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Por trás de todo bartender…

...há uma equipe bem treinada e que, de tão afiada, comanda o balcão com segurança, mesmo quando o chefe está fora. Conheça a nova geração de profissionais que está agitando nossos bares

Fotos António Rodrigues e RJ Castilho

Há quase três décadas, a coquetelaria começou a dar os primeiros passos rumo ao crescimento no Brasil. O que teve início com drinques superdoces, como as batidas, ou com a sempre desejada caipirinha, foi dando espaço no bar a coquetéis clássicos, como old fashioned, dry Martini ou cosmopolitan. Porém, o paladar do brasileiro ainda precisava – e precisa – acostumar-se aos novos sabores. Para isso, entraram em cena bartenders, como o Mestre Derivan e o Kascão Oliveira, e sua arte de valorizar o bar dentro de um estabelecimento.

A dupla foi seguida por uma geração curiosa e ávida por aprender que, depois de algumas experiências fora do Brasil, começou a trazer a coquetelaria contemporânea para os bares de São Paulo, exaltando os produtos nacionais. Aos poucos, cada um desses profissionais foi sendo reconhecido e respeitado pelo público, passaram a ter seus nomes em destaque nos bares tal qual acontece com os chefs e, pode-se afirmar com certeza, que o brasileiro nunca apreciou tão bem os coquetéis como hoje. Há ainda um caminho a ser percorrido, até que a mixologia brasileira se firme no rol mundial, mas alguns de nossos bares já figuram entre os 100 melhores do mundo e a tendência é que a lista The World’s 50 Best Bars fique cada vez mais verde e amarela.

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Com o mercado em ascensão, nasce também a pergunta: afinal, quem estará à frente desse movimento de bares nos próximos anos? Conversamos com grandes bartenders para que fizessem suas apostas – que, não por coincidência, em muitos casos, são parte das equipes de cada um atualmente – e convidamos a nova geração a criar uma receita com gim brasileiro.

Quem indica: Márcio Silva, Guilhotina Bar

A carreira de Márcio Silva no bar começou por acaso. Lutador de taekwondo, vivia em Londres e pensava em uma forma de conseguir uma vaga na Olimpíada, mas uma lesão acabou desviando seu caminho. Com a vontade de continuar vivendo em solo britânico, Márcio conseguiu um bico em um bar, algo que serviria para pagar as contas e lhe daria tempo de pensar o que fazer a seguir.

Mal sabia Márcio que dali nasceria uma trajetória de conquistas. Passados 17 anos, ele já deu treinamento em 38 países e, há dois anos, decidiu voltar a viver no Brasil e fazer algo ainda inédito para ele: abrir o próprio bar. “Eu fiz tanto por outros mercados no mundo, que achei que estava na hora de dar algo a meu país. Quero que o Guilhotina tenha projeção mundial e que, mesmo se um dia ele fechar, deixe um legado”, afirma.

Para isso, ele coloca sua equipe em primeiro lugar, oferecendo-lhe desde a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes nomes da coquetelaria mundial, levando-a em viagens ou trazendo os profissionais para o seu bar, até proporcionando à equipe benefícios e treinamento financeiro, de modo que ela esteja com a mente leve para dar o melhor de si no balcão.

“O bartender tem o dom de tocar corações e fazer diferença na vida das pessoas. Seja com um sorriso, um olhar, seja com um abraço, com a bebida. No bar, você tem que realmente amar o trabalho com pessoas e praticar sempre o próprio carisma”, diz. “Eu sempre tive a sorte de sorrir para o vento. Mesmo em meio a muito estresse, eu conseguia brincar e desenvolver receitas com facilidade.” Foi essa alegria, somada ao talento, que fez com que Márcio despontasse e conseguisse tantas oportunidades pelo mundo.

Outra lição dele para a equipe é a importância da união. “Hoje, vemos os profissionais como indivíduos. Fora do Brasil há a consciência de trabalho em grupo, de um ajudar o outro. É uma coisa que ainda está começando por aqui. O mercado brasileiro é muito novo, há muito o que acontecer.”

Por trás de todo bartender...
Tiago Santos, Saulo Souto, Eduardo Tavares Luiz Hazel Jaramiru e Márcio Silva

Tiago Santos 

Foto António Rodrigues
Classy as…

Há 12 anos trabalhando em bares, Tiago começou em casas noturnas, depois foi morar um ano fora do país e, na volta, em 2006, conheceu Márcio, durante um treinamento. “Ele me ensinou muito sobre técnica, modo de preparo, disciplina e gerenciamento de bar”, diz.

