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A centenária vinícola chilena traduz em seus vinhos a clássica expressão do Vale do Maipo e, desde 2008, integra o grupo Viña San Pedro Tarapacá – VSPT

Na Região do Maipo, a apenas alguns minutos ao sul da capital, Santiago, está o Fundo Rosário, propriedade em que se concentram boa parte dos vinhedos da Viña Tarapacá. É uma das marcas chilenas mais tradicionais quando se fala em vinhos. Nasceu em 1874 e foi integrada ao grupo da Viña San Pedro em 2008. O momento atual de Tarapacá é de completa reformulação. Isso é tanto na viticultura quanto na enologia. E o motor dessa revolução é o enólogo Sebastián Ruiz. Ele está ciente dos muitos passos que terá de dar e da velocidade para obter as respostas, que nem sempre é a desejada.

Localizado na margem do Rio Maipo, a propriedade é naturalmente cercada por cadeias montanhosas em direção aos Andes, uma vantagem adicional, pois na mesma propriedade podem-se encontrar os diversos terraços aluviais do rio (formados pelos depósitos do rio) e uma parte de colúvio (resultado da erosão da montanha). Diversidade de solo indica potencial para maior variedade de vinhos e maior complexidade nos mesmos. Dos cerca de 600 hectares destinados à cultura da videira, cerca de 120 hectares foram replantados recentemente e outras etapas de replantio virão, assim que as novas se tornarem produtivas. Sebastián está certo que a vocação da propriedade está nas variedades tintas, em especial a Cabernet Sauvignon e a Merlot.

Tarapacá - Icone Chileno
Sebastián Ruiz está liderando a conversão da Vinícola Tarapacá. A formação de corredores biológicos em meio ao vinhedo já mostra resultados positivos nos vinhos | Foto: Divulgação

Biodiversidade em pauta

Para os vinhos brancos, continuará buscando as uvas em Casablanca e Leyda. Nessa nova etapa, a biodiversidade é o principal lema. “Sofremos com algumas pragas e com coelhos que comiam muitos brotos das videiras”, disse o enólogo. Uma medida que mostra resultado é a plantação de bosques com árvores nativas entre as parcelas dos vinhedos. Os 50 hectares que substituíram os eucaliptos e álamos já formam ilhas de biodiversidade. Dessa forma, os animais conseguem seus alimentos nessas áreas. Então, não precisam recorrer ao vinhedo. E, assim, os fungos e insetos também entram nessa cadeia alimentar, antes de se propagarem pela vinha. No futuro, as leveduras também devem ser selecionadas a partir desses ambientes.

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Outra solução incidental também surgiu a partir desse trabalho realizado com a ajuda de um botânico. “Descobrimos que uma planta nativa da família das phacelias, ao se decompor, cria um ambiente que controla a botriti. Então, o inseto vetor da flavescência dourada, gera uma séria doença da videira, e sem cura”, disse Sebastián. “Da mesma forma, uma espécie de planta crucífera, quando amassada, libera um gás que é letal para os nematoides”, outra praga comum na região.

Tarapacá - Icone Chileno
O minucioso trabalho de mapear o subsolo conforme sua composição também reflete em expressões mais precisas nos vinhos

Qualidade

No capítulo da qualidade, o onipresente geólogo Pedro Parra esteve à frente do mapeamento do solo. A primeira conclusão é que o setor chamado Quillayes mostra especial aptidão para produzir os melhores tintos da vinícola. Foram, então, 373 calicatas (buracos cavados em meio ao vinhedo) realizadas para entender os componentes do solo, sua textura e o perfil em diferentes profundidades. “Agora estamos relacionando esses solos com os tipos e com a concentração dos taninos nos vinhos.” Até agora foram mapeados sete tipos de solo. E já se sabe que a Merlot resulta em melhores vinhos na parte plana e rica em argila. Enquanto isso, a Syrah e a Cabernet Sauvignon mostram seu melhor nos pés das montanhas.

Outro aprendizado é que nem sempre quanto maior a inclinação ou mais elevado o vinhedo, melhor será o vinho. “Na parte mais alta temos muitas rochas, que obstruem o caminho das raízes e também transmitem muito calor à videira e aos frutos, resultando em vinhos desequilibrados”, afirma Sebastián. Da mesma forma, entende-se que a orientação norte-sul das fileiras não faz mais sentido, uma vez que hoje todos buscam por vinhos mais frescos. Com orientação leste-oeste, os cachos ficam mais protegidos do sol e a maturação é mais lenta e controlada.

Destaques

91 pontos

Tarapacá - Icone ChilenoA linha foi criada para mostrar essa nova fase da vinícola; trata-se de um blend de variedades definida pelo tipo de solo. Nessa safra, 85% de Cabernet com 15% de Syrah da zona de Quillayes e La Cuesta. No nariz, dominam frutas vermelhas e negras frescas, com boa intensidade e nuances de pimentão assado, grafite e carne defumada. Para equilibrar essa potência, taninos firmes e finos e bom frescor.

Um perfil mediterrâneo, com fruta madura e com alguns anos pela frente. Provado em primeira mão, o Blend Series 2, da safra 2016 (92 pontos), segue a mesma proporção mas com Cabernet e Merlot. O vinho mostra um perfil de fruta mais limpo e bem definido. Com frutas negras frescas, grafite e especiarias (erva-doce, cravo e cacau), com taninos finos e acetinados e álcool muito bem integrado. Uma bela evolução face à primeira edição.

90 pontos

Outro lançamento da vinícola é o Etiqueta Negra Carménère. Até então, a linha tinha apenas o varietal de Cabernet Sauvignon. Dentro da nova geração de ótimos Carménère chilenos, já não há excessos de pirazinas (aroma herbáceo) ou de sobrematuração da fruta (geleias e compotas). Vinificado em foudres de carvalho de 3.500 litros e barricas francesas usadas, o aporte do aroma de especiarias da madeira (cedro, erva-doce e cravo) são delicados e ficam em segundo plano.

A fruta vermelha madura, com toque de pimenta vermelha, tinta, grafite aparecem com maior destaque. Na boca tem ótimo equilíbrio e tanto taninos quanto acidez e álcool estão bem integrados, oferecem estrutura sem arestas.

90 pontos

Tarapacá - Icone ChilenoMesmo provado na semana que foi feito o blend final já mostra ótimo potencial, sem aroma fechado ou turbidez, um retrato da ótima safra de 2018. Feito com uvas da costa chilena (Vale de Leyda) que foram parcialmente fermentadas em barricas francesas usadas (60% do volume).

Como é típico dos vinhos da região há ótima mescla de sabores ácido e salgado, com notas de abacaxi, pepino, iodo e limão verde. Puro, direto e com delicada untuosidade. Final com leve e agradável amendoado.

 

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Marcel Miwa

Especialista em serviço de vinhos pelo Senac-SP e jurado em diversos concursos internacionais de vinhos, desde 2015 Marcel Miwa está à frente do caderno de vinhos de Prazeres da Mesa.

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