Prazeres da mesa

Reportagens

Tesouro português

Além da rica gastronomia, Portugal resguarda uma das maiores preciosidades da doçaria mundial: o pastel de nata

Por: Prazeres Da Mesa | 10.jul.2018

Por Beatriz Albertoni
Fotos RJ Castilho

Não há como negar que o pastel de nata é um dos patrimônios gastronômicos de Portugal. Assim como o brigadeiro é para os brasileiros, o docinho de massa folhada crocante e de recheio cremoso é a sobremesa mais popular em terras lusitanas. Não à toa, lojas especializadas no doce agrupam filas e longas horas de espera para que viajantes e nativos possam provar o quitute recém-saído do forno.

mantegaria pastel de nata rj castilho1

A fama do pastel de nata se deve ao sabor único, é claro. Mas muito do que o doce representa para Portugal resulta de sua criação. Acredita-se que, com a extinção das ordens religiosas do país no século XIX, frades do Mosteiro dos Jerónimos, como forma de sobrevivência, decidiram comercializar o pastelzinho em uma refinaria de cana-de-açúcar vizinha, localizada na Freguesia de Belém. Rapidamente o doce se popularizou com o nome de pastel de Belém e, em 1837, instalações anexas à refinaria começaram a reproduzi-lo.

Para manter a originalidade do produto, a receita foi trancada a sete chaves e os mestres pasteleiros trabalhavam apenas na “Oficina do Segredo”, evitando que alguém pudesse bisbilhotar a proporção correta dos ingredientes. Os mistérios ao redor do modo de preparo fizeram com que não existisse outro doce igual ao encontrado na fábrica.

O original pastel de Belém, no entanto, nada mais é do que um pastel de nata. Dessa forma, muitos outros estabelecimentos, assim como famílias na cozinha de casa, começaram a reproduzir, mesmo que com variações, o docinho que ganhou o paladar e o coração dos portugueses.

Império dos pasteizinhos

Empreendedor nato, o português Duval Pestana, com apenas um único produto, consegue atrair um grande volume de clientela em todas as nove unidades  da marca

Empreendedor nato, o português Duval Pestana, com apenas um único produto, consegue atrair um grande volume de clientela em todas as nove unidades
da marca

Duval Pestana é um dos muitos portugueses que cresceram saboreando pastéis de nata. Sua avó costumava preparar o doce por inteiro, desde as trabalhosas etapas da massa folhada até o creme de natas. A partir dessa receita, Duval construiu um verdadeiro império em São Paulo com a marca Manteigaria Lisboa, que hoje já somam nove unidades pela cidade.

Mas antes do sucesso em terras brasileiras, o português, ainda em seu país de origem, formou-se economista e somente aos 50 anos de idade, após ser demitido de uma multinacional, é que resolveu seguir a carreira de chef. “Decidi que não iria trabalhar para mais ninguém. Como sempre gostei de cozinhar, resolvi abrir um restaurante na cidade de Olhão, o Faz Gostos. Tive a sorte de ter um reconhecimento que eu não esperava”, afirma.

Apesar do sucesso consolidado, Duval não sossegou. Abriu uma filial do Faz Gostos e mais dois restaurantes em Lisboa. “Não sei por que, mas não consigo fazer a mesma coisa por muito tempo”, diz. A inquietude do chef se intensificou quando um amigo brasileiro, e hoje seu sócio, o convidou a inaugurar um negócio em solo tupiniquim. “Há muitos anos venho ao Brasil de férias e nunca pensei em consolidar um projeto por aqui. Mas fui convencido”, afirma.

Após uma visita malsucedida ao Rio de Janeiro, São Paulo foi a cidade escolhida por ele para firmar negócio e começar vida nova. “Quando cheguei, por acaso, fui provar pastéis de nata de diversas casas paulistanas”, diz. “‘Os meus são melhores’, pensei. E foi assim que surgiu a vontade de desenvolver o produto por aqui.”

Com a receita da avó em mãos e muitos testes depois, em 2015, a primeira Manteigaria Lisboa ganhou contornos na Rua Padre João Manuel, nos Jardins. Pouco tempo depois, a segunda unidade da loja abriu as portas na Pamplona. Desde então, os números não param de crescer. “Até o fim deste ano esperamos ter 15 estabelecimentos funcionando em São Paulo”, afirma.

Menos é mais

Focar em apenas um produto foi premissa de Duval na hora de consolidar o projeto da Manteigaria. “Nós, como consumidores, associamos uma marca a um produto. Aqueles que mais fazem sucesso são os mais simples. O que faz da Heineken uma das melhores empresas do mundo, por exemplo? Apenas água, lúpulo e cevada. Cheguei à conclusão de que o que complica estraga. Prefiro ser um peixe grande em um lago pequeno, do que um peixe pequeno em um lago grande”, diz.

Além da exclusividade, atentar-se bem à tradição (mas sempre com uma pitada de criatividade) é parte da fórmula do sucesso de Duval. “Sei que o brasileiro gosta de muito açúcar, mas me recuso a alterar a receita. Se eu deixar mais doce, vou ofuscar o sabor dos outros ingredientes”, afirma. De fato, os pastéis de nata da Manteigaria oferecem uma leveza peculiar ao paladar, longe de se tornar enjoativos e sendo uma boa opção para acompanhar os licores portugueses, como vinho do Porto, Ginjinha, Amarguinha ou Moscatel, disponíveis nas filiais em combos a preços convidativos.

Da massa ao recheio, todas as etapas do pastel de nata da Manteigaria Lisboa são feitas manualmente, o que garante leveza e mais sabor aos docinhos

Da massa ao recheio, todas as etapas do pastel de nata da Manteigaria Lisboa são feitas manualmente, o que garante leveza e mais sabor aos docinhos

Para o especialista, o pastel de nata perfeito deve ser crocante logo à primeira mordida. “Os aromas também são importantes: canela, limão-siciliano e outras especiarias”, diz. Assim como os originais de Belém, os doces da Manteigaria Lisboa mantêm a qualidade por ser preparados manualmente. “O creme é feito à mão. Já tentei prepará-lo em máquina, desandou. Não tem jeito, é um produto artesanal.”

É impossível desvendar o segredo da receita de Duval. Mas ele garante que o enigma para o sucesso é simplificar “a vida, os produtos e o trabalho dos funcionários, já que é uma empresa feita de pessoas para pessoas”. E essa premissa, levando em conta os milhares de docinhos que saem das lojas por dia, tem funcionado com maestria. “Esses dias fui andando até a filial da Pamplona e, passando pela Paulista, vi várias pessoas com sacolas da