Tarantino, que propôs adaptá-la ao contexto brasileiro. E isso é uma das melhores coisas que a cerveja artesanal é capaz de proporcionar, mesclar culturas e ainda criar algo novo com ingredientes locais. Isso me deixa muito animado.”

O rótulo foi distribuído em duas feiras que aconteceram em São Paulo no começo deste ano: a Brasil Brau e a Mondial de la Bière. “Esses eventos são uma vitrine”, afirma Taiga. “É uma chance de entender o que está acontecendo no mercado. Tínhamos por lá cervejas do Brasil inteiro. Além de ajudar a movimentar o mercado ao reunir pessoas interessadas em investir.”

Rabo de Águia, Catharina Sour da Tarantino em parceira com Randy Mosher | Foto: DP Conteúdo, divulgação

 

Futuro promissor

Apesar do cenário otimista, empreender no Brasil ainda é um desafio. “Nosso ambiente econômico é delicado”, afirma Lapolli. “Vivemos quatro anos de crise, com um PIB praticamente negativo. A renda ainda é um fator muito importante, que pode atrapalhar o consumo fora do lar. Sem contar a regulamentação no Brasil, que é um pouco complicada na questão tributária, dificultando a venda a outros estados.”

“Mas o Brasil é visto com entusiasmo”, garante Taiga, que está sempre acompanhando o mercado mundial. “Quando avalio cenas do setor cervejeiro, principalmente dos EUA, percebo que a construção do cenário é igual para todos. O conselho que posso dar é ser criativo e entender o público-alvo.”

“A perspectiva tem mudado em uma evolução muito rápida. Em 10 anos praticamente saímos de 200 cervejarias para 1.000. E isso acompanha também a mudança do consumidor”, diz Lapolli. “Acredito que agora ele começa a conhecer a cerveja artesanal, já que as tem disponíveis nas prateleiras dos supermercados. Talvez estejamos vivendo uma nova era da cerveja artesanal, com a democratização do produto.”

 

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Beatriz Albertoni

A paulistana divide-se entre duas paixões: jornalismo e gastronomia. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, a repórter está na redação de Prazeres da Mesa desde 2015. Adora conhecer histórias, viajar e apreciar um bom show de rock, além de nunca recusar bolo acompanhado de cafezinho.

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