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Como resistiremos às arbitrariedades com que o vinho é tratado na esfera oficial brasileira

O ex-presidente Juscelino Kubitscheck e o arquiteto Oscar Niemeyer devem estar se revirando no túmulo! Sonharam com uma capital no Planalto Central de onde emanariam as grandes decisões da Nação e não contavam que há anos só coisa ruim tem vindo dali e se espalhado como as pragas do Egito sobre nós, brasileiros!

Com um péssimo cenário no presente e incerto futuro, as autoridades constituídas disparam malfeitos para todo lado e sempre o maior deles é o aumento de impostos, como se isso fosse resolver o problema. Já o controle dos gastos e a vergonha na cara para não roubar viram artigos de segundo plano.

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Minha ira vai para os novos impostos aplicados sobre os vinhos. Mais uma vez, esse alimento universal, tão antigo como o homem, tem de pagar parte da conta da incompetência. Nos últimos 20 anos, tenho assistido a um esforço hercúleo de milhares de patriotas que difundem a cultura do vinho, objetivando dar um pouco mais de qualidade de vida a nós, brasileiros.

Entidades de enófilos, confrarias, clubes de vinho e tantos outros meios de divulgar esse salutar hábito surgem no Brasil, atuando de forma positiva e incansável na manutenção dessa cultura.

Os produtores nacionais de vinho pagam uma conta alta, geram empregos, fixam famílias no campo, modernizam seus parreirais, sem nenhum apoio dos órgãos financeiros do governo, nenhum privilégio. Pagam seus impostos regularmente e a cada instante são surpreendidos com novas regras, novas taxas e um grande número de portarias absurdas que só atrapalham o negócio.

Acredito que ninguém do Ministério da Fazenda sabe o quanto o vinho representa na economia da Europa e dos Estados Unidos. Eles não sabem os bilhões que essa indústria mobiliza e o tanto que ela concorre para desenvolver cada vez mais aqueles povos, dos quais a cada dia nos distanciamos em termos culturais e econômicos por praticarmos uma política retrógrada quase da época do Brasil colonial!

Aos importadores resta somente acordar e correr aos meios de comunicação para saber o câmbio do dia, pois além de ter de honrar seus compromissos com os produtores de fora, devem diariamente atualizar seus preços devido à gangorra de flutuação das moedas.

Quando vemos o que o vinho representa na economia nacional, descobrimos que só pode ser vingança de mau gosto. Nosso consumo é “pífio”, não saímos há décadas de um número próximo a 2 litros anuais per capita, ou seja, o vinho não é o vilão da história.

Além de tudo isso há ainda forte oposição no Congresso Nacional quando o assunto é bebida. A famosa bancada evangélica vê satanás por todo lado, menos na Praça dos Três Poderes!

A ONU credita aos povos que fazem uso regular de vinho um índice de bem-estar, cultura e sabedoria – só nossos políticos não sabem disso. Na década de 1930, o vinho foi colocado na cesta básica do operário italiano, e lá está até hoje, e a Europa toda o considera alimento, não bebida. Por aqui, já tentamos isso, mas o lobby contra dos chamados “puristas” que nos roubam milhões em conchavos combatem essa tese.

Um povo judiado como o nosso, que teve um ano de 2015 para riscar do mapa, merece ter o direito de degustar com sua família o vinho de sua escolha, que tenha um preço justo, e não um produto cuja receita será totalmente mal-aproveitada em programas sonhadores, sem base, sem consistência e de fundo meramente populista.

Aguardo, em 2016, notícias boas e justas de Brasília para, ao degustar um vinho, ter motivos mais solenes de celebração do que simplesmente afogar as mágoas.

* Coluna publicada na edição 150 de Prazeres da Mesa

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