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Carlos Cabral faz homenagem a Sérgio de Paula Santos

Por Carlos Cabral

No ultimo dia 4 de maio, faleceu em São Paulo, aos 80 anos, o médico e enófilo Sérgio de Paula Santos. Doutor Sérgio foi uma figura singular no mundo dos vinhos. Trazia de casa a cultura e a paixão pelos vinhos herdadas de seu pai. Ao formar-se médico, escolheu a otorrinolaringologia como especialidade de atuação e logo embarcou para a Europa a fim de aprimorar sua atividade. Na Alemanha, apaixonou-se pelos vinhos brancos da Frankonia, mas nunca deixou de apreciar os bons caldos de Bordeaux e da Borgonha.

Dono de um texto único, Sérgio que era um bibliófilo fiel à literatura séria do vinho. Logo enriqueceu seus conhecimentos e transmitiu os mesmos, com muita propriedade através de colunas semanais que assinava nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo – neste último, sua coluna saia aos domingos no Caderno Feminino.

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Foi em 1976 que li seus primeiros artigos no Estadão e desde então sempre acompanhei seus textos, que antes de tudo eram uma aula de história. Sérgio preservou este estilo até o final da década de 80, mas logo passou a ser um crítico ferrenho dos maus vinhos e do desperdício de marketing que estes rótulos consumiam, geralmente passando mensagens enganosas, sem nenhum conteúdo sério.

Quando no final da década de 1970 tive a ideia de criar a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho – eu convidei o Sérgio para juntar-se a nós. Em uma carta datada de 8 de Novembro de 1978 enviada a ele, expus a minha intenção de reunir enófilos por este Brasil afora, mas infelizmente não obtive resposta.

Sérgio prosseguiu sua carreira de enófilo escrevendo compulsivamente, e de início buscou inspiração nos encontros regulares na célebre Pensão Humayta, residência do grande historiador pátrio Yan de Almeida Prado, que por décadas foi o reduto mais civilizado onde uma boa mesa encontrava guarida.

Seus escritos deram origem a muitos livros, que foram formados por coletânea de textos publicados na imprensa e, como dizia ele, “sem cortes, textos integrais”. A vontade de ter uma tribuna livre para os seus artigos o levou a juntar-se com o amigo Nelson Duarte no projeto do Jornal do Vinho, primeiro periódico sobre o tema editado em São Paulo, onde o competente e saudoso jornalista Evaristo Mileck Jr. ocupava-se da editoração.

Em 1992, Sérgio visitou a Casa Cabral, a loja de vinhos que tive na Rua Padre João Manuel, em São Paulo, e perguntou se eu tinha um Porto Vintage 1929, pois era o ano de seu nascimento e ele não tinha provado ainda um daquela emblemática data. Informei que tinha uma garrafa em casa de um Vintage elaborado na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, então propriedade do confrade Nuno de Carvalho, gentil amigo Cônsul Honorário do Japão na cidade do Porto e que residia em Pedras Rubras, na casa que abrigou o Imperador Dom Pedro I, quando este foi a Portugal lutar pelo trono português para sua filha D. Maria II.

De pronto informei que aquela garrafa já era dele, mas Sérgio propôs uma troca: queria me dar um livro sobre o vinho do Porto, de sua biblioteca. Aceitei e não sei se Sérgio degustou aquele vinho.

Em 1985, Sérgio foi admitido como Cavaleiro na Confraria do Vinho do Porto. Então passamos a ser confrades e nos encontramos muitas vezes em torno de bons cálices deste grande vinho civilizador.

Sérgio deixou uma vasta obra escrita. Destacam-se os livros: “O Vinho Nosso de Cada Dia”, “Vinho e Cultura”, “O Vinho, a Vinha e a Vida”, “Vinhos, a Mesa e o Copo”, “Vinho e História”, “O vinho e suas Circunstâncias”, “Memórias de Adega e Cozinha” e “Os Caminhos de Baco”, sendo que neste último considero a dedicatória que fez em homenagem a sua Família a mais bonita de todas que encontrei até hoje neste mundo do vinho. Diz o texto: “Para Marina, a boa cepa em cuja sombra cresceu nosso pequeno vinhedo: Sérgio, Rodrigo e Mateus.”

Nos últimos meses de vida, Sérgio era leitura obrigatória nas páginas da Revista Vinho Magazine – sua tribuna, onde não media críticas à cultura enlatada do vinho que tomou conta do Brasil, fazendo surgir um grande número de “enochatos”. Sérgio foi um purista e cultivou na mesma intensidade amigos e críticos às suas ideias. Passou por nós e marcou sua presença. Então, como ele sempre dizia: “EVOÉ CONFRADE SÉRGIO!”

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