Prazeres da mesa

Vitória da meliponicultura na Bahia

Por: Prazeres Da Mesa | 10.sep.2018

Por Patrícia Moll 

 Milhares de famílias criam abelhas sem ferrão em toda a Bahia. A promulgação de uma nova lei ajuda a estabelecer os critérios para essa atividade

O ano começou com uma nova conquista para as abelhas sem ferrão. Após dois anos de trabalho, foi promulgada na Assembleia Legislativa da Bahia, no dia 29 de janeiro, a Lei 13.902/18, apresentada pelo deputado estadual do PCdoB Jean Fabrício Falcão. Encabeçada por ativistas da rede Slow Food do Nordeste, em parceria com grupos organizados de meliponicultores, universidades e chefs baianos, a lei regulamenta a criação, o comércio, a conservação e o transporte das abelhas nativas sem ferrão no estado, tanto em zonas rurais como urbanas, e identifica 54 espécies. A iniciativa tem por objetivo fortalecer a cadeia produtiva de mel e o aumento da renda de agricultores familiares. É o quinto estado do país a regularizar esse tipo de atividade. Os outros são Amazonas, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Entende-se por meliponicultura a atividade de criação técnica de abelhas nativas sem ferrão, de utilidade pública, de interesse para o meio ambiente e para a agricultura familiar e empresarial. Considerados polinizadores das plantas nativas, essas abelhas também são conhecidas popularmente como abelhas-da-terra, indígenas ou brasileiras. Sua criação é uma atividade passada de geração a geração no país, podendo ser considerada como patrimônio cultural dos povos do campo e também dos urbanos, pois devido à constante migração do campo para a cidade, as abelhas nativas acompanharam essas famílias, e, atualmente, têm representado uma alternativa de renda.

Milhares de famílias criam abelhas sem ferrão em toda a Bahia. Por isso, a importância de se estabelecer os critérios para sua criação, principalmente por se tratar de animais silvestres componentes da fauna brasileira. Registram-se no estado sete espécies no catálogo da Arca do Gosto: munduri, jataí, moça-branca, mandaçaia, jandaíra, tiúba e mandaçaia-da-caatinga – esta última é também uma Fortaleza protegida pelo Slow Food. Diferentemente do mel das abelhas africanizadas, comumente encontrado no mercado brasileiro, em termos gerais o mel de abelhas nativas é mais líquido, mais ácido e menos doce. “Nos detalhes, cada mel apresenta um buquê de aromas que representa a influência de cada espécie de abelha e a diversidade de flores de cada ambiente. O mel é como se fosse uma impressão digital do ecossistema no qual é produzido. Em um país megadiverso como o Brasil, a variedade de méis das abelhas nativas é um grande universo a ser explorado”, diz Jerônimo Villas Boas, ecólogo e membro do Slow Food. Toda essa multiplicidade de sabores oferece um mundo de possibilidades para a gastronomia e pode ser utilizada na preparação de pratos variados.

A novidade foi comemorada por muitos chefs e membros da Aliança dos Cozinheiros, como o entusiasta e ativista dessa articulação, o chef Caco Marinho, à frente do DOC Casual Dining. “Tenho certeza que a aprovação da lei da meliponicultura trará bons resultados sociais, ecológicos e culturais para nossa Bahia. Acredito que os méis das nossas abelhas nativas terão destaque na lista dos ingredientes identitários que ajudarão a formar ‘a nova cozinha baiana’ ”. O chef Fabrício Lemos, do restaurante Origem, também em Salvador, foi outro que celebrou a notícia. “A gente vinha lutando há muito tempo e, finalmente, não temos mais de esconder algo que é nosso. É o começo de uma gastronomia de verdade, com o Brasil voltando a ser Brasil, de volta às suas origens e essência.”

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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