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NANBU BIJIN

Nesta coluna, falaremos de uma pessoa que no mundo dos saquês é uma autoridade amada e temida ao mesmo tempo. ,Não há que não o conheça entre profissionais, sommeliers de saquês, sommeliers de vinhos do mundo todo, fãs da bebida. Trabalhar com ou para ele é uma honra sem tamanho. Ser procurado por ele para vir até a sua loja e ainda poder bater papo por cerca de 3 horas seria algo quase que impossível de se pensar, se estivéssemos  no Japão.

Estamos falando de Kosuke Kuji, presidente e quinta geração da Nanbu Bijin. No Circuito do Sake, em 2017, até levamos nove brasileiros para a fábrica, sendo dois deles chefs  bem conhecidos aqui no Brasil, o Carlos Bertolazzi (Zena Caffé) e a Ligia Karazawa (Brace Bar e Griglia, no Eataly).

Saquês degustados da marca Nanbu Bijin, dentro de um barril do fabricante. A garrafa revestida em tecido em primeiro plano, é a tal garrafa que custa os olhos da cara.
Saquês degustados da marca Nanbu Bijin, dentro de um barril do fabricante. A garrafa revestida em tecido em primeiro plano, é a tal garrafa que custa os olhos da cara.

Hoje, Kuji, aos 46 anos, é casado, tem um filho e ostenta uma garra de adolescente. Ele gesticula e fala alto como nós, brasileiros. E essa energia não é de hoje, porém quando jovem, ele a colocava no sonho de ser professor. Como todo filho de dono de empresa, jamais pensou em seguir os passos do pai.

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Seu destino começou a mudar quando ele representou a província de Iwate e teve a oportunidade de passar meses em Oklahoma. Foi quando se hospedou na casa de uma família e presentou o pai da casa com uma garrafa do saquê de sua família. “Nossa, isso aqui é muito bom! Excelente! Você é filho do dono desta bebida? Se fosse na França, seria como se fosse o herdeiro de uma vinícola. Quanta honra”, disse o pai. Isso acendeu o sinal para voltar os olhos à sua herança.

Outra história que o marcou foi quando, ao subir os 102 andares do Empire State Building, em Nova York, um amigo lhe disse: “Um dia, os seus saquês serão vendidos aqui no exterior”. Isso soou como uma buzina de navio. Ele voltou correndo ao Japão, inscreveu-se no vestibular para a Faculdade de Agronomia de Tóquio, como se fosse a USP da Agricultura. Foi aprovado e voltou para a fábrica.

Ao retornar, o seu maior obstáculo não era fazer o saquê, mas confrontar-se com o antigo. Não em relação à tradição, mas aos métodos. Kuji sempre pensou: “Em empregar a tecnologia e as máquinas para serviços pesados e de risco, e deixar o homem atuar onde são necessários sensibilidade, tato, paladar e olfato”. Não foi uma tarefa fácil. Muitos começaram a abandonar a fábrica. Aconteceram brigas constantes com a 4º geração, ou com o carinhosamente chamado de pai. Eram recorrentes frases, como “Quem você pensa que é ao querer mudar tradição de décadas? Acha que só porque fez uma faculdade, pode vir aqui e mudar tudo?” Coisas da vida.

Mesmo assim, Kuji insistiu e conseguiu ultrapassar uma cordilheira de dificuldades. Graças ao único apoio que veio do Toji, que é Mestre de Saquê. Assim, foi desenvolvendo novos rótulos, melhorando a qualidade, ampliando o portfólio de produtos, desbravando o mercado de saquês no Japão e exportação para outros países.

Em 1997, criou junto a outros 20 jovens produtores da bebida, a Associação de Exportadores de Saquês e começaram a planejar várias estratégias atrativas para o mercado externo. Foi quando receberam uma ligação veio de Nova York, dizendo: “Muitos americanos estão apreciando a culinária japonesa. Tem como vir para Nova York e promover um seminário com degustação de saquês?”. Esse foi o começo da saída dos saquês semiartesanais do Japão.

Ouvia frases, como: “Nossa, o que é isso?! Nunca experimentei um coisa tão boa quanto. Isso é saquê?”. A coisa tomou uma proporção tão grande, que o sucesso da empreitada seguiu para Boston, Chicago, Los Angeles, São Francisco. Depois atravessou oceanos para Londres e Hong Kong. Kuji que era o mais novo da turma, fazia parte da tropa de propagação dos saquês no exterior.

Claro que a promoção dos seus saquês também era a sua principal tarefa. Em 2004, pisou pela primeira vez em São Paulo, ano que coincide com a nascimento da Adega de Sake. No ano seguinte, foi a vez de Dubai. Hoje completa mais de 25 países exportado, tornando sua marca mais presente no mundo. O país que mais recentemente recebeu a Nanbu Bijin foi Uganda, na África.

Em 2008, foi a vez da produção de finos licores a base de saquê. Nos sabores de Umê (ameixa japonesa) e Yuzu (Cítrico). Também nesse ano, Kuji criou o “All Koji”, algo como um single malt dos saquês. Forte, encorpado demais. Esse saquê passa pelo processo de envelhecimento.

Falando em envelhecimento, na sua curta estadia em São Paulo, tivemos a oportunidade de provar o rótulo Nanbu Bijin Daiguinjo Koshu 10 anos. Para se ter uma ideia, esse saquê não é localizado nem no Google. Não é comercializado no Japão e o único país onde você pode encontrar algumas unidades, é nos Estados Unidos. Ele faz parte de uma coleção privada do produtor, armazenada na câmara refrigerada dele, de onde ninguém pode retirar a garrafa, sem sua permissão. O saquê foi criado para Avaliação Anual e, depois, passou 10 anos envelhecendo em temperatura que varia de 0º à -5ºC.

Quando se leva ao nariz, vem uma explosão de notas tropicais, de flores e de frutas frescas, vermelhas, verdes e brancas tudo ao mesmo tempo. Chuva de pétalas, coco e chocolate. Na boca é o Koji ditando as regras. Firme, forte, determinado e presente. Só que ao mesmo tempo generoso, deixando outros sabores fazerem as suas apresentações. Nozes, castanhas, com dulçor do final de passas, mas sem esquecer que é um saquê. Seus custo é de 2.000 dólares. Em um rápido cálculo, se importasse para o Brasil, a garrafa de 720 ml custaria com a cotação atual, R$ 17.240. Que experiência incrível!

Além de tudo isso, o presidente que sempre apoiou o Brasil, indicou o Alexandre Tatsuya Iida (eu) como o 1º Sake Samurai, Embaixador do Sake para o Brasil e a América Latina.

A sua visita teve outro propósito. A Nanbu Bijin e a Adega de Sake, juntas, estamos desenvolvendo quatro rótulos de saquês no Japão e que, depois de prontos, serão comercializados somente no Brasil. Na ocasião, os saquês foram degustados no restaurante Aizomê, em São Paulo, por um pequeno e seleto grupo de convidados. A previsão de chegada ao nossa país é em março de 2019.

O sucesso da marca é tanto que chega a ter um fã clube à sua espera. Que mais pessoas possam conhecer e provar esta iguaria!

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Alexandre Tatsuya Iida

É embaixador de saquê no Brasil, título mais conhecido como Sake Samurai, outorgado por The Japan Sake Brewers Association Junior Council

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