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As maravilhas do Uruguai

Por Ricardo Castilho e João Pedro Melo

Fotos Divulgação 

As maravilhas do UruguaiEsqueça a imagem de vinhos rústicos e taninos indomáveis sempre associada aos Tannat uruguaios. A enologia do Uruguai é uma das que mais têm evoluído nos últimos anos, com suas uvas e vinhedos trabalhados com conhecimento e muita técnica. Com essa melhoria, claro que o trabalho nas bodegas foi facilitado e o resultado é que os vinhos do país estão muito mais interessantes, com muita fruta, complexidade e com a elegância que quase todo enólogo procura para seus vinhos. Sim, os taninos do Tannat continuam chamando atenção, mas agora de maneira positiva, estão mais macios e integrados ao vinho. A madeira também vem sendo usada com moderação e outras uvas começam a dar grandes resultados, caso da branca Sauvignon Blanc e da tinta Pinot Noir. Se os vinhos já não fossem motivo suficiente para uma visita, vale lembrar que o Uruguai é um dos países mais bonitos da América do Sul; cheio de história; os uruguaios recebem muito bem; e sua carne é das mais saborosas, com grande parte de seu rebanho criado de maneira sustentável (leia a reportagem na página 66). Outro fator positivo é que várias das vinícolas se encontram ao redor da capital Montevidéu, o que ajuda nos deslocamentos. A seguir, um roteiro com algumas das principais vinícolas do país, com exceção da Garzon, localizada na região de Punta del Este, que estará em um artigo futuro.

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Marichal

Uma das casas mais tradicionais do país, tendo iniciado a vinícola em 1938, fundada pela família de Isabelino Marichal, originário das Ilhas Canárias, na Espanha. Hoje na quarta geração, a família Marichal começou vendendo uvas. Sua produção é pequena, com cerca de 200.000 garrafas por ano. Adota em seus vinhedos o sistema de espaldeira alta, o que evita a umidade e facilita a colheita na região. Predomina a Tannat, mas planta muita Pinot Noir, Cabernet e as brancas Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Seu Sauvignon Blanc chama atenção pelo frescor, com ricos aromas de frutas tropicais, leve e intenso. O Chardonnay, que passa um período por barrica, mostra a madeira bem casada, é longo e harmoniza com pescados grelhados. Mas o mais interessante é o corte de Pinot Noir (com cerca de 60%) prensado levemente para não carregar na cor – vinificado quase como um branco –  e Chardonnay (40%), com breve passagem pela madeira, nunca superior a quatro meses de barrica, que resulta em um vinho de bonita cor, aromas intensos. Bom corpo, fresco, perfeito para o clima quente brasileiro. Um vinho delicioso.

Outros destaques são o Marichal Reserve Collection Tannat, no qual 70% do vinho passa por 12 meses em madeira francesa e americana; e para o Tannat A, um vinho grandioso, muito bem moldado, em que a madeira aportou aromas de chocolate e de tabaco. Excelente pedida para acompanhar cordeiro, picanha e outros assados. Rico e longo. Importados pela Ravin.

Juanicó

Comandada pela família Deicas desde 1979, que assumiu uma antiga propriedade datada de 1830, é uma das casas de maior prestígio no Brasil. Decidido a investir em vinhos de qualidade, Juan Carlos Deicas fez um trabalho de conversão de vinhedos, melhor seleção de uvas e investiu na bodega e em profissionais. O resultado pode ser visto em suas diversas linhas de vinhos, começando pelo gostoso e fresco Don Pascual Viognier, elaborado com uvas de vinhedos plantados nos anos 1990. Floral, frutado, fresco, com boa acidez e notas de jasmim. Ainda nos brancos, produzem um Sauvignon Gris intenso e de final persistente. Mas é nos tintos que a empresa brilha, com a linha Preludio, vinho com grande capacidade de envelhecimento, no qual além da Tannat podem entrar outras uvas, como a Petit Verdot; Massimo Deicas, um Tannat que fermenta em barricas grandes, depois passa um ano em barricas pequenas, vinho de grande elegância e potencial de envelhecimento; e o Familia Deicas Cru D’Éxception Cabernet Sauvignon, uma prova que nem só de Tannat vive o Uruguai. Importados pela Interfood.

