Reportagens

Tapete vermelho

Por Isabel Raia

quique dacosta e helena rizzoQuique Dacosta ficou sete anos sem vir ao Brasil, mas quando pisou em solo tupiniquim fez valer a espera por sua visita. Durante uma semana realizou um jantar a dez chefs convidados, provou da culinária do Dom e do Maní, de Alex Atala e Helena Rizzo, respectivamente, promoveu um jantar beneficente em parceria com a Gastromotiva e finalizou a viagem em um coquetel exclusivo para convidados. Não bastasse isso ainda anunciou que pretende ir além das fronteiras espanholas e, quem sabe, abrir um restaurante por aqui.

Obcecado pela cozinha, como se define, o chef comanda a casa que leva seu nome e acumula três estrelas do aclamado Guia Michelin. O trabalho começou ainda em 1972, no Jarandilla de la Vera, em Cárceres, na Espanha. Depois, na liderança do El Poblet, mostrava a gastronomia catalã e aos poucos acrescentou receitas do mediterrâneo. Com uma nova cozinha valenciana que mesclava estilos regionais, o chef começou a se destacar até que no final de 2009 o restaurante passou a ter seu nome. Até hoje, é nele que muitos projetam a nova culinária exercida no extinto El Bulli de Ferran Adrià e, hoje, levada à diante por Dacosta e pelos irmãos Roca, no El Celler de Can Roca.

Continua após o anúncio
quique da costa 1
Massa de arroz e espuma de ostra, por Quique Dacosta

O chef está acostumado a viajar a trabalho e, raramente, visita um lugar por puro lazer. Esse talvez seja um dos motivos que o deixaram afastado de terras brasileiras por tanto tempo, mas também é uma das razões para ampliar os laços com esta nação. “É um país que está longe da Espanha. Tenho quatro restaurantes e estou criando um novo conceito para abrir outros pelo mundo. O Brasil seria um lugar fantástico para ter um estabelecimento”, conta Quique, que visa ainda trabalhar com mão de obra local. “Posso trazer alguém da Espanha, mas o lógico é treinar e ensinar alguém daqui, pois já conhecerá o lugar, os produtos e as leis trabalhistas, entre outros.”

Mas a volta reservou uma surpresa a Dacosta, a evolução da gastronomia brasileira. “Vi que há mais talentos, há mais chefs com conhecimento amplo da cozinha global e também com um grande conhecimento da local. Também estão cozinhando a comida brasileira sem complexos”, afirma. Para ele, antes a cozinha do do Brasil era apenas uma ideia entre os restaurantes, hoje é realidade.

quique dacosta helena rizzo
Ceviche de caju, por Helena Rizzo

“Havia a intenção de usar os produtos locais e fazer cozinha brasileira, mas os cozinheiros ainda pensavam se havia outras melhores, ficavam na dúvida em relação às suas receitas, mas hoje não. E os cozinheiros modernos fazem esta comida, como Helena Rizzo ou Alex Atala. Fazem comida brasileira, cada um com o estilo próprio, mas fazem produtos nacionais e esta é uma grande mudança”, diz.

Durante esta visita, Quique optou por trazer todos os ingredientes de sua terra natal.”De outro jeito era mais fácil. Em janeiro fiz um tour por América Latina. Passei por Colômbia, Panamá, México, Cuba e República Dominicana e tinha que fazer a minha cozinha com os produtos desses países. Mas aqui queria que fosse diferente, então o desafio era trazer. Assim era diferente da essência dos outros, porque os produtos daqui já são muito bem utilizados pelos cozinheiros daqui, então tenho que trazer algo diferente.”

Ao lado dele, o Juanfra Valiente, o sous chef e amigo há 14 anos. “Trabalhei em um restaurante clássico de San Sebatián, na Espanha. Já com o Quique fui para o El Celler de Can Roca e El Bulli, onde fiz pequenos estágios de um mês ou dois até ir de vez para a cozinha com ele”, conta.

quique dacosta
Rosa comestível, por Quique Dacosta

Quando a parceria começou, o restaurante de Dacosta ainda não possuía premiações, mas era um local dedicado à gastronomia local. “Comecei muito jovem na cozinha, com 16 anos. Éramos muito jovens, mas o Quique sabia o que queria e eu gostei”, afirma Juanfra. A evolução das casas veio aos poucos com muito trabalho. “Tentamos  fazer sempre melhor a cada ano e acho que conseguimos”, conta o sous-chef.

Para a noite de despedida os dois precisaram pensar em receitas que pudessem ser degustadas em pé, no Manioca comandado por Helena Rizzo. “Tive que mudar bastante para esta noite. Atualmente, no meu restaurante, o jantar começa com tapas na terraça, com música, então nisso tenho experiência, mas o ato de comer em pé em um evento social, muda tudo. Porque se você está segurando um copo de champanhe e chega a comida, há apenas uma mão para segurá-la. Com uma colher já fica mais complicado. Então é preciso pensar como o cliente comerá. Mas sou uma pessoa que gosto de desafios e uso deles para crescer”, afirma Quique.

Gastromotiva

Conhecida por incluir pessoas de baixa condição social, a Gastromotiva conta com apoio do mercado gastronômico e de investidores sociais. Além disso a associação desenvolve negócios sociais e eventos. “A gente começou no ano passado uma série de eventos chamada Great Food for a Better World e percebemos que o chef estrangeiro tem vontade de contribuir. Ele tem uma cabeça mais aberta, uma filantropia. E o Quique também queria cozinhar para os chefs do Brasil, explicamos toda a causa e, na hora, ele topou”, conta o diretor da associação David Hertz.

Com isso, alunos da Gastromotiva foram treinados para trabalhar nos eventos e também atuaram na produção de petit fours do jantar que teve a renda revertida à associação. “Foi uma noite muito importante, com um significado muito especial”, diz Juanfra.

 

 

 

Etiquetas
Mostrar mais

Prazeres da Mesa

Lançada em 2003, a proposta da revista é saciar o apetite de todos os leitores que gostam de cozinhar, viajar e conhecer os segredos dos bons vinhos e de outras bebidas antecipando tendências e mostrando as novidades desse delicioso universo.

Artigos relacionados

Leia também

Fechar
Botão Voltar ao topo