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Simplificar, simplificar e simplificar

O vinho é um nicho de mercado. Se imaginarmos que são consumidas apenas 140 milhões de garrafas dos finos ao ano, podemos concluir que são pouco menos de três milhões de pessoas consumindo uma garrafa semanalmente ou 10.7 milhões consumindo uma garrafa ao mês!

Você conhece alguém que consome menos que isso? Bem, de qualquer modo é pouco, pouquíssimo mesmo. Então vemos que desses 140 milhões de garrafas, 80% custam abaixo dos 25 reais e que o nicho ficou ainda menor quando pensamos sobre os vinhos que normalmente consumimos ou escrevemos a respeito. Nós precisamos simplificar e muito. Estamos escrevendo uns para os outros. Nosso universo é tão pequeno que parece que somos amigos do mesmo bairro.

Penso que os leitores querem simplicidade, ao menos os leitores que eu gostaria que estivessem interessados pelo vinho. Se você está no nicho do nicho do nicho, que acredito você esteja, lamento dizer que não encontrará nada aqui para você. Eu quero o novo, aquele que não tem a menor ideia do que é equilíbrio, não sabe de tipicidade, não se interessa pelo solo de “limestone”, nunca ouviu falar em aromas empireumáticos, ou ácidos acético e coisas assim.

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Penso que a maioria dos textos tem sido escrito para o nicho do nicho do nicho. E eu quero romper com isso. Quero dizer apenas que o vinho é gostoso e que ao prová-lo me deu alegria lembrar a fazenda na minha infância, quando selava o cavalo para uma caminhada aventureira. Dane-se se os descritores aromáticos estão certos ou errados. Quero dizer que o vinho fica muito bem com o bife à milanesa com arroz e feijão. Eu quero contribuir para o aumento da base de consumidores.

Aliás, não há notícia mais positiva nesse sentido atualmente para mim, que o crescente interesse dos consumidores por vinhos puros e sem químicos, que estão quebrando paradigmas de degustadores, que têm que sair de sua zona de conforto desses descritores e de uma hora para outra vêm que justamente o que seria defeito começa a ter status de qualidade e merece elogios. Os chamados desequilíbrios naturais.

Tenho adorado ver isso. Afinal, degustar tradicionalmente tal como se aprende em cursos, é mapear defeitos e ir eliminado as amostras por imperfeições, sobrando quase sempre a mesmice, o igual, o cada vez mais manipulado vinho tecnológico. Com o uso indiscriminado de produtos químicos nas adegas, cada vez mais sofisticados, tornou ridículo se descrever qualquer tipicidade no vinho.

Lembro-me de um vinho que o Nicolas Joly (Coulée de Serrant) levou ao nariz e me disse: “Didu… its full of too much…”. Adorei. É isso mesmo. Vejam o sucesso da Cata de Berlin em toda parte, onde terroirs absolutamente distintos se igualam nas avaliações de experts do tema.

Bordeaux Grand Cru e Super Toscanos se confundem com amostras de vinhos do Aconcágua no Chile! Acho que foi uma jogada fenomenal de Eduardo Chadwick em encarar esse desafio que elevou o valor de seus vinhos notavelmente, porém o que se conclui é que eles se confundem por estarem todos embebidos na mesma barrica do mesmo toneleiro que usa os mesmos carvalhos do infindável bosque de Allier! Isso encobriu o que seria o terroir.

Caro amigo leitor, esqueça as notas, as avaliações, as descrições e acredite em sua intuição. Beba o que lhe agrade, faça você as suas descrições, acredite em sua intuição diante de tanto vinho disponível e seja feliz. Procure o que o vinho tem de legal e não seus defeitos. A menos que você queira ser um máster qualquer coisa, ou esnobar amigos que ainda acham legal ficar identificando a tipicidade do vinho ou comentar seus aromas terciários típicos daquela casta em tal região… Por favor, né? Saúde!

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