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Fatias douradas

Entre tantas influências trazidas pelos portugueses, a rabanada poderia ter sido apenas mais uma não fossem a casquinha crocante e o interior cremoso

A rabanada é daquelas receitas que, quando chega o Natal, nos perguntamos por que não a saboreamos o ano inteiro. Afinal, não faltam razões para que ela figure à mesa de janeiro a janeiro: sua receita leva ingredientes fáceis de ser encontrados e que muitas vezes já estão em nossa cozinha, seu preparo é simples e seu sabor é irresistível.

Além disso, sua receita-irmã, o francês pain perdu, há tempos já ganhou o status de sobremesa ou de parte fundamental em um café da manhã de domingo. Para dar à rabanada a atenção que ela merece, nada melhor do que um chef português para ensinar todos os segredinhos de seu passo a passo. Marco Caniça é natural de Lisboa, mas desde 2015 mudou-se para São Paulo para assumir a função de chef executivo da rede B.lem Portuguese Bakery.

No livro Dicionário do Folclore Brasileiro (publicado pela primeira vez nos anos 1950), Câmara Cascudo conta que os portugueses foram os responsáveis por trazer a receita de rabanada para as terras verde-amarelas. Típica das comemorações natalinas daquele país, a rabanada recebe também o nome de fatia de parida, pois era indicada às mães em fase de amamentação para estimular sua produção de leite.

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Outra lenda em relação a esse nome diz que uma mulher pobre tinha apenas pão velho e leite adocicado para comer e precisava alimentar o filho recém-nascido. Para amolecer o pão, molhou as fatias no leite e, então, comeu-as. Tal foi a surpresa no dia seguinte ao amanhecer cheia de leite, sendo capaz de alimentar não apenas o próprio rebento, como também outros bebês da vizinhança.

Fatias douradas - Rabanadas
Fotos: António Rodrigues

Aproveitando o pão

Fatias douradas - Rabanadas
Marco Caniça

Crenças à parte, a rabanada sempre foi uma forma de aproveitar o pão do dia anterior, depois que ele endurecia. “Minha avó tinha uma receita que era guardada a sete chaves e que, infelizmente, foi perdida quando ela morreu”, afirma Marco, que, sem segredos, dividiu o passo a passo da rabanada, incluindo três formas de servir: com canela e açúcar, com calda de vinho do Porto ou com calda de caramelo salgado.

Ele conta que a tradição pede por pão alentejano, mas a receita pode ser reproduzida com qualquer outro pão, desde que ele seja firme e de baixa umidade. “É interessante utilizar aquele do dia anterior, pois ele vai garantir maior absorção do líquido e rabanadas mais gostosas”, diz Marco. Se seu pão não for muito largo, uma dica é cortá-lo na diagonal para obter fatias maiores e mais bonitas.

Toques especiais

Fatias douradas - RabanadasAqui, o chef fez uma mistura de leite, leite condensado e ovos para embeber o pão, mas disse que ainda podem ser adicionadas a essa calda baunilha ou raspas de limão. “Dê asas à imaginação porque as grandes receitas aparecem em mãos de pessoas com grande criatividade”, afirma Marco. Porém, é importante controlar o tempo de contato entre as fatias e o líquido para evitar que se desmanchem.

Na hora de servir, a ideia é que as caldas fiquem à parte, assim cada um pode escolher qual sabor e qual a quantidade desejada em seu prato. Quer deixar ainda mais com cara de Natal? “Junte-a a outra tradição portuguesa, os fios de ovos. Você pode colocar as rabanadas em uma travessa e, ao redor dela, decorar com o doce de ovos”, diz o chef.

Outras variações de rabanada pelo mundo

  • Indonésia: chama-se roti telur e sua massa lembra a de panqueca, porém mais firme e elástica.
  • Índia: a meetha andewala toast é feita com pão semelhante ao de forma, embebido em leite e ovo e aquecido em uma chapa com óleo.
  • Inglaterra: batizada de eggy bread, assemelha-se ao pain perdu, porém é feita com pão mais seco e firme do que o brioche.

Rabanada X Pain perdu (ou french toast)

Rabanada
  • é feita com pão amanhecido
  • é embebida em leite e ovos, podendo ter também: leite condensado, baunilha ou raspas de limão
  • é frita por imersão em óleo
  • é tradicionalmente servida com canela e açúcar
  • come-se no Natal
Pain perdu (ou french toast)
  • é feito com brioche
  • é embebido em leite, ovos, baunilha e uma pitada de sal, podendo ter canela ou não
  • é tostado em manteiga
  • pode ser servido com syrup, creme de baunilha, geleias e até sorvete
  • come-se o ano todo

Passo a passo

Fatias douradas - Rabanadas
1. Escolha um pão firme – na reportagem foi utilizado o pão alentejano – e que seja, de preferência, do dia anterior.
Fatias douradas - Rabanadas
2. Corte as fatias com cerca de 3 centímetros de espessura (aproximadamente dois dedos de largura). Se quiser fatias mais compridas, faça o corte na diagonal do pão.
Fatias douradas - Rabanadas
3. Então, umedeça brevemente cada um dos lados do pão na mistura de leite com leite condensado e ovo.
4. Deixe escorrer o excesso de líquido antes de fritar. Um erro comum é deixar as fatias imersas por muito tempo, isso fará com que elas se desmanchem.
Fatias douradas - Rabanadas
5. Frite por imersão em óleo vegetal até que dourem.
Fatias douradas - Rabanadas
6. Deixe a rabanada descansar em papel absorvente
Fatias douradas - Rabanadas
7. Se optar pela receita tradicional, passe-a na mistura de canela e açúcar (Ou, então, caso escolha servir com uma das caldas ensinadas pelo chef, pule essa etapa).

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    Isabel Raia

    Na equipe desde 2014, Isabel Raia é editora de Prazeres da Mesa. É formada em jornalismo, pela PUC-SP e pela Universidad de Castilla-La Mancha (na Espanha), e pós-graduada em Cozinha Brasileira, pelo Senac. Isabel tem na gastronomia uma de suas grandes paixões (principalmente se a receita incluir queijo ou chocolate).

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