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Domaine de Triennes

Conheça os principais fatores que levaram dois titãs da Borgonha a se aventurarem na Provence

Imagine um vinho feito com as assinaturas de Aubert de Villaine, do Domaine de la Romanée-Conti, e Jacques Seysses, do Domaine Dujac, cujo preço sequer alcança 10% do valor cobrado pelos seus principais vinhos feitos na Borgonha. Estes são alguns dos atributos do Domaine de Triennes, na Provence, mas que não eximem as duas famílias de trabalhar duro para encontrar seu espaço no mercado.

Paul Seysses é um dos filhos de Jacques e divide com o irmão Alec as tarefas administrativas das vinícolas da família, enquanto o irmão Jeremy e a mulher, Diana, cuidam da produção. Em passagem pelo Brasil a convite da importadora Clarets, que distribui os vinhos de Dujac e Triennes em nosso mercado, Paul contou um pouco da história da aventura provençal das duas famílias e os percalços por que apenas os sobrenomes não são suficientes para o sucesso dos vinhos.

História

Triennes nasceu em 1989, quando os dois borgonheses, com um amigo parisiense, compraram a propriedade em Var. O solo basicamente argilo-calcário e o vinhedo já existente, com exposição sul, foram os fatores determinantes para ali fixar as raízes e iniciar a produção de vinhos. O ideal de reenxertar os vinhedos com foco em Syrah, Cabernet Sauvignon e Viognier, praticar baixos rendimentos e, com o cultivo orgânico, focar apenas em brancos e tintos e reformar a cave se mostrou um projeto custoso. Ao mesmo tempo, vender os vinhos não se mostrava tarefa fácil e foi necessário dar um passo atrás. Em 2004, houve o consenso de que o rosé não pode ser deixado de lado, uma vez que estão na Provence.

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Hoje, o rosé é feito com uvas compradas de terceiros, por isso apesar das práticas orgânicas em Triennes, o rosé não recebe a certificação. “O rosé é nosso motor”, diz Paul Seysses. Ele representa cerca de meio milhão de garrafas vendidas anualmente, o que corresponde ao dobro da quantidade produzida do branco e do tinto somados. Para ser competitivos também praticam colheita mecânica em Triennes. Embora seja menos presente na produção dos vinhos, Jacques e De Villaine sempre provam os vinhos antes de ir ao mercado.

Três perguntas para Paul Seysses

Domaine de triennes
Fotos: Divulgação
Você tem o estilo mais “bon vivant” entre os irmãos. Não há cobrança para se envolver mais nas vinícolas da família?

Trabalhei muito duro por dez anos ininterruptos quando criei e administrei uma cadeia de restaurantes asiáticos na Borgonha e, hoje, sigo apenas como sócio. Apenas nesses dois últimos anos, comecei a aproveitar a vida. Agora, concilio minha paixão, o pôquer, com as atividades comerciais das vinícolas da família. O pôquer, embora não seja profissional, me ajuda a custear as viagens que quero e tenho de fazer. Por exemplo, ainda não conheço o Japão, um dos nossos melhores mercados para Dujac, e a China, onde há pouco tempo encontramos um importador para nossos vinhos. Claro que tenho sido cobrado para fazer mais, mas por hora estou bem assim.

É bastante fácil capitalizar ao falar da influência da Borgonha ao fazer vinhos em outras regiões. Agora, o que a Provence ensinou a vocês na arte de fazer vinhos?

A Provence nos ensinou, sobretudo, a ser humildes. Não quero soar pretensioso, mas fazemos um ótimo trabalho na Borgonha. Lá olhamos para a terra, fazemos um trabalho artesanal e os compradores batem a nossa porta. Na Provence, temos de ser competitivos, olhar para o consumidor, em especial para sua sensibilidade ao preço do vinho e, ao mesmo tempo, para a filosofia de produção.

Quais vinhos e quem os escolhe para sua festa de fim de ano?

Habitualmente, reunimos toda a família no Natal e meus irmãos e eu somos os responsáveis pelo menu. Alec sempre fica com a sobremesa e Jeremy e eu nos dividimos entre as entradas e os pratos. Além da terrine de foie, que é um sucesso, faço um ótimo tartar. Também escolhemos em conjunto os vinhos. Nosso pai colecionou e trocou garrafas preciosas ao longo de sua carreira. Ele gosta muito do Syrah do Rhône, do Riesling seco da Alsácia e do Mosel, e até Zinfandel ele pode apreciar, mas, nesse caso, de Ridge Vineyards. Não costumamos abrir vinhos que fazemos. Em ocasiões especiais, abrimos grandes vinhos e de safras especiais. Por exemplo, o fim da safra deste ano, que foi ótima, coincidiu com o aniversário de Jeremy, e abrimos um Mouton 1961. Somos amigos da família e gostamos muito dos vinhos de Rousseau também (Domaine Armand Rousseau).

Vinhos em prova

Provence, França

R$ 149* – Clarets; 91 pontos

Domaine Triennes - Les Aureliens BlancMescla de partes iguais de Chardonnay, Viognier e Rolle (Vermentino) e parte estagiou em barricas de carvalho por cerca de sete meses. Segundo Paul, é o vinho que mais se aproxima do que fazem na Borgonha. Seja pela Chardonnay, mas principalmente pela acidez do vinho. O vinho com mais personalidade da linha. Casca de limão, lima, palha, avelã e baunilha. Limpo, com boa estrutura, untuosidade e acidez pulsante. Final com amêndoa e hortelã.

Provence, França

R$ 132* – Clarets; 90 pontos

Domaine Triennes RoséFeito com maior participação de Cinsault, complementada por Grenache, Syrah e Merlot. O único vinho feito com uvas de terceiros e sem estágio em recipientes de madeira. Na taça tem aromas bastante limpos de romã e grapefruit. Leve, com boa intensidade aromática e ótimo frescor, funciona como ótimo aperitivo ou na companhia de saladas e pescados brancos. Como mérito extra, nenhuma aresta de álcool ou amargor final, um exemplo de “menos pode ser mais”.

Provence, França

R$ 149* – Clarets; 89 pontos

Domaine Triennes - Les Aureliens RougeA mescla de Cabernet Sauvignon e Syrah estagia por 12 meses em barricas utilizadas em  Dujac por dois anos. Enquanto a Syrah recebe pigeage para maior extração de aromas e menor de taninos, a Cabernet recebe remontagens, para dar a estrutura do vinho, que está em estágio interessante de evolução, com ótima integração de seus componentes. Aromas de frutas vermelhas e negras frescas (ginja e ameixa) com especiarias (canela, cravo e leve alcaçuz). Os taninos são finos e macios e bem integrados à boa acidez e álcool que não se nota. Final um pouco discreto, com toque de tosta e frutas vermelhas cristalizadas.

*Os preços foram pesquisados no início de janeiro e podem sofrer alteração

**Matéria originalmente publicada na edição 185 de Prazeres da Mesa

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Marcel Miwa

Especialista em serviço de vinhos pelo Senac-SP e jurado em diversos concursos internacionais de vinhos, desde 2015 Marcel Miwa está à frente do caderno de vinhos de Prazeres da Mesa.

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