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Desafio da Argentina

Um panorama de rótulos premiados mostra a evolução do vinho argentino, mas abre espaço para um debate importante: a variação de preços

O evento que a Wines of Argentina promoveu em São Paulo em setembro mostrou ótimos vinhos selecionados pelos organizadores segundo dois critérios: ou por terem obtido notas altas de Luis Gutierrez (degustador de Robert Parker), ou por terem recebido troféu no último Premium Tasting de Mendoza, no início do ano. Os 29 rótulos apresentados às cegas por Suzana Balbo mostraram grande evolução de qualidade do produto argentino, com mais frescor e diversidade. Porém, me chamou atenção a variação de preços entre eles, muito superior à variação de qualidade entre as amostras.

Íamos, por exemplo, do Finca Las Moras PAZ  Cabernet Sauvignon de 67 reais (Decanter), ou o Finca Sophenia Es Vino Reserva Malbec de 77 reais (Tahaa Vinhos), ou  ainda Atamisque Malbec 99 reais (World Wine),  para citar apenas três, para os extremos de Gran Enemigo a 450 reais (Mistral), Luigi Bosca Icono a 495 reais (Decanter), Dominio del Plata  de Suzana Balbo a 450 reais (Cantu) e Zuccardi Aluvional a 533 reais (Ravin).

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Como se sabe, o consumidor brasileiro é um privilegiado em termos de oferta. São cerca de 22 mil rótulos de toda parte do mundo para escolher. Esse consumidor não tem conhecimento algum de vinho. A maioria não sabe nem que existe o Valle de Uco, muito menos que existe Altamira, e nem imagina que o Sebastián Zuccardi está lá em um trabalho enorme e obstinado procurando conhecer melhor seu terroir.

Veja que na Mistral, que vende o argentino Gran Enemigo a 450 reais, você encontra, por exemplo, Magari IGT Toscana de Angelo Gaja a 320 reais; ou o Anima Negra de Miguel Angel Cerdà por 287 reais; ou o biodinâmico Pétalos del Bierzo 2011 a 137 reais, para ficar apenas em alguns exemplos.

Na Decanter, que vende o argentino Luigi Bosca Icono a 495 reais, você encontra o Château Bel Air Grand Cuvée 2009 a 185 reais; o Quinta dos Roques Dão Garrafeira 2003 por 289 reais; o Pio Cesare Barbera D’Alba Fides a 254 reais; e o De Martino Old Bush Single Vineyard Limavida 2009 por 131 reais. Já na Cantu, que vende o  argentino Dominio del Plata  de Suzana Balbo a 450 reais, você encontra também o Baia al Vento Bolgheri Superiore a 240 reais; o Amarone Giacomo Montressor a 240 reais e o orgânico Giusti Zanza Dulcamara Toscana a 239 reais. Por sua vez, a  Ravin que vende o argentino Zuccardi Aluvional a 533 reais, oferece também o Vega Sauco Wences a 253 reais; o RODA Reserva 2008 Rioja a 308 reais; o Barolo Renato Ratti Marcenasco 2009 a 442 reais; e o Antichello Amarone Della Valpolicella Classico a 317 reais.

Como explicar ao consumidor que os rótulos argentinos (MERCOSUL) estão mais caros que esses vinhos? Ele disputa o mesmo dinheiro do consumidor. Em todos esses exemplos, os vinhos são tão bons ou mais que os argentinos, são certamente mais conhecidos e renomados, mais tradicionais, gozam de melhor imagem e, o melhor de tudo, escolhendo-os ainda sobra um bom troco para o salame e o pão italiano.

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