E o chefe rebate. “Ele sempre foi muito trabalhador, honesto e sincero. E é uma das pessoas mais comprometidas que eu pude encontrar até hoje no mercado”, afirma Márcio, que não teve dúvidas na hora de convidar o jovem para integrar sua equipe.

Tiago conta que, hoje, a clientela está mais aberta a novas ideias e que o ofício de bartender, finalmente, passou a ser visto como profissão. “Temos matérias-primas melhores do que antes, e profissionais mais qualificados no mercado. No passado, falava-se só de gastronomia e hoje ouvimos sobre coquetelaria.”

O gim está em alta, e isso não é mais novidade, mas Tiago conta que é fã da bebida há bastante tempo. “É muito versátil e com uma base histórica importante. Hoje vemos muitos gins no mercado brasileiro, que nunca imaginávamos, temos fábricas e produtores nacionais de extrema qualidade. É a bebida do momento e será a bebida do futuro”, diz.

Foto António Rodrigues
Framboesa tônica

Saulo Souto

Quando começou a trabalhar em um bistrô na região de Higienópolis nove anos atrás, Saulo conta que era difícil ter acesso à informação sobre como, de fato, funcionava um bar. “Isso mudou quando conheci o Márcio. Aprendi quase tudo com ele”, diz. “A história da coquetelaria brasileira está começando praticamente agora. Antes não tínhamos um histórico por trás do drinque ou equipe bem treinada.”

Sobre a ascensão do gim, Saulo vê a bebida como base para grande parte dos coquetéis que produz no dia a dia. “E os rótulos nacionais são quase a maioria em nossa carta porque hoje encontramos produtos de altíssima qualidade e estamos saindo do gim-tônica e partindo para coquetéis ricos em aromas e sabores.”

O que Márcio mais admira em Saulo? “A gente sempre teve uma empatia muito grande e se respeitou muito. Além de ele ser um grande trabalhador, é um dos que têm a mais bela postura atrás do balcão. É um cara de confiança – eu fecho os olhos e sei que tudo está seguro nas mãos dele.”

Foto António Rodrigues
50 tons de grey

Eduardo Tavares

Vindo do mundo dos cafés e da hotelaria, Eduardo conheceu o Márcio há um ano, depois de trabalhar em diversos hotéis. “Vemos o serviço hoteleiro muito bom em um lado, mas ainda há muito a melhorar. E acho que isso é uma coisa que vai acontecer cada vez mais e melhor daqui para a frente”, diz.

A expectativa de Eduardo é das melhores, ele acredita que os bares brasileiros terão cada vez mais projeção mundo afora e que os profissionais estão se especializando, assim como os coquetéis estão ficando mais refinados. “O gim tem um potencial incrível e acho que vamos conseguir sair de gim-tônica para trabalhar com a bebida de outras formas”, afirma.

Para Márcio, Eduardo é um cérebro. “Eu o contratei no dia que o conheci porque é um cara que consegue matematizar as coisas rapidamente, que tem uma postura muito respeitosa e que consegue ser uma pessoa positiva, que vê sempre os prós, independentemente do que exista contra, e isso agrega muito
à equipe e ao meu trabalho.”

Foto António Rodrigues
Gin ginger tonic

Luiz Hazael Jaramiru

Colombiano que, embora surpreenda com seu bom português, sofreu para aprender a lidar com a nova língua e com o temperamento do paulistano, sempre agitado, correndo. “Eu passei pelo mercado mineiro e pelo carioca, mas aqui acho que é um dos lugares mais difíceis em que trabalhei na vida”, diz.

Luiz começou em bares aos 19 anos, quando ainda vivia na Colômbia, e há três anos mora no Brasil. Seu sonho é ser reconhecido mundialmente, o que, na visão de Márcio, é muito provável que aconteça.

“Eu sempre falo que enxergo muito mais nele do que ele se vê. É uma pessoa que vai fazer uma grande diferença no mercado. Além de ser supertrabalhador, é uma das pessoas que mais recebem elogio aqui no Guilhotina, por causa do carisma. Ele cuida das pessoas com maestria.”