Filgueira
Filgueira

Filgueira

São cerca de 30 hectares plantados em produção, com 65% de Tannat. Seu Sauvignon Gris, um dos primeiros e poucos vinhedos plantados na América do Sul, é delicioso, frutado e com bom corpo, acidez perfeita e ricos aromas cítricos, com leve nota floral. Entre os tintos, o Reserva Tannat, depois de passar 18 meses em barricas de carvalho francês, desenvolveu taninos doces, bem resolvidos, muita fruta vermelha e bom corpo. Já o Giuseppe, um 100% Tannat e envelhecido por 24 meses em barricas, foi elaborado em homenagem a Giuseppe Necchini, italiano da Lombardia, que em 1897 emigrou para o Brasil e posteriormente para o Uruguai e faz parte da história da casa. É elaborado com uvas de vários vinhedos e resultou em um vinho complexo, de muita potência, com muita fruta, tabaco, couro e chocolate no aroma. Por fim, um blend interessante de Tannat e de Cabernet Sauvignon e Franc resultou no Familia Necchini, que também repousou por 24 meses em barricas, resultando em um tinto complexo, elegante e com grande persistência, que deixa a boca com gosto de quero mais um pouco. Busca importador no Brasil.

Bodegas Carrau 

A tradição da casa vem desde 1750, na Catalunha, onde a família Carrau produzia vinhos e azeites e vendia boa parte para a América. Em 1930, vieram para o Uruguai e sob a batuta de Juan Carrau Sust fundaram a Bodega Santa Rosa. As Bodegas Carrau surgiram apenas em 1976. Hoje são duas vinícolas, uma em Canelones, onde se encontra o vinhedo Las Violetas, e a outra em Cerro Chapéu, quase na fronteira com o Brasil, no Departamento de Rivera. Consegue bons resultados com os brancos, caso do varietal de Sauvignon Blanc, muito aromático e com bom frescor. Mas é nos tintos que a casa mostra toda a sua tradição e por que seus Tannat estão sempre entre os melhores. É o caso do

Amat, vinho moldado com maestria, de taninos bem resolvidos, fino e elegante, com bom corpo e elegância, prontinho para escoltar um bom assado. Outro destaque é o Vilasar Sousão, uva de origem portuguesa e que se adaptou bem no país. Importados pela Zahil.

Bodega Bouza

Grande parte do sucesso dessa empresa se deve ao enológo Eduardo Boido, que está com a família Bouza desde 2002, início do projeto. As uvas são provenientes de quatro vinhedos. Melilla, no qual está a Bodega e de onde saem as uvas para o delicioso Albariño, Tannat de parcelas únicas e um potente Tempranillo; Las Violetas, que também conta com Albariño, mas no qual a Merlot brilha; Pan de Azúcar, com ventos marítimos e solo mais pedregoso, e quase 8 hectares com Riesling, Chardonnay, Pinot Noir, Merlot e Tannat; e Las Espinas, a apenas 3 quilômetros do mar e no qual a Pinot Noir tem-se mostrado muito interessante ao lado da Tannat.

Seu Albariño tem os aromas bem característicos da uva, com boa acidez, muita fruta e frescor. Se não bastasse, é uma variedade resistente na região. Foi a que melhor suportou a chuva que atacou os vinhedos em 2014. Já seu Chardonnay fermenta em barrica e permanece com as borras por oito meses. Só uma parte faz a malolática e a madeira fica muito sutil. Um vinho gostoso, fresco, longo e com boa fruta. Mas outros dois brilham pela novidade em terras uruguaias. Um deles é o Riesling, elaborado com uvas do vinhedo mais próximo ao mar, com a brisa ajudando a proteger as uvas de enfermidades e ao mesmo tempo fazendo com que a maturação seja perfeita. Vinho único de apenas 2.598 garrafas. O outro é o Cocó, corte de Chardonnay e Albariño, uma combinação que se mostrou potente, rica e perfeita para acompanhar um bom pescado grelhado, mas também um bacalhau no forno com batatas.

Indo para os tintos, o Bouza Merlot B9, parcela única, produção de apenas 2.000 garrafas, é um vinho delicioso, longo e intenso em que a fruta predomina. Taninos doces, finos e final longo, com a fruta vermelha abundante; Tempranillo também de parcela única e que preza pela elegância na luta contra a potência; já o Monte Vide Eu, corte de Tannat (50 %), Merlot e Tempranillo (25 % de cada uma), teve sua primeira safra em 2005, mostra estrutura impressionante, mas sem abrir mão da elegância. Vinho bem equilibrado, com a Tannat bem escoltada pelas outras uvas, equilibrando os taninos e maciez do vinho. Um dos melhores já feitos no país. Importados pela Decanter.

