Destaque PrincipalReportagensViagens

Chileno, sim senhor!

Embora pouco visitado pelos turistas estrangeiros, o norte do Chile é cheio de atrações e é o destino ideal para quem quer aprender sobre Pisco

Assim como o Brasil e a Argentina, o Chile e o Peru também adoram competir entre si. Mas, por ali, a briga vai além do futebol. Por décadas, os dois discutem a origem do Pisco. Com uma cidade que leva o nome do destilado, o Peru defende que a bebida deveria ser produzida exclusivamente na região de Pisco. O Chile, por sua vez, rebate dizendo que pisco é um nome genérico usado para destilados à base de uva e pode ser produzido nos lugares que têm a terra e o clima propícios para a produção da bebida. Além disso, o pisco é consumido cerca de 20 vezes mais no Chile do que no Peru, apesar de o Peru levar a fama internacional.

pisco/ Chileno, sim senhor!
O clima desértico caracterizado pela grande amplitude térmica é ideal para a produção de uvas mais adocicadas, por isso a região norte do Chile é famosa pela produção de pisco

Porém, discutir qual país foi o primeiro a produzir o destilado é uma missão impossível, afinal, o pisco foi criado antes mesmo de o Chile e o Peru serem descobertos. Os primeiros registros da bebida são de quando os atuais países Chile, Peru, Bolívia e Equador faziam parte do Império Inca, uma região única que foi conquistada pelos espanhóis em 1532.

Com a chegada dos colonizadores, vieram, então, as primeiras videiras, que foram plantadas por toda a região inca. As uvas se adaptaram muito bem nas áreas nas quais o clima era desértico, e a produção de vinhos em pouco tempo se tornou expressiva. Para evitar o desperdício, a população começou a destilar o excesso de vinho. Assim nasceu o pisco.

Continua após o anúncio

Tesouro chileno

No Chile, a produção de pisco se estende pelas regiões de Atacama e Coquimbo, mais precisamente nos vales de Elqui e Limarí. A cidade de La Serena, que fica a pouco mais de 300 quilômetros de distância de Santiago, serve de ponto de partida para visitar as principais destilarias de pisco do país.

Chegando à cidade, a primeira destilaria a ser visitada deve ser a Capel, a principal cooperativa da bebida no Chile. Em sua sede, que fica a cerca de 60 quilômetros de La Serena, a Capel abriga o Museo del Pisco. Ali, é possível conhecer a história da bebida, acompanhar a evolução do maquinário de produção, ver de perto a elaboração da bebida, além de, claro, degustar os rótulos da marca.

pisco/ Chileno, sim senhor!

Como o pisco é feito?

pisco/ Chileno, sim senhor!É reconhecida como pisco, a bebida produzida a partir da destilação do mosto fermentado de uvas. O mosto nada mais é do que a mistura açucarada do sumo de uvas frescas que resulta da produção do vinho. Há apenas 13 variedades de uvas que podem ser utilizadas na elaboração do pisco chileno, mas normalmente são usadas apenas cinco: Moscatel de Alexandria, Moscatel Rosada, Moscatel de Áustria, Pedro Jiménez e Torontel.

O pisco peruano é destilado apenas uma vez, já o chileno costuma ser destilado de duas a três vezes e depois repousa por no mínimo 60 dias em tanques de aço inoxidável ou de madeira. Os dois países também divergem sobre o envelhecimento da bebida. O pisco peruano não passa por processo de envelhecimento, por isso todos têm cor transparente. O chileno pode aguardar em barricas de carvalho americano ou francês ou de rauli, uma árvore típica do Chile. Para receber a classificação de pisco envelhecido, o rótulo deve permanecer pelo menos seis meses na barrica.

O Chile classifica a graduação alcoólica pelo sistema ABV (alcohol by volume/álcool por volume), ou seja, é medida a quantidade de álcool presente em 100 mililitros da bebida. O pisco pode ser graduado entre 30 graus e 50 graus ABV, mas é difícil encontrar um rótulo acima de 45 graus. Os piscos transparentes, ou seja, não envelhecidos, assim como os com menos graduação alcoólica, são os mais indicados para drinques, por isso são mais populares.

pisco/ Chileno, sim senhor!
Fotos Divulgação

Produção de pisco

Percorrendo os vales de Elqui e Limarí, é possível acompanhar de perto as etapas de produção de pisco. Como o destilado pode receber várias combinações de uvas e ter diferentes graduações alcoólicas, o processo muda de acordo com o produtor. Há ainda as produções artesanais, que correspondem a mais da metade da indústria de pisco do Chile. Muitas destilarias são empreendimentos familiares, nos quais o ofício é passado de geração a geração.

Conheça a seguir as principais destilarias e os rótulos mais famosos do Chile.

Armidita

pisco/ Chileno, sim senhor!Produzida apenas por mulheres, a Armidita é uma destilaria artesanal e familiar que fabrica apenas 6.000 garrafas de pisco por ano. A Armidita é comandada pelas irmãs Sandra, Cecilia e Lady Ramírez. Os piscos são feitos com variedades de uvas Moscatel. Todos os rótulos são aromáticos, jovens e transparentes. O destaque da destilaria é o Pisco Premium Primer Encanto, que marca 40 graus de graduação alcoólica. fb.com/Pisco-Armidita

Bauzá

Criada em 1925 por Lorenzo Bauzá Juan, a destilaria é uma das mais tradicionais. Tem produção de 1,2 milhão de garrafas por ano. A Bauzá tem quatro rótulos, dos quais os mais vendidos são o Especial 35 graus Pasión Intensa e o Reservado 40 graus Pasión Reposada. Ambos são feitos com uvas Moscatel, são duplamente destilados e envelhecem em barricas de carvalho americano. O Especial 35 graus repousa por um ano e o Reservado 40 graus, por dois. Além deles, a destilaria ainda tem o Bauzá Aniversario Pasión de Guarda, que passa seis anos repousando em barrica de carvalho americano, e o Bauzá Blanco, que passa dois anos em tanque de aço inoxidável. A marca é bem popular no país por causa do bom custo-benefício, com piscos a partir de 4.000 pesos chilenos, cerca de 22 reais. bauza.cl

Bou Barroeta

A família Bou Barroeta produz pisco desde 1922, mas foi apenas em 1985 que Francisco Bou Barroeta decidiu comercializar a bebida. Francisco batizou seus piscos com o nome de suas filhas, Romanet e Luxstelle. Depois criou o pisco Maria’s em homenagem a todas as mulheres; o pisco A Mis Netas para celebrar a chegada da nova geração; e o pisco Cofradía em homenagem à confraria La Hermandad de la Costa, do qual era membro. Todas as garrafas têm um poema no rótulo, com exceção do Cofradía, que traz as normas da fraternidade. A Bou Barroeta é uma das principais destilarias familiares com produção anual de 60.000 garrafas. Francisco Bou Barroeta morreu em 2011 e, desde então, seus filhos comandam a empresa. boubarroeta.cl

pisco/ Chileno, sim senhor!
pisco/ Chileno, sim senhor!
    Capel

    Criada como Sociedad de Destiladores de Elqui, em 1931, a cooperativa nasceu da união de 30 produtores de pisco. Em 1964, eles mudaram de nome para Cooperativa Agrícola Pisquera Elqui Limitada e, desde então, adotaram a sigla Capel. Hoje, são mais de 1.300 associados que produzem anualmente 200 milhões de quilos de uvas. A Capel é a maior produtora de pisco chileno e exporta para o Japão e a América do Norte. A cooperativa trabalha com três linhas de pisco, a Capel, o Alto del Carmen e o Artesanos de Cochiguaz. cooperativacapel.cl

    El Gobernador

    O vinhedo Miguel Torres Chile produz o El Gobernador. Um dos rótulos mais usados para a criação de drinques no país. Feito com Moscatel Rosada e Moscatel de Alexandria, o pisco apresenta teor alcoólico de 40 graus, é transparente, tem aroma floral e notas de rosas e jasmim. São produzidas 120.000 garrafas por ano. migueltorres.cl/es/pisco-el-gobernador

    Kappa

    A família francesa Marnier Lapostolle, consagrada pelo licor Cognac Grand Marnier, levou toda a sua experiência para o Chile, mais precisamente para o Valle de Elqui. O resultado foi o Kappa, produzido a partir da mistura das uvas Moscatel Rosada e Moscatel de Alexandria. Com dupla destilação, o Kappa é feito em alambique de cobre legítimo francês. O Kappa tem produção anual de 5.000 caixas. Esse rótulo chileno é um dos únicos que são vendidos no Brasil, sendo importado pela Mistral. kappapisco.com

    Los Nichos

    O tour pela mais antiga destilaria ainda em funcionamento no Chile, de 1886, é um passeio à parte. O fundador de Los Nichos foi o excêntrico Rigoberto Rodriguez R., que desenvolveu uma câmara subterrânea para armazenar sua produção. Ao longo dos anos, a câmara foi se tornando um ponto de encontro para festas regadas a muito pisco. Para sobrar mais espaço para os convidados, Rigoberto começou a guardar as garrafas em buracos na parede que pareciam gavetas de cemitério. Depois de enterradas, Rigoberto escrevia um epitáfio em cada gaveta dedicando às pessoas que costumavam beber daquelas garrafas. Os epitáfios nada mais eram do que poemas caçoando dos convidados. Los Nichos contam com quatro rótulos: Los Nichos 35 graus, Los Nichos 40 graus, Espíritu de Elqui 40 graus e Espíritu de Elqui 45 graus. A destilaria produz 150.000 garrafas por ano. fb.com/fundolosnichos

    Waqar

    Indo na contramão da maioria das destilarias de pisco chilenas, a Waqar investe pesado na exportação. Cerca de 85% de sua produção anual de 60.000 garrafas são exportados. Por isso, a Waqar é uma das marcas chilenas mais reconhecidas fora de seu país de origem. A Waqar é uma empresa familiar com mais de 160 anos de história que produz apenas um rótulo. O destilado é feito com uma mistura de uvas Moscatel e tem graduação alcoólica de 40 graus. A bebida pode ser encontrada em mais de 30 países espalhados pelos seis continentes. Infelizmente, o Brasil ainda não está nessa lista. piscowaqar.cl

    Pisco chileno em números

      • Mais de 30 milhões de litros de pisco são produzidos anualmente no país.
      • O Chile tem 10.504 hectares de uvas plantadas para a produção da bebida.
      • 85% da indústria de pisco é composta de pequenos produtores.
      • A produção gera cerca de 3.800 trabalhos permanentes. Na época de colheita, são mais de 24.000 contratados temporários.

    Festa Nacional do Pisco

    No dia 15 de maio é celebrado o Dia Nacional do Pisco, no Chile. Em 2018, durante a data, o Patio Bellavista, complexo de restaurantes que fica no centro de Santiago, recebe uma grande festa organizada pela Pisco Chile, a Associação de Produtores de Pisco da região de Atacama e Coquimbo. As principais marcas da bebida no país se reúnem no pátio e servem degustações e coquetéis. Durante todo o mês de maio, as regiões de Coquimbo e Atacama costumam ter programação intensa para celebrar a bebida.

    pisco/ Chileno, sim senhor!

    * A reportagem viajou a convite de Pisco Chile, a Associação de Produtores de Pisco da região de Atacama e Coquimbo

    *Matéria publicada originalmente na edição 182, outubro de 2018, de Prazeres da Mesa

     

    Etiquetas
    Mostrar mais

    Stephanie Vapsys

    Foi vendendo cupcakes na feira de empreendedorismo da escola, aos 15 anos, que Stephanie Vapsys se encantou pela confeiteira e, posteriormente, pela gastronomia. A jovem que nunca recusa um docinho ou um convite para jantar, decidiu cursar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero por ser fã de literatura e fascinada por contar boas histórias. Desde 2015, na redação de Prazeres da Mesa, a repórter tem a oportunidade de conviver diariamente com sua grande paixão. Entre viagens, idas ao teatro ou ao cinema sempre aproveita a deixa para conhecer um bom restaurante por perto.

    Artigos relacionados

    Leia também

    Fechar
    Botão Voltar ao topo