Sobre o mercado brasileiro, Luiz conta que se surpreendeu com a quantidade de clientes em busca da coquetelaria clássica, como negroni. “E também de conhecer drinques brasileiros além da caipirinha, como rabo de galo e bombeirinho. Na Colômbia a coquetelaria é mais caribenha.”

Quem indica: Jean Ponce, Guarita Bar

Se pudesse dar um conselho ao Jean Ponce de 18 anos atrás, ele diria que menos é mais e que, melhor do que olhar para o que os outros estão fazendo, é voltar ao passado, resgatar o que seus avós e pais consumiam e fazer releituras.

“É pegar o que eles bebiam de forma marginalizada e transformar em algo conceitual”, diz. “Hoje no Guarita a gente quer buscar nossa essência e transformá-la em coquetelaria.” Jean, que já passou por grandes bares de São Paulo, como D.O.M e Riviera, conta que por muito tempo se questionou sobre sua escolha profissional, se era esse o caminho que queria seguir. “Hoje essa é minha maior felicidade e, se me perguntar o que quero para o futuro, eu tenho certeza que será: ficar atrás do balcão, literalmente.”

E não vá dizer a ele que a coquetelaria no Brasil é difícil de ser exercida por não ter acesso a alguns ingredientes, afinal, há por aqui uma grande variedade de frutas e especiarias a ser utilizada. Com a valorização do setor e da profissão, Jean afirma que hoje o mercado nacional está repleto de bons profissionais. “Nos próximos três, quatro anos, estaremos no mesmo degrau da coquetelaria mundial. Por enquanto, nos falta idade, experiência”, diz.

Para a reportagem, Jean indicou seus braços direitos no Guarita: Alice e Ítalo. “Eles amam o que fazem e acreditam nisso. Se eu sento do lado de cá do balcão e peço para criarem algo de que vou gostar, eles acertarão. Eles são especiais, porque têm conhecimento, claro, mas também têm paixão, técnica e vontade de querer mais. Eles me surpreendem todos os dias, sempre com uma ideia nova.”

Por trás de todo bartender...
Ítalo de Paula, Jean Ponce e Alice Guedes

Ítalo de Paula 

Variação do Negroni
Variação do negroni

Nascido em Manaus, Ítalo trabalhava como gerente em uma fábrica, mas não se dava muito bem com a ideia de acordar e dormir cedo. O resultado eram noites em claro e cansaço sem fim. Insone, decidiu sair do emprego e aceitar uma proposta para trabalhar em uma balada. Depois veio o convite para chefiar um bar, seguido por outro bar.

Ainda em Manaus, dividiu o balcão com Jean Ponce, que estava ali para dar uma consultoria e, passadas nem três semanas, ele arrumou as malas rumo ao Guarita, em São Paulo. “Acho que a lição principal que o Jean me passou foi de valorizar os ingredientes brasileiros e descobrir produtos, porque temos basicamente tudo aqui, embora às vezes a gente dê mais valor ao que vem da Europa, dos Estados Unidos, nós somos os reis dos insumos.” Por isso, diariamente eles trabalham testando sabores e combinando-os aos destilados.

Para Ítalo, a coquetelaria brasileira está cada vez mais técnica, mas é preciso cuidar para não deixar a profissão quadrada demais. “Acho que as pessoas estão esquecendo um pouco que o bar é para se divertir acima de tudo e a gente está tentando resgatar isso, de você sentar no balcão e se sentir em uma festa. É preciso ser altamente técnico, mas ao mesmo tempo informal”, afirma. Para a reportagem, ele escolheu fazer a releitura de um clássico, o negroni, que aqui foi servido com um chocolate brasileiro 70% cacau. “A ideia é fazer uma brincadeira com chocolate e pimenta (que vai no drinque), só que com uma face totalmente brasileira”, diz.

Foto RJ Castilho
Esmero

Alice Guedes

Ela era atriz, mas um dia, vendo uma menina trabalhar no bar, encantou-se pela profissão e pensou na possibilidade de seguir o mesmo rumo. “A coquetelaria e o teatro são formas de emocionar e proporcionar sensações diferentes às pessoas. Embora bem diferentes, nos dois casos você consegue transmitir muita energia e modificar o que a pessoa está sentindo. Às vezes o cliente chega aqui de uma forma e sai muito feliz, abraçando a gente, chamando pelo nome, rindo”, diz.

Sempre com um sorriso, ela driblou os inconvenientes de ser mulher e trabalhar no bar, afinal, em profissão dominada por homens, os olhares tortos por parte de colegas e da clientela eram quase que certeiros anos atrás. “O que pode acontecer é eu levar mais tempo para fazer uma tarefa. Se um homem vai trazer 10 quilos de gelo de uma vez só, eu vou trazer de 5 em 5 quilos, mas vou fazer da mesma forma. Porém, hoje as coisas estão bem melhores”, afirma.

A chegada dela ao Guarita aconteceu depois de uma ligação do Jean. Na época ela trabalhava em Buenos Aires, na Argentina, e não havia visitado o bar paulistano, ainda recém-inaugurado. Porém sua admiração por Jean e a boa experiência que teve em oportunidades em que trabalharam juntos, a fizeram aceitar o convite.

“Eu trabalho há oito anos na área, mas é incrível como a equipe do Guarita e o Jean me ensinam algo diferente a cada dia. Aqui eu aprendi a ser hoteleira, a ter proximidade com o cliente, a ter orgulho de ser brasileira e de usar nossos insumos”, diz. Para exaltar os gins nacionais, ela criou um drinque cítrico, que brinca com o sabor do sal e que ainda ganha o toque do cumaru, um de seus ingredientes favoritos. “É uma receita que traz um pouco de Brasil e um pouco de mim.”

Quem indica: Marcelo Serrano, Veríssimo Bar

Jogador profissional de futebol, Marcelo Serrano se mudou para Londres para tentar a vida em clubes pequenos do país. Tudo ia bem até que ele se machucou e teve de parar. Voltou ao Brasil, mas cultivou o desejo de viver em Londres. “Dei como encerrada a carreira de jogador e liguei para um amigo pedindo qualquer emprego. Como ele trabalhava em um bar, me levou junto”, diz.

Foram oito anos trabalhando Europa afora até que, por saudade da família e cansado do clima londrino, decidiu voltar a seu país. Tendo de se adaptar a outra cultura de bar, em que o público pedia por coquetéis doces, Serrano despontou com sua interpretação de moscow mule, até hoje replicado em diversas casas.

“Como vim do futebol, eu sabia que, embora fosse o capitão da equipe, eu precisava ter um time forte, porque, se eu faltasse algum dia, eles teriam de conseguir fazer as coisas sem mim”, diz. Assim, passou a todos a necessidade de jogar junto, estimulando que cada um deles estudasse e aprendesse mais a cada dia.

Para ser um bom bartender, deve-se ir além de fazer espumas, bitter e gelos, diz Marcelo. “Antes de tudo, é preciso ter organização, limpeza e cuidado pessoal. As pessoas hoje em dia querem pular etapas e começar como chefe de bar, mas não é assim.” Entre os diferenciais de um bom profissional, Marcelo conta que é preciso responsabilidade e dedicação.

Agora trabalhando com Marcos Livi, no grupo CGC, e com algumas marcas de bebidas, Serrano conta que está em uma nova fase de aprendizado. “Dei um passo para fora do balcão para poder aprender mais. Estou descobrindo sobre a gestão de pessoas, sobre a atuação on-trade e off-trade.” Também voltou a jogar futebol, o que não fazia há dez anos, matriculou-se na academia, está acordando e indo dormir mais cedo e administrando melhor seu tempo de trabalho. Pode-se dizer que está quase levando uma vida normal.

Por trás de todo bartender...
Leandro Florentino, Jean Ponce e Valdemir Cabral

Leandro Florentino, BGB Bar 

Foto RJ Castilho
Fazendinha

Hoje a relação entre Leandro e Marcelo é diferente. Deixaram de ser bartender e subchef e passaram a ser amigos para além das coqueteleiras. “Eu falo que o Leandro é meu subchefe da vida, não só do bar. Ele começou comigo como ajudante de bar e foi crescendo. Hoje já atua bastante fora do balcão também, acredito que o próximo passo dele é ser chefe de bar, gerente. É um cara muito dedicado e que gosta de trabalhar”, afirma Serrano.

A parceria entre eles começou há quase dez anos e Leandro confessa que trabalhar sem o apoio de seu mestre foi difícil em um primeiro momento, mas as lições aprendidas ficaram e são praticadas até hoje. “Ele me ensinou sobre a importância da humildade dentro do bar, sobre simplicidade. Que o barman não faz apenas coquetel, que também é preciso ter diversão, alegria e carinho”, diz Leandro.

Quando está no comando do balcão, ele conta que sua maior preocupação é atender aos anseios do cliente e imprimir sua personalidade nos drinques, sempre mais frescos, cítricos, com o toque de espumante ou de alguma erva. “Sou um apaixonado por coquetelaria clássica”, diz.

Feliz em ver o caminho que sua profissão está tomando, Leandro destaca que hoje os bares estão ganhando personalidade. “Antigamente o barman era uma pessoa estranha, que fazia um drinque qualquer, hoje vemos que os clientes buscam um endereço porque sabem quem é o nome atrás do balcão.”

Para Prazeres da Mesa, Leandro ensina um drinque criado em um momento de descontração entre ele e Serrano, o fazendinha. “É um coquetel simples, porque a ideia é de que se tome mais de um. É preparado com gim nacional e xarope de manjericão feito por mim e que traz o frescor tão presente em minhas receitas”, afirma.

Valdemir Cabral, Frank Bar

Foto RJ Castilho
Love you

Foram as cores e os rótulos das garrafas trazidas por seu pai que encantaram Cabral e o convidaram a brincar de misturar aromas e sabores. “Eu ficava olhando os rótulos, lendo, vendo o que ficava bom com o quê. Às vezes eu nem bebia, só apreciava a beleza daquilo”, diz.

Nascido em João Pessoa, Cabral passou a adolescência no Rio de Janeiro e começou sua carreira em bares por lá, até que veio para São Paulo, conheceu Marcelo Serrano e não quis mais voltar. “Ele tem 100% de peso em minha carreira. Foi o Serrano quem me deu oportunidade de trabalhar e um suporte absurdo, me mostrando o caminho certo para seguir e incentivando a ler e estudar”, diz ele, que se orgulha em ver novos nomes nascendo fora do eixo Rio-São Paulo, em cidades como Recife, Minas Gerais e Porto Alegre.

Hoje no Frank Bar, instalado no Hotel Maksoud Plaza, ele quer que todas as noites sejam especiais como uma festa de casamento: únicas, felizes e excepcionais. “Não quero que nada estrague a experiência do meu cliente.” Tarefa que, segundo Serrano, ele tira de letra.

“O Cabral é uma pessoa calma e supercarismática, que lhe envolve e, quando você vê, já tomou três drinques. É um cara que não tem preguiça de horário e é muito competente. Sabe aquela pessoa que vai devagarzinho, mas está sempre crescendo?”

Sobre a relação com o gim, Cabral conta que é uma de suas bebidas prediletas. “Tanto é que, facilmente, tomou o lugar da vodca na coquetelaria brasileira. Gim é muito amor.” Nesse clima, ele preparou o drinque love you, escolhido por ser agradável e leve e atender a todos os públicos, masculino e feminino.

Quem indica: Fabio La Pietra e Rogério Souza (Frajola), SubAstor

Tanto o italiano Fabio La Pietra quanto o cearense Rogério Souza, o Frajola, tiveram em suas famílias a inspiração para seguir os rumos da coquetelaria. Começando por Frajola, seu tio trabalhava em um bar e o chamou para ajudar no ofício. Ensinou-lhe a base e estimulou que o jovem fosse atrás de outros cursos e fizesse pesquisas.

“Para trabalhar em bar é preciso ter disciplina, organização e agir com simplicidade”, diz ele, ressaltando que são características presentes em sua equipe. Recém-chegado de uma viagem pela Europa, na qual visitou um grande número de bares, Frajola vê os bares brasileiros no mesmo patamar dos internacionais, com boa execução de técnicas e receitas.

A história de La Pietra tem início aos 14 anos de idade, quando decidiu cursar hospitalidade, seguindo os passos de seu irmão. “A primeira vez que entrei no bar eu fazia jarra de cerveja e de Coca-Cola em uma pizzaria bem famosa em minha cidade”, diz o barman, que depois trabalhou em hotéis de luxo pelo mundo até aportar em Londres, onde conheceu os primeiros bares de coquetéis e teve a certeza de sua escolha profissional.

Há cinco anos ele mudou para São Paulo, mesmo sabendo que, por aqui, teria um cenário completamente diferente do que estava acostumado. Chegou para assumir o SubAstor e foi um dos responsáveis pelo despontar da coquetelaria moderna. “Gosto das histórias que encontro por aqui. O brasileiro não é só Amazônia, tem uma questão de imigração muito grande que nos dá material para criar. Mas o brasileiro tem medo de errar e o que mais me intriga é o desafio em explicar e convencer o cliente a sair da zona de conforto”, diz.

A miscigenação de culturas também está presente no perfil da equipe, que tem um profissional mais despojado, outro mais low profile, uma mulher. E, em comum, todos exibem características das quais La Pietra admira: “União, troca de ideias e apetite de aprendizado”.

Livia Isoppo, Nicola Bara e José Ronaldo Oliveira Silva Filho
Livia Isoppo, Nicola Bara e José Ronaldo Oliveira Silva Filho
Foto RJ Castilho
Grape basil

Livia Isoppo

A mais nova da equipe, Livia entrou para a área há pouco mais de um ano. Até então ela trabalhava no salão, como hostess. “Eu tinha amigos no bar que foram despertando minha curiosidade para a área. Foram eles também que me incentivaram a estudar e me aprimorar.”

Há alguns meses no SubAstor, ela já pode incluir novas técnicas em seu dia a dia, mas o que leva mesmo como grande lição é a troca de experiências, em que cada um traz sua bagagem e, juntos, comandam o bar. “Do que mais gosto é ver o cliente chegando no bar de um jeito e saindo feliz por ter vivido uma nova experiência”, diz.

Para a reportagem, ela escolheu um drinque que simboliza seu aprendizado na casa, está na carta e lhe foi ensinado pelo Frajola, o grape basil.

Foto RJ Castilho
Bitter’n’sour martini

Nicola Bara

Também italiano e com experiência em bares de Londres, Nicola se mudou para o Brasil por causa da namorada, mas teve seu primeiro emprego no Rio de Janeiro. “Comecei em um bar de Ipanema, mas depois fui promovido a maître. Saí dali para fazer feirinhas gastronômicas, trabalhei em outro bar em Botafogo, até que em janeiro me mudei para São Paulo e para o Sub”, diz.

Foi preciso se adaptar à mudança de paladar porque, no Rio, Nicola estava acostumado a receitas mais frutadas, enquanto em São Paulo a pedida é por coquetéis mais amargos, como negroni. Além de aprender sobre o paladar local, foi na casa paulistana que ele conheceu e teve a chance de trabalhar com ingredientes brasileiros, como suco fermentado de caju.

A quem deseja se aventurar mais nas criações com gim, Nicola ressalta a versatilidade da bebida, que combina desde com sabores frutados até os secos. “Se não sabe ainda por onde começar, pegue os coquetéis clássicos e experimente trocar os ingredientes.”

José Ronaldo Oliveira Silva Filho 

Foto António Rodrigues
Bee’s knees

Nem é preciso muitas perguntas, Ronaldo é despojado e já vem logo falando “Prazer, sou bartender há sete anos e estou há seis meses no Sub. Há algum tempo eu queria trabalhar aqui, o que me faz ter um carinho especial por esta casa. Gosto muito da hospitalidade daqui.” Sobre os mestres, ele também não economiza elogios.

“O Fabio gosta muito de buscar ingredientes novos, enquanto o Frajola, que é do Ceará, traz muito da cultura dele para nós.” Mas, continuando as apresentações… Ronaldo começou a trabalhar em restaurantes como garçom e logo se interessou pelo bar.

Foi conhecendo uma bebida aqui e outra ali até que, quando viu, lá estava ele agitando as coqueteleiras. “O que mais me encanta é essa possibilidade de poder misturar diversos tipos de ingrediente e de atender as pessoas.

Nem sempre você sai para beber com a mesma vontade, vai ter dia em que o cliente quer algo mais refrescante, no outro algo mais encorpado, e poder surpreender dentro de um copo é algo que me encanta. Ao mesmo tempo em que é preciso cuidado, temos nas mãos um modificador de personalidade e devemos ter jogo de cintura para lidar com isso”, afirma.

Inspirado na coquetelaria americana, uma de suas vertentes favoritas, Ronaldo fez uma releitura do coquetel bee’s knees, que foi criado durante a lei seca americana e batizado com uma expressão utilizada para designar algo bom.

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Isabel Raia

Na equipe desde 2014, Isabel Raia é editora de Prazeres da Mesa. É formada em jornalismo, pela PUC-SP e pela Universidad de Castilla-La Mancha (na Espanha), e pós-graduada em Cozinha Brasileira, pelo Senac. Isabel tem na gastronomia uma de suas grandes paixões (principalmente se a receita incluir queijo ou chocolate).

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