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Tempero brasileiro

Com o comando verde-amarelo, a alentejana Herdade de Coelheiros entra em nova fase de qualidade

A propriedade alentejana, com mais de cinco séculos de história, construiu até o final da década de 1990 a imagem de uma das líderes de qualidade na região, fortemente apoiada em castas internacionais como a Cabernet Sauvignon e a Chardonnay. Hoje, sob o comando do casal brasileiro Gabriela Mascioli e Alberto Weisser, a vinícola inicia uma nova fase sob a batuta do brilhante enólogo Luís Patrão.

Herdade de Coelheiros
Em uma nova fase, a vinícola comandada pelo casal brasileiro
Alberto Weisser e Gabriela Macioli conta com o auxílio do grande enólogo Luís Patrão I Fotos: Divulgação

Se a história de Coelheiros é bastante longa, a dimensão da propriedade também não é nada humilde; dos 800 hectares totais da propriedade, apenas 50 são destinados à vinha. Cerca de 600 hectares são dedicados ao montado (sobreiros que fornecem a cortiça) e outros 40 hectares são ocupados com nogueiras, que representam uma das primeiras plantações comerciais ibéricas para a produção de nozes.

Retornando à vitivinicultura, o passo definitivo para colocar a herdade no mapa dos vinhos de qualidade de Portugal ocorreu com o lançamento do Herdade de Coelheiros Garrafeira 1996, rótulo multipremiado e que trazia a mescla das cepas Aragonês e Cabernet Sauvignon, esta última de mudas vindas do Château Margaux, na França.

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Com a compra da propriedade em 2015, Luís Patrão, egresso do Esporão, no qual era braço direito de David Baverstock, comentou que recebeu “carta-branca” para fazer as mudanças que fossem necessárias. “A única diretriz foi fazer o melhor vinho possível”, disse o enólogo. A primeira medida foi reduzir a produção a menos da metade do habitual (de 400.000 garrafas para 150.000). E, apesar do pouco tempo, já são muitos passos desse processo de conversão.

No campo, a abordagem promete ser holística, em que a produção orgânica das uvas é uma das práticas basilares. Isso reflete em uma seleção de novas castas portuguesas e, em especial, alentejanas, que apresentem maior capacidade de adaptação às condições locais. “Já arrancamos a Chardonnay, e a Merlot também deve ser deixada. Em troca, vamos plantar Touriga Nacional, Tinta Miúda, Touriga Franca e Tinto Cão, entre as tintas, e focar em Arinto e Roupeiro, entre as brancas”, diz Patrão, que afirma que os atuais 53 hectares de vinhedos devem crescer até o máximo de 70 hectares.

As castas mais adaptadas implicam em menos necessidade de água para irrigação e menos ocorrência de pragas. “Hoje, vemos essa boa adaptação de algumas variedades, e até mesmo a Cabernet Sauvignon e a Petit Verdot dispensam irrigação. O Alentejo tem 2.000 anos de viticultura; apenas nos últimos 20 anos utilizamos a irrigação. Isso é resultado da mentalidade de focar em grandes volumes de produção”, diz. Boa parte da busca do enólogo, hoje, é pelo entendimento do local no qual estão os vinhedos.

Em 2016, contratou pesquisadores especializados em geologia de Montpellier para mapear os perfis do subsolo da herdade. Foram identificados quatro perfis propícios para a produção de vinhos de alta qualidade. Junto com a Universidade de Évora também iniciou uma pesquisa para analisar a microbiologia do vinhedo, a flora no entorno e a população de insetos e aves. Ao final, trata-se de entender o terroir no qual estão e que deve resultar em vinhos de parcelas, como existe a Vinha do Taco, um varietal de Petit Verdot.

A enologia também passará por algumas mudanças, mas nada tão drástico, uma vez que a busca é pela expressão das variedades e dos vinhedos. Em vez da escola de barricas bordalesas, Luís Patrão já começa a substituir por barris de 500 litros e foudres de 2.500 litros de capacidade. As fermentações dos tintos são espontâneas, mas com os brancos, o enólogo afirma que o risco é maior, por isso prefere inocular as leveduras. Vinhos em talhas (um nicho crescente no Alentejo) e rosés não estão nos planos por hora.

Avaliações

 herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 172,76 – 90 pontos

A primeira colheita feita por Luís Patrão. Feito apenas com Arinto, 30% fermentada nos barris novos de 500 litros. O nariz é bastante direto e limpo, com pera, jambo, ameixa-amarela e flores brancas. Na boca tem boa acidez e certa untuosidade, que dá interessante volume ao conjunto. Final com toque amendoado e mineral (talco).

herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 381,99 – 89 pontos

A mescla de Arinto e Roupeiro, anteriormente contava com a Chardonnay. Agora são apenas as duas variedades que fermentam em barris de carvalho, nos quais estagiam por mais oito meses com batônnage. A técnica ajuda aos que gostavam do rótulo com a Chardonnay, uma vez que os aromas amanteigados e a cremosidade continuam presentes, com aromas cítricos e de frutas amarelas, além das especiarias da madeira (erva–doce, canela e baunilha). O frescor é suficiente para suportar a potente estrutura.

herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 458,77 – 90 pontos

Esta é a última safra do rótulo, já que a vinha de Chardonnay foi arrancada. Trata-se de um branco muito bem- -feito. Neste caso, Luís Patrão contou com a ajuda mais próxima de António Saramago, enólogo que habitualmente fazia os vinhos da herdade. O estilo se aproxima da expressão de clima quente da casta, com aromas de maçã e pera assadas, marzipã e casca de limão, envolvidos por leve untuosidade, boa estrutura e ótimo frescor.

herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 172,76 – 91 pontos

Produzido com partes iguais de Aragonez e Alicante Bouschet, o vinho estagia por 12 meses em barricas de carvalho usadas. Uma boa surpresa: o frescor da fruta (negra), com toques florais e toque láctico. Na boca, traz taninos muito finos e macios, com fruta que segue intensa e integrada à boa acidez. Não aparenta os 14% de álcool que tem. Apenas no final se notam as especiarias e o leve tostado da madeira.

herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 381,99 – 90 pontos

Aqui o vinho mais clássico da vinícola. A Cabernet Sauvignon, trazida do Château Margaux, está com 30 anos de idade. Ela participa com 70% da mescla com a Alicante Bouschet.

O desafio proposto por Luís Patrão a Alberto Weisser é plantar a Alicante Bouschet nas falhas do vinhedo de Cabernet Sauvignon e fazer o Tapada tinto com as duas variedades mescladas no campo e em cofermentação;

algo para o futuro. Essa safra 2013 traz um mix de frutas vermelhas e negras bastante maduras, no qual a Cabernet mostra sua força com pimenta vermelha e mentolados. Os taninos são compactos e muito finos e integrados à firme estrutura do vinho. Final com erva-doce, canela, toffee e frutas vermelhas maduras. Ótimo para hoje, mas deve ganhar com alguns anos de garrafa.

herdade de coelheirosAlentejo, Portugal

R$ 458,77 – 91 pontos

A Vinha do Taco tem 5 hectares, dos quais apenas 1 hectare está plantado com Petit Verdot. A parcela está com 17 anos de idade e está em uma encosta, em sua parte mais baixa. A umidade dessa zona consegue retardar a maturação da fruta e a Petit Verdot alcança ótima maturação fenólica, segundo Luís Patrão. Na taça, o vinho mostra grande concentração e, mesmo no oitavo ano de vida, ainda está jovem. Fruta negra madura (mirtilo e amora) e concentrada com Earl Grey (chá-preto com bergamota) indicam a tipicidade da casta. Com taninos firmes, compactos e ainda jovens e ótimo frescor. Bastante longo, traz tosta e grafite no final.

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Lançada em 2003, a proposta da revista é saciar o apetite de todos os leitores que gostam de cozinhar, viajar e conhecer os segredos dos bons vinhos e de outras bebidas antecipando tendências e mostrando as novidades desse delicioso universo.

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