Colunas

O futuro dos bares de saquê

Uma experiência necessária a quem visita o Japão, com diversas degustações de acordo com o seu paladar

Cada vez que visito o Japão, só encontro novidades. Por um lado é bom para quem viaja para lá com frequência. Por outro lado, é ruim quando a novidade vem com tudo e, em questão de uns três anos, pode não existir mais. Foi por isso que corri para fazer este texto.

No começo de fevereiro de 2020, fui convidado para uma missão da Japan External Trade Organization (Jetro). O plano era visitar 12 fábricas de saquê, conhecer seus rótulos e, quem sabe, resultar em frutos comerciais para trazer as bebidas para o Brasil.

Como é um tempo curto, nada podia ser desperdiçado. A começar pelo fuso horário. Por mais que tenhamos voado por cerca de 30 horas, mal chegamos no hotel e desfizemos as malas, já fomos acionados para um encontro com a diretoria de Tóquio. Era uma domingo.

Continua após o anúncio

Nos encontramos na recepção. O coordenador da missão me recebeu e batemos papo. Fomos de ônibus do bairro de Roppongi até Shibuya, no centrão caótico da cidade. Isso mesmo, onde fica aquele cruzamento maluco. 

Perto de lá, fica o Shibuya Parco e, no subsolo, encontra-se o Mirai Nihonshu Ten. Por fora, vemos um bar com traços modernos em branco, cinza e preto. Mas seu interior é tomado por madeira desde o balcão até as duas mesas conjugadas.

Assim que nos acomodamos, veio a brincadeira. O Yummy Sake é para verificar qual é o seu perfil de bebedor da bebida. São 10 goles de saquês às cegas, em que você classifica quais mais te agradam em uma escala de 1 a 5. 

Não há comanda ou cartela. Basta apontar o seu smartphone no QR Code e acessar o site, digitar o código e cadastrar o seu nome. A partir daí, tomar os saquês em silêncio para não atrapalhar a degustação do outro. 

Legal foi quando um dos diretores disse ao responsável que eu sou um Sake Samurai. Evidentemente que foi mais uma vez lembrado de que não poderia ficar comentando cada saquê, para não induzir o outro.

Não parece na foto, mas como todo bom sommelier, eu estava com o meu caderno para anotar tudo. Os quatro primeiros apresentavam um frutado gritante de Daiguinjo ou Guinjo.

Os saquês super premiuns são as categorias mais polidas. Pouca proteína e superfrutado de melão, maçã, pera, lichia, entre outras frutas. Do 5 ao 7 eram saquês mais de mesa, chamavam comida ou abriam apetite. Aroma de nozes, frutas secas, massa, rico em umami, corpo e complexidade no sabor. O restante já mostrava de cara que tinha punch alcoólico. Era um saquê envelhecido e um não filtrado. 

Depois das anotações, seu resultado é revelado: Socialmente, Iniciante, Gourmet ou Expert. Adivinhem qual foi o meu.

Bom, descoberto o perfil, a casa te oferece uma generosa taça de um saquê da marca Kubôta, que mais agrada o seu paladar. Também é possível pedir um drinque feito com a bebida. Mais uma vez, adivinhem o que eu pedi. Claro que… acharam que seria o saquê normal? Pois escolhi o drinque. Isso porque quero saber como os japonese fazem drinques com o saquê.

Olha, é como um ódio que deu. Os japoneses sabem preservar o sabor do Koji perfeitamente. Não só mantêm, como sabem orquestrar os vários sabores adicionados. Serviram para mim uma taça de Martini com o Kubôta Hekiju Junmai Daiguinjo Yamahai morno, com chocolate e canela. Eu juro para vocês, parecia uma casquinha de sorvete, só que com calda de chocolate quente com canela. A “casquinha” revela o sabor do arroz levemente torrado.

Mesmo bebendo poucas doses, foi o suficiente para dar uma animada. Começamos a pedir um monte de petiscos. E começamos mais uma brincadeira. Com 2000 ienes (cerca de 20 dólares), você tem uma hora para tomar vários saquês de uma geladeira repleta de opções. Não há limite de doses.

Era tanto saquê que eu comecei a dar aula em japonês, algo que, até então, eu só tinha feito em português. Mas, pasmem, as outras mesas, os clientes do balcão e até o staff começaram a prestar atenção. 

Em resumo, eu recomendo fortemente a visita a esse lugar. Há uma seleção de saquês maravilhosa, staff que compreende um pouco de inglês, e que detona quando o assunto é saquê. Se você gostar de um rótulo, pode comprar a garrafa também. 

Vale muito a pena. Palavra de um Embaixador do Sake.

Etiquetas
Mostrar mais

Alexandre Tatsuya Iida

É embaixador de saquê no Brasil, título mais conhecido como Sake Samurai, outorgado por The Japan Sake Brewers Association Junior Council

Artigos relacionados

Leia também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar