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TEMPLO DE IGUARIAS

Reduto de fé, a Abadia de Santa Maria também oferece produtos artesanais feitos pelas mãos de monjas beneditinas 

Por: Prazeres Da Mesa | 19.feb.2018

Por Beatriz Albertoni
Fotos RJ Castilho

abadia de santa maria

Passados apenas 5 quilômetros da caótica cidade metropolitana de São Paulo, basta seguir pela Avenida Coronel Sezefredo Fagundes, na Zona Norte, para encontrar um recanto de natureza e espiritualidade. Rodeado por uma imensidão verde, o grandioso prédio projetado pelo arquiteto austríaco Hans Broos tornou-se patrimônio histórico da capital paulista em 2012 e é o atual endereço da Abadia de Santa Maria, mosteiro que abriga 21 monjas beneditinas e é destino de fiéis em busca de missas com canto gregoriano, aos sábados e domingos.

Inicialmente construída onde hoje é o famoso Hotel Maksoud Plaza, na Rua São Carlos do Pinhal, a Abadia mudou-se para as imediações da Serra da Cantareira em 1974, assegurando, assim, a privacidade da vida em clausura. A dedicação ao recolhimento é um dos preceitos da Ordem Beneditina de São Bento, assim como as regras ora et labora (“reza e trabalha”) e o amor a Cristo.

“Quando estamos trabalhando e toca o sino, devemos parar para rezar. Assim que termina a oração, voltamos a trabalhar. Uma coisa está muito vinculada a outra”, diz a irmã Maria Teresa, uma das monjas da Abadia de Santa Maria. Saber controlar o tempo, segundo ela, é primordial para uma vida organizada no mosteiro. “Nós tentamos dividir o tempo entre trabalho, oração e estudo. Quando estamos em um ofício, precisamos saber quanto mais ficaremos por lá para que no intervalo de um trabalho e outro possamos realizar alguma atividade.”

O trabalho das irmãs consiste principalmente na fabricação de produtos artesanais. Além de artefatos com mosaico e ícones pintados à mão, licores, geleias, biscoitos e doces com chocolate estão à venda no ateliê da Abadia. “São Bento diz que o verdadeiro monge é aquele que vive do trabalho das próprias mãos”, afirma a irmã Maria Teresa. Por isso, quem prova algum desses alimentos sabe que ali se encontra algo especial. “Tudo que vendemos é o que colocamos em nossa mesa, pensando na saúde e no bem-estar das pessoas. E, claro, vai com a energia boa da oração.”

A qualidade dos produtos se deve à dedicação das monjas, que, preocupadas em oferecer alimentos saudáveis e saborosos, cozinham com os insumos que plantam e colhem do próprio quintal. As frutas  tornam-se suculentas geleias, recheios para bombons e base para os famosos licores. A horta conta com hortaliças e ervas frescas, normalmente destinadas às refeições das irmãs ou vendidas aos vizinhos mais próximos.

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Vínculo com a terra 

Em 12 sabores: anis, amêndoa, canela, café, chocolate, laranja, ervas finas, limoncello (limão-siciliano), jabuticaba, maracujá, pequi e rosa, os licores são bastante requisitados por quem visita a lojinha. Vendidos em três tamanhos e em garrafa de porcelana cravada com a medalha de São Bento, a bebida leva cerca de seis meses para ficar pronta. “Para ter um licor bom, o processo é demorado”, afirma a monja. “Nós utilizamos álcool de cereais, destilamo-o e o coamos em algodão.” Vale lembrar que muitas das grandes bebidas feitas no mundo, os grandes licores, nasceram em mosteiros, bem como as grandes cervejas.

O tempo sagrado das irmãs também é dividido para fazer biscoitos, principalmente em datas especiais, como Páscoa e Natal. Fora das comemorações cristãs, no ateliê, é possível encontrar o biscoito folhado de limão-siciliano, feito em máquina similar à produção de hóstias, e o biscoito da alegria, receita dita medicinal e criada por uma monja da Idade Média. Apesar de levar cravo, canela e noz-moscada, o doce é suave e delicado. O sequilho que derrete na boca, chamado de Santa Maria, é o carro-chefe do mosteiro e não tem glúten na composição.

As geleias são um sucesso à parte. No entanto, os sabores são rotativos devido à sazonalidade das frutas do jardim. Feitas com mais polpa e apenas 30% de açúcar, o preparo tem validade menor do que as encontradas em supermercados. Laranja com manga, jabuticaba com cardamomo, figo e goiaba são algumas das opções.

Com espaço exclusivo no pequeno ateliê, os chocolates ainda estão em fase de teste. “Os recheios dos bombons são feitos todos aqui”, afirma a irmã Maria Teresa. “São naturais, e tentamos utilizar menos açúcar possível. Conservantes, nem pensar. Isso porque nós fazemos com carinho e não pensamos somente em vender, nós nos preocupamos com a saúde das pessoas.” Os bombons de laranja são produzidos também para o Hotel Maksoud, que os oferece aos hóspedes como mimo de boas-vindas.

Apesar da variedade dessas iguarias, o número reduzido de “mão de obra” faz com que a produção em grande escala seja inviável. “Há também a questão de que não saímos muito daqui”, diz. Por isso, licores, biscoitos, geleias e chocolates são encontrados exclusivamente na Abadia. “Quando as pessoas vêm ao mosteiro experimentar e comprar nossos doces e licores, elas querem saber como foram feitos e por que nós os fazemos. Tenho a impressão de que nossos produtos são mais pessoais, diferentes dos industrializados. Todos têm um motivo, uma história por trás.”

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Viver em comunhão

Para garantir o sustento do mosteiro, o trabalho da loja e a venda dos produtos não são suficientes. “Temos aqui também uma hospedaria, com espaço para mais ou menos 60 pessoas”, afirma a irmã Maria Teresa. A tranquilidade, o silêncio e a bênção de poder estar próximo da igreja e das monjas faz com o que o local seja bastante requisitado. Os hóspedes que por ali passam podem acompanhar o ofício das irmãs, desde que seja fora da área de clausura, onde somente elas podem entrar. As rezas comunitárias e individuais são parte essencial da vida no mosteiro, assim como o estudo da palavra de Deus e o trabalho bem-feito. “Nós levantamos às 4h30 da manhã todos os dias. Nossa primeira oração, a Vigílias, começa às 4h45; a Completas, a última, às 20h15. Estamos na igreja sete vezes ao dia”, conta.

Com mais de 100 anos de história, a Abadia de Santa Maria já abrigou muitas irmãs que passaram toda a vida servindo a Deus, assim como a tradição beneditina continua atraindo muitas jovens à prática religiosa. A excelência dos produtos que se dá pelo trabalho empenhado, o compromisso com a liturgia e a dedicação à vida monástica pode parecer incompreensível para alguns. A explicação para tudo isso, no entanto, se deve primordialmente à fé.

* Matéria pulicada na edição 168 de Prazeres da Mesa

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