Artesana

As pequenas empresas do Uruguai são um caso à parte, mas a busca pela qualidade é o que as move. Com vinhedos bem cuidados, plantados com Merlot, Zinfandel, Cabernet Franc, Tannat, distribuídos por 8,5 hectares. A vinícola foi fundada em 2007 pelo americano Blake Heinemann, que contratou as jovens enólogas Analia Lazaneo e Valentina Gatti, com total liberdade, mas com a missão de produzirem grandes tintos de Zinfandel. E a missão está sendo bem cumprida e cortes interessantes saem das caves da casa. É o caso do Merlot (40%) e do Tannat (60%) casados em carvalho francês e americano por 14 meses, resultando em taninos finos, doces, com boa estrutura; Tannat-Zinfandel, com 80% e 20% respectivamente e passagem por carvalhos novos e de segundo uso, muito aromático com final longo e notas intensas de frutas vermelhas; e o Tannat (55%), Zinfandel (25%) e Merlot (20%), com longos 24 meses na madeira, mas que não marcam e, sim, equilibram uvas de diferentes “personalidades”. O resultado é grande complexidade, taninos finos e muito equilíbrio. Por fim, o varietal de Zinfandel, que passa 24 meses em madeira francesa de segundo uso e mostra uma fruta vermelha madura interessante, especiarias, muito equilibrado e intenso. Importados pela EnoEventos.

Artesana
Artesana

PIZZORNO

Carlos Pizzorno comanda uma das melhores casas da América do Sul, que teve suas primeiras mudas plantadas em 1910, com a vinícola fundada em 1924. O moderno e o tradicional, como tanques de inox e cubas de cimento, convivem bem. Tem Tannat em várias parcelas e colhidas de maneira diferente, sempre apostando na busca da melhor madurez. Faz vinhos em diversas faixas, caso do gostoso Don Próspero Sauvignon Blanc, fresco, com muita acidez, fruta tropical, intenso e elegante. Para sua elaboração, são feitas três colheitas, sempre visando ter as uvas em seu apogeu, vinificadas em separado para, depois, acontecer o corte. Entre os tintos da linha Don Prospero chamam atenção dois cortes, o Merlot com Tannat, com predominância desta, sem madeira, frutado e de boa estrutura; e o Tannat e o Malbec, com 50% de cada uva, sendo que a Malbec passa um tempo pelo carvalho. Bons aromas e, no paladar, muita fruta vermelha em compota e longo final. Na linha Pizzorno, gosto muito do Tannat Reserva, com uvas provenientes das parcelas 12 e 13, de cor bastante intensa, que passa um ano no carvalho e depois um ano na adega. Taninos muito doces, muita fruta e intensidade. Um vinho longo, prazeroso, para combinar com grelhados; do Select Blend, corte das uvas Tannat (60%), Cabernet Sauvignon (30%) e 10% de Malbec (em alguns anos pode ser Merlot), um vinho intenso, bem equilibrado, que merece lugar na adega, já que evolui muito bem.

PISANO

Pisano
Pisano

Se você ainda tem alguma dúvida sobre as qualidades do vinho uruguaio e da possibilidade de não se apaixonar por eles e pelo país, precisa conhecer essa casa. No comando estão os irmãos Daniel, Eduardo e Gustavo, que herdaram a paixão do bisavô Francesco Pisano, e já incorporaram outra geração da família no projeto, caso do enólogo Gabriel Pisano, filho de Eduardo e que também toca a Viña Progreso. O primeiro vinho nasceu em 1924 e a busca pela qualidade não parou mais. “O mar dá o frescor para os vinhos uruguaios. Ele é nossa altitude”, diz, brincando, Daniel, mas ele está coberto de razão. As brisas marítimas guiam a qualidade do vinho da região, protegendo de enfermidades e ao mesmo tempo ajudando no desenvolvimento da vinha. Os vinhedos são orgânicos, de solo franco-argilosos e calcários. Não são utilizados pesticidas e as leveduras são naturais. Além disso, a produção por planta é muito bem controlada, resultando em uvas de grande concentração. Estão plantadas as brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Viognier e Torrontés; e as tintas Tannat, Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Syrah e Petit Verdot. Começando pelos brancos, o Pisano Torrontés agrada em cheio pelo frescor, fruta gostosa, amplo e intenso. Na boca, é repleto de frescor e acidez muito bem equilibrados. Dando uma escapulida para a Viña Progreso, temos um Viognier Reserva, elaborado por Gabriel Pisano, um vinho mais fresco do que outros feitos com essa uva, longo, intenso, com muita fruta e bem equilibrado. Entre os tintos merece os aplausos o Pisano Pinot Noir, um vinho que é trabalhado desde 2000, mas que apenas nos últimos anos alcançou a qualidade que queriam. Vinho rico em aromas, frutas e florais, complexo e maduro na boca, com grande frescor. Os Tannat da casa, claro, são especiais, e eles resultam em vinhos longevos como o Pisano Arretxea, um Gran Reserva, elaborado apenas em grandes safras, uma homenagem à matriarca Maria Elsa Arretxea. É praticamente um 100% Tannat, com meros 3% de Petit  Verdot. Muito equilibrado, gostoso e intenso 100% de barricas novas e seleção de barricas, nas quais fica por períodos de 18 a 24 meses. Todos os membros da família participam de sua elaboração. Outro ícone é o Pisano Axis Mundi, puro-sangue de Tannat elaborado em apenas três safras. Vinho grandioso, desses que ficam na memória e enterram qualquer dúvida de qualidade e de potencial de envelhecimento dos vinhos do Uruguai. Uma obra de arte. Importado pela Mistral.

TOSCANINI

Tradição em vinhos desde 1894, com uma história parecida com a de outras casas. Imigrantes italianos, o casal Juan Toscanini e Maria Bianchi deixou Gênova, na Itália, e apostou suas fichas em Canelones. Conta com 90 hectares de vinhas e não compra uvas de terceiros. Aposta bem nos brancos, caso do Toscanini Classic Sauvignon Blanc, com muita fruta, fresco, gostoso e intenso, com notas de arruda e de maracujá. Bem balanceado e de final intenso. E também no Chardonnay, que é fermentado em barrica de roble francesa, com uvas colhidas no ápice de sua madureza. Os tintos atingem várias faixas de preço, começando com o Toscanini Classic Tannat-Merlot, com predominância da primeira; e para o Toscanini Cabernet Sauvignon Classic frutado na boca e de corpo médio. No andar de cima, a casa produz o Antologia Tannat, com uvas de vinhedos com rendimentos máximos de 5.000 quilos por hectare, o que garante mais qualidade. Vinho com boa fruta e intensidade, encorpado e com taninos vivos, mas macios. Passa cerca de 18 meses em barris de carvalho e é elaborado apenas em grandes colheitas.

CASTILLO VIEJO

Essa empresa familiar está na quarta geração e o Brasil é seu principal mercado. É importado por La Pastina, mas supermercados como Angeloni e Pão de Açúcar também fazem compras diretas. A vinícola foi fundada em 1927 por Don Santos Etcheverry. Mas apenas na década de 1990 passou a produzir vinhos finos. A linha de entrada é bem gostosa, com vinhos frescos como o Catamayor Sauvignon Blanc, com fruta gostosa, longo e intenso. Bem equilibrado e com boa acidez. Na linha acima, está o Catamayor Reserva de Família Tannat, feito com uvas de várias parcelas, resultando em complexidade e intensidade, envelhecido em carvalho americano e francês. Já o Catamayor Single Barrel n6 Tannat, é um grande exemplar dessa uva, com pouca produção, grande estrutura e complexidade, taninos presentes, mas macios. Final longo.

Antigua Bodega Stagnari

A construção da vinícola é um capítulo à parte, está instalada  em Santos Lugares, Canelones, e foi construída en 1928. No comando está a simpática Virginia Stagnari e seus filhos Mariana e Carlo. Seus bem cuidados vinhedos estão em um solo particular. Depois de cerca de 1 metro de terra, vêm pedregulhos, o que ajuda na absorção da água. Entre outros cuidados, foi a primeira vinícola do Uruguai a fazer etiqueta em braile. A linha Pedregal conta com um Sauvignon Blanc de aromas intensos tropicais, muita lima e um pouco de banana. Outro belo branco é o Prima Dona Sauvignon Blanc, de boa intensidade aromática, com mais volume na boca, longo e intenso. Entre os tintos, conta com o Pedregal, um corte de Tannat, Merlot e de Cabernet Sauvignon, com passagem em barricas americanas por cerca de oito  meses. Taninos bem moldados, boa fruta, madeira discreta, leve e gostoso. Já o Prima Donna Merlot mostra notas de chocolate, café e muita fruta vermelha. Partindo para a linha reserva, a aposta continua no Merlot com o Osiris, que passa 15 meses em barricas novas americanas, gostoso e amplo, com boa fruta e muita intensidade, e também no Osiris Tannat, com 12 meses em carvalho. Mais tânico, mas macio, sem a aspereza de antes, mas um vinho que, se decantado, vai abrindo e vai conquistando. Por fim, o Il Nero Gran Reserva, três anos de barrica, o primeiro com a etiqueta em braile. Homenagem ao pai, Hector Nelson.  Um Tannat 100%, muito complexo e longo. Vinho grandioso, intenso, com muita elegância. Taninos bem resolvidos que garantem um bom envelhecimento. Foi criado em barricas de carvalho francês e americano, com distintos tostados e de primeiro e segundo uso.

H STAGNARI

Outra pequena vinícola familiar, com comando de Hector Stagnari, que no ano 2000 plantou 9 hectares de uvas brancas e 35 hectares de tintas. Nas brancas aposta em Chardonnay, Gewürztraminer e Viognier; o leque das tintas é maior, com Tannat, Cabernet Sauvi-gnon, Merlot, Syrah, Marselan, Petit Verdot e Cabernet Franc. Nas outras tintas, blends e vinhos jovens. Dos vinhedos de Salto, as uvas são colhidas, refrigeradas e viajam à noite para Canelones. Seu Tannat Premier é um vinho sem madeira, frutado, com taninos macios, e estrutura média, sem muita complexidade, mas bem gostoso. O Gran Guarda é um corte de Tannat e Cabernet Sauvignon, que passa por barricas de carvalho francês de segundo e terceiro usos. Nove meses envelhecendo. Já o Dayman é um Tannat 100%, que estagia por 15 meses em carvalho francês e americano. Cor violeta intensa, aroma e paladar mais pujantes. Um vinho para decantar e abrir mais. Longo e amplo. O Dinastia segue a mesma linha de elegância, proveniente de uma parcela especial de Tannat, de pouca produtividade. Ricos aromas aparecem de início, muita fruta vermelha, depois vêm o chocolate e as especiarias. Importados pela Cantu.

VARELA ZARRANZ

Empresa familiar grande e tradicional. Começou com vinhos de mesa em 1933 e nos últimos anos apostou suas fichas nos vinhos finos. Uma linda propriedade, com 40% de produção de Tannat. Ricardo Varela está no comando e conta com o apoio de uma grande equipe de enólogos. Seu Cabernet Franc e Tannat tem rápida passagem pela madeira, é um vinho leve, de taninos bem resolvidos, fresco e alegre. O Tannat Reserva tem linda cor escura, quase negra, notas violáceas e muita intensidade na boca. Na parte de cima está o Guidai Deti Gran Reserva, nome que significa três luas, e é um corte de Tannat, Cabernet Sauvignon e Franc. Vinho mais guloso, desses que roubam a cena. Passa cerca de 16 meses em barricas, mas não fica marcado pela madeira. Longo e intenso, com muita fruta em compota. Apenas em grandes safras e produção de cerca de 3.000 garrafas. Importado pela Obra Prima.

Narbona Wine Lodge

Complexo inserido no roteiro Relais & Chateau, do qual faz parte a vinícola de 50 hectares com a casa original construída em 1909, por Juan de Narbona. Está localizada em Carmelo, distante cerca de 240 quilômetros de Montevidéu. Nos últimos 20 anos, passou por diversas mudanças, tendo sido reformada nos anos 1990, com replantio dos vinhedos em 1998 e, em 2010, a construção de uma nova adega. Árvores frutíferas convivem com os vinhedos e resultam em saborosas geleias. Vale ressaltar o bom  trabalho nos vinhedos e a produção de uma interessante grapa. No capítulo dos vinhos, o Puerto Carmelo Sauvignon Blanc é um branco de muita fruta no aroma, acidez perfeita, bom corpo, longo e intenso. Passando para os tintos, tem um interessante Pinot Noir, de cor mais intensa, bons aromas de frutas rojas. Mais para o estilo americano do que francês, com passagem de oito meses por carvalho francês de segundo uso. O Blend 001 mistura duas safras de Tannat, resultando em um vinho complexo e elegante. Notas de chocolate, café e boa fruta. Mas o Luz de Luna é seu vinho mais grandioso. Feito com uvas selecionadas e o máximo de 4.000 quilos por hectare. Só elaborado em grandes safras. Um Tannat elegante, com uma ponta de tanino mais picante, mas muito interessante e que promete bom envelhecimento.

A grandiosa safra de 2015

Por Marcel Miwa

Uma boa safra não se faz apenas com sol e calor. Para começar a falar da safra 2015, é preciso dar um plano geral de 2014. Para muitos dos produtores visitados trata-se de uma das mais difíceis safras da história no Uruguai. E a explicação se resume a um fator: a chuva. A partir de final de janeiro foram chuvas contínuas até o fim da colheita em março e abril. Na média, as vinícolas contabilizaram volume 50% menor que a média, em razão de podridões e podas para conseguir manter alguma qualidade nos cachos remanescentes. Passado o desastre, veio a redenção. Em 2015, ao contrário, a maioria dos produtores coloca o ciclo de colheita como um dos melhores já ocorridos. Como Carlos Pizzorno, da vinícola que leva seu sobrenome, ressaltou, além do clima ótimo, o ritmo foi perfeito pois em janeiro entraram as uvas para a produção de espumante, alguns dias depois as uvas para o vinho branco, depois as uvas tintas mais precoces e, em março, as uvas tintas de ciclo longo. “Com os 30 milímetros de chuva que tivemos em fevereiro, o ritmo de cada variedade foi respeitado. Pudemos fazer o processamento com calma e atenção”, diz Pizzorno. Em Puerto Carmelo, às margens do Río de la Plata, está a Bodega Narbona. A enóloga Valeria Chiola explica que, apesar do amadurecimento vir cerca de 15 dias adiantado, a sanidade foi exemplar. “Temos aromas limpos e puros, com intensidade e frescor”, diz.

No geral, a floração de 2015 foi consistente e os produtores puderam colher rendimentos conforme planejados, maiores para as linhas simples e menores para as linhas mais ambiciosas. Durante o período da colheita não houve sol em excesso. As temperaturas máximas durante o dia ficaram em torno de 30 graus e as noites foram frescas, com vento. Entre janeiro e março teve cerca de um ou dois dias de chuva a cada mês, suficiente para aliviar o estresse hídrico e não abrir brechas para o ataque de fungos. Em um breve histórico, Daniel Pisano resume que a partir de 2010 as safras ímpares são melhores (11, 13 e 15) e, antes disso, as pares. Resumindo: é um ano para conhecer o verdadeiro potencial dos vinhos uruguaios.

As maravilhas do Uruguai

pizzorno primo-APAGAR MEDALHAPizzorno Primo 2008

R$ 534 – Grand Cru

Um dos grandes tintos do Uruguai é um corte de Tannat, Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot feito sob a supervisão do enólogo neozelandês Duncan Killiner. Com a virtude do estilo bordalês, a Tannat aparece bem domada e com boa fusão com o carvalho francês que aporta mais notas de especiarias (cedro, canela e cravo) que baunilha. A fruta se mostra madura e limpa, sem sobrematuração e com bom frescor. Os taninos são vigorosos mas muito finos, o que deixa o conjunto atrativo para beber desde já.

preludio brancoFamilia Deicas Preludio Branco 2012

R$ 407,90 (safra 2009) – Interfood

Um dos raros vinhos brancos que se comportam como tintos. O visual dourado já denuncia esse estilo que na safra 2012 (Chardonnay, Viognier e Sauvignon Gris) apresenta aromas de ameixa-amarela, pêssego em calda, pitanga, massa amanteigada e baunilha, tudo em uma frequência alta. Na boca, tem textura amanteigada, com ótima acidez e leve presença de taninos, o que dá equilíbrio e sensação de profundidade ao conjunto.

bouza merlot B9 - APAGAR SAFRABouza Merlot B9 2013

R$ 290,10 – Decanter

Dessa parcela da sub-região de Las Violetas (Parcela B são de Las Violetas e Parcela A de Melila), são produzidas apenas 2.400 garrafas. O conjunto é concentrado e potente, mas sem pecar em excessos de maturação da fruta ou álcool. Aromas de ameixa, cereja, terra e pão tostado indicam boa complexidade. O conjunto é compacto e concentrado com taninos finíssimos e delicados. Final limpo e elegante, sem sobra de tanino, álcool ou amargor.

osiris_merlotAntigua Bodega Stagnari Osiris Merlot 2007

R$ 330 – Mercovino

A vinícola é comandada por mulheres, Virginia Stagnari e suas filhas, e nessa principal linha da vinícola produzem apenas 8.000 litros. A Merlot traz todas as nuances de frutas negras (ameixa, cereja e amora) sem ser ofuscada pela madeira, que aparece mais no final com notas de malte e baunilha. Os taninos são finos e acetinados, sem notas herbáceas. Embora seja atrativo no nariz, o vinho mostra seu verdadeiro potencial na boca.

narbona pinot noir-APAGAR SAFRANarbona Pinot Noir 2013

R$ 115 – DeVinum

Um Pinot Noir moderno e bem resolvido, sem os traumas de tentar parecer um Borgonha. Com boa intensidade aromática, aparecem flores secas e fruta negra fresca que recebem sustentação pelos taninos finos e delicados (potentes para um Pinot mais delicado,se comparado a outros tintos). Ao final, a boa acidez facilita o próximo gole e algo de toffee aparece.

Progreso cabernet FrancViña Progreso Cabernet Franc 2013

R$ 130,90 (safra 2010) – Vinci

Gabriel Pisano vem de uma família que elevou o vinho uruguaio a um novo patamar com o trabalho feito no exterior (incluindo o Brasil). A responsabilidade de começar um projeto enológico carregando esse sobrenome parece não ter pesado. Este Cabernet Franc é uma boa introdução à casta: traz as notas mais austeras de páprica e embutidos com o lado mais acessível da fruta negra (amora), taninos muito finos e compactos e toque discreto da madeira.

marichal blanc de noirMarichal Reserve Collection Pinot Noir Chardonnay 2014

R$ 130 (safra 2012) – Ravin

A ideia original era fazer um Pinot Noir mais concentrado por meio de uma parcial sangría do mosto. O resultado do concentrado Pinot se mostrou desastroso para o enólogo Juan Andrés Marichal, enquanto a parte “sangrada” com visual “gris” se mostrou interessante. A solução, inspirada em Champagne, foi colocá-lo em barrica de carvalho e mesclá-lo com uma parte de Chardonnay para levantar seu frescor. O resultado é um branco potente e único, com aromas de laranja e maçã madura. Na boca, há um toque de taninos da barrica que ajudam na percepção de estrutura e ótimo frescor.

garzon albarinoGarzón Albariño 2014

R$ 89,10 – World Wine

Aparentemente simples, este Albariño traz a tipicidade da casta sem arestas. Os aromas de pêssego e nectarina prevalecem no nariz. Na boca, o lado floral se manifesta com sutil salinidade. A textura é fluida e fácil, com bom frescor e álcool comportado. Um branco descontraído, acessível e capaz de surpreender.

Artesana_Tannat_2013Artesanal Tannat 2013

R$ 79,90 (safra 2012) – EnoEventos

O recente projeto se tornou conhecido por apostar na Zinfandel, na zona de Las Brujas, em Canelones. No entanto, enquanto a Zinfandel se mostra uma promessa, a Tannat é uma realidade. Provado em uma minivertical com as safras 2011, -12 e -13, esta última mostra uma evolução nítida do projeto e traz aromas de violeta, grafite e fruta negra (amora) com ótima definição. Os taninos são muito finos e lembram os de um Syrah de clima frio.

castillo viejo chard res de la famCastillo Viejo Chardonnay Reserva de la Familia 2011

n/d – La Pastina

Um produtor que trabalha com discrição e também faz bons espumantes. Este Chardonnay evoluiu bem e hoje se mostra sedutor, com boa integração entre vinho e notas de barrica (60% do vinho fermentou em barricas de carvalho francês). No nariz, aparecem pera caramelizada, pão tostado e creme de amêndoa. A boa acidez faz bom contraponto à untuosidade e não deixa o conjunto pesado. No final, há algo de mel e amêndoa.

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