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Riesling seco: a beleza das contradições

Conhecida como uma das mais nobres castas brancas, a Riesling não é considerada, em princípio, de fácil compreensão para o degustador. São muitas as singularidades que despertam a curiosidade e a tornam atrativa. Nesta matéria, deciframos a variedade em seu berço de origem, a Alemanha, por suas versões mais secas (trocken)

A principal variedade branca alemã, que não deve ser confundida com a Riesling Itálico (com alguma presença nos vinhedos brasileiros), ocupa cerca de um quarto dos vinhedos do país. Mas sua história não difere das histórias da grande maioria das regiões europeias. Os romanos levaram a cultura do cultivo da videira e da produção do vinho ao território alemão cerca de 2.000 anos atrás. E os monastérios foram os incubadores dos grandes vinhos que poderiam nascer naquelas condições frias e pedregosas, especialmente nas margens dos rios Mosel e Reno.

Sendo assim, essas condições são as ideais para amadurecimento da Riesling, que com verão ameno consegue desenvolver seus aromas únicos, com cítricos e minerais. Ao mesmo tempo têm boa intensidade, com untuosidade e pouco álcool. Além disso, sua tipicidade é marcada pela acidez assertiva.

A videira possui boa resistência a baixa temperatura e à neve do inverno e também mostra-se excepcional quando atacada pela podridão nobre (do fungo Botrytis cinerea, como em Sauternes). É certo também que o solo rochoso, com lascas de ardósia e a extrema inclinação das zonas mais nobres, que criam diferentes exposições solares, dão a diretriz qualitativa aos vinhedos.

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Por outro lado, se no campo é razoavelmente simples entender o comportamento da casta, quando vinificada, entender seus diferentes estilos e qualidade pode ser um desafio complicado. Por isso, são inúmeras as categorias de qualidade e estilo de vinho, cada qual com um nome igualmente complicado.

Conheça as classificações

Entre os estilos, existem os secos (trocken) em que vamos nos concentrar, mas dentro de uma pirâmide de qualidade podem adotar a descrição de kabinett, Spatlese, Auslese (até aqui secos ou doces), beerenauslese, trockenbeerenauslese e eiswein (estes três, todos doces). Essa qualificação, considerada tradicional, foi aprovada em 1971. Alguns produtores descontentes com seus critérios criaram uma classificação paralela e que hoje é mais influente.

O grupo chamado VDP (com o símbolo de uma águia) reúne cerca de 200 produtores e, segundo a norma aprovada em sua forma final, em 2012, passa a adotar um critério com base no vinhedo de Riesling, semelhante ao do Borgonha. Assim, Gutswein designa um vinho genérico, Ortswein vale para um nível “village”, Erste Lage (Erste Gewarch para vinhos secos) é um Premier Cru e Grosse Lage (Grosse Gewarch para secos) equivale ao nível mais elevado, um Grand Cru.

Dessa forma, a grande maioria dos vinhos alemães secos trazidos pelas importadoras mais conhecidas pertence a produtores associados ao VDP (o símbolo pode ser visto no gargalo, junto com a sigla VDP), e tratamos de ranquear o nível de entrada, portanto, a maior parte “Gutswein”.

Na taça

João Paulo Gentile (esq.), sócio do Praça São Lourenço, viveu na Alemanha e acompanhou de perto a produção local. À direita, Gustavo dos Santos Barros, sommelier do restaurante

Felizmente, na taça, é muito mais simples e fácil apreciar esses vinhos, que impressionaram pelo ótimo nível médio, e nos afasta de qualquer trauma do passado com vinhos brancos alemães. Algumas amostras ainda estão jovens e frutadas. Outras começando a mostrar as típicas e interessantes notas minerais (querosene, pedra de isqueiro, pedra molhada, giz…).

Da mesma forma, a paleta de doçura vai do extremo seco aos sutilmente adocicados. Aliás, este é um grande fator a ser considerado na versatilidade à mesa. Além do natural frescor, fruta contida e álcool moderado, a leve doçura de alguns casos ajuda na combinação com pratos repletos de especiarias ou pimenta.

Participaram da degustação Alexandre Rodrigues e Marcel Miwa, de Prazeres da Mesa, Rodrigo Lanari, da Winext, Rico Azeredo, da Emme do Brasil, e João Paulo Gentile, do restaurante Praça São Lourenço. O serviço ficou aos cuidados do competente sommelier Gustavo dos Santos Barros, do Praça São Lourenço, um dos melhores e mais alegres restaurantes de São Paulo. Vamos aos resultados.

Ranking

Reinhessen – R$ 169, Winebrands

92 pontos

O projeto que nasceu em 2005 uniu duas famílias de produtores da região de Reinhessen (na outra margem do rio está a região de Rheingau). Curiosamente, a região que possui a maior extensão de vinhedos do país, prova que quantidade e qualidade podem conviver. No painel às cegas, parecia um vinho de categoria superior: limpo e leve defumado, com lima, pera e jambo no nariz, tem ótima e integrada acidez, seco e sério, final com giz e pão tostado. Final bastante longo.

Rheingau – R$ 178, Mistral

91 pontos

O tradicional produtor é associado ao VDP, o que garante um bom standard de qualidade, e possui 14 hectares de vinhedos, a grande maioria com Riesling. O vinho está em seu momento. No nariz, grapefruit, infusão de ervas e pedra de isqueiro. Na boca, leve doçura com bom equilíbrio de acidez, um toque de mel e leve amargor de casca de cítricos. Final mineral, novamente.

Mosel – R$ 139, Vind’Ame

91 pontos

A vinícola associada ao VDP conta com 15 hectares totalmente dedicados à Riesling. Este é um lado diferente da família Prüm, diferente dos cultuados (e caros) J.J. Prüm. Com os anos na garrafa, portanto, o vinho está em um momento redutivo (mais mineral, menos fruta) com pedra molhada e defumado, toque de limão e jambo. Na boca é leve, mas tem delicada untuosidade, ótima acidez (integrada) e flores brancas no final. Além disso, a acidez pulsante leva os aromas para um longo e limpo final. Ótimo.

Rheingau – R$ 173,20, Interfood

90 pontos

Vinícola criada no século XV e também associada ao VDP. A ótima safra de 2015 resultou em um vinho de referência, com tudo o que se espera de um Riesling seco: fruta cítrica, flores brancas, giz e pedra molhada no final, com boa acidez e expressão bastante seca. Estilo sério.

Pfalz – R$ 139 (safra 2016), Wines4U

90 pontos

Vinícola fundada em 1849, associada ao VDP, adota a viticultura orgânica. A região do Palatinado (Pfalz) está entre o norte da Alsácia e o sul de Reinhessen. No nariz se mostra jovial, repleto de flores brancas, pera e maçã-verde. Na boca, a acidez é intensa e deve se integrar melhor com o tempo, bastante seco, leve e com leve agulha. Além disso, no final, notas minerais de querosene e defumado começam a despontar.

Mosel – R$ 221,72, Premium

89 pontos

Associado ao VDP, Clemens Busch é um dos produtores jovens e cultuados do momento. Pratica biodinamismo nos vinhedos desde 2006. Seus vinhos, por sua vez, fermentam espontaneamente e estagiam em foudres de carvalho antigo. Bastante jovem, o vinho agora mostra caju, ameixa amarela, limão-siciliano, grapefruit e jasmim no nariz, com leve untuosidade, vivacidade e bom corpo. Além das características na taça, o fato de ser o único do painel vedado com rolha natural (todos os outros com rosca) indica que o vinho deve evoluir positivamente pelos próximos anos.

Reinhessen – R$ 59,90, E-Vino

89 pontos

Um exemplar simples feito por uma grande vinícola, mas que entrega toda a tipicidade da variedade: nariz com limão, pera, pedra de isqueiro e leve querosene e doçura na boca com boa acidez e toque de sidra no final. Pelo preço, é uma ótima carta de apresentação da Riesling.

Mosel – R$ 149, Weinkeller

88 pontos

Associado ao VDP, a vinícola foi considerada a melhor do ano 2015 pelo guia Gault & Millau. Recentemente, o produtor viveu uma virada qualitativa após a compra por parte de Thomas Haag, irmão de de Olivier, que está à frente do reputado Fritz Haag. A safra 2014 foi considerada mais difícil, a mais inconsistente entre as safras presentes no painel (2013, 2014, 2015 e 2016). Talvez o vinho apresente menor intensidade hoje e se encontre mais fechado. Nariz com limão, giz e gengibre. Na boca é leve, com acidez elevada, final com maçã-verde e pimenta-branca.

* Matéria publicada na edição 185 de Prazeres da Mesa, em janeiro de 2019

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Marcel Miwa

Especialista em serviço de vinhos pelo Senac-SP e jurado em diversos concursos internacionais de vinhos, desde 2015 Marcel Miwa está à frente do caderno de vinhos de Prazeres da Mesa.

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