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Ponto de encontro da biodiversidade

O Mercado da Agricultura Familiar reúne no coração do país ativistas, entusiastas e as Comunidades  do Alimento Slow Food

Flor de jambu, pitomba, baru torrado e ovos de galinha-canela-preta são alguns exemplares de presença rara no mercado convencional e que se tornaram acessíveis aos frequentadores do Mercado da Agricultura Familiar, na Ceasa de Brasília – endereço que beneficia diretamente mais de 2.000 agricultores nas manhãs de sábado. O espaço de 960 metros quadrados foi inaugurado em 2015 e funciona como um ponto de encontro dos entusiastas da pequena produção e consumidores da biodiversidade brasileira.

Entre os protagonistas das vendas estão Comunidades do Alimento da rede Slow Food, como Produtoras e Processadoras de Baru do Assentamento Vereda II, Produtores Agroecológicos do Assentamento Colônia I e Produtores de Hortaliças do Assentamento Chapadinha, que chegaram ao alojamento na véspera da feira (muitos depois de exaustivas horas na estrada em busca de escoamento da produção). De acordo com o último levantamento realizado pela Emater-DF, o local movimenta 160.000 reais por mês.

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Além da garantia de comercialização, o contato de produtores rurais com o público garante que clientes se transformem em verdadeiros coprodutores. A interação entre diferentes realidades faz nascer vínculos duradouros e traz ressignificação do ofício rural. “Participar dessa feira resgatou minha autoestima. O trabalho no campo é sempre de muita luta e aqui somos reconhecidos por ele”, afirma a agricultora Hélia Cristina Silva. O estímulo ao trabalho colaborativo presente no campo recebe reforço na feira, dividida entre 54 entidades, formadas por associações e cooperativas.

A cozinheira Ana Paula Boquadi, chef do restaurante brasiliense Buriti Zen, frequenta a feira desde a inauguração. “Confiro ingredientes diferentes, como variedades de mandioca e batata”, diz a profissional, que inseriu em seu cardápio pratos com as Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc’s) beldroega e vinagreira, ambas adquiridas na feira. “Comprar no Mercado da Agricultura Familiar tem vantagens econômicas, ambientais e nutricionais. Como chef, tenho de levar novidades aos clientes, e os ingredientes funcionam como uma ferramenta de educação”, afirma a cozinheira, que aproveita essa época para consumir frutos sazonais, como a pitomba.

O espaço também garante vida às edições locais da Disco Xepa, que conta com o envolvimento dos trabalhadores rurais, como a extrativista e ativista do movimento Slow Food Ana Maria Rodrigues. Desde fevereiro, ela comanda na feira o Café Cultural, dedicado aos sabores nativos do cerrado, com exemplares do interior do Brasil. O aroma de café coado pode acompanhar a tapioca preparada na hora. Para beber, sucos com sabores de um dos maiores biomas do Brasil, como cagaita, araticum e cajuzinho, além de kombuchas produzidas por Ana e o marido, Zilas.

“Também servimos almoço aos produtores e aos frequentadores do mercado: pessoas integradas com os sabores que o cerrado oferece”, diz Ana Maria, que já preparou feijão tropeiro com castanha-de-baru, galinhada, e risoto com pequi. A produtora fez parte da delegação brasileira do Terra Madre em 2016 e apresentou licores artesanais com frutos do cerrado coletados no Núcleo Rural Taboquinha, em Goiás.

O engajamento de Ana Maria Rodrigues proporciona mais visibilidade à economia local e ainda garante uma valiosa interação com um público ávido por sabores regionais. “Um consumidor participativo se transforma em um coagricultor, que compra alimentos de qualidade a preço justo. Esse tipo de contato mostra, na prática, um dos principais pilares do Slow Food: Alimento Bom, Limpo e Justo”, afirma o extensionista rural da Emater-DF, José Nilton Campelo, responsável pela realização da feira desde a inauguração e entusiasta do movimento criado por Carlo Petrini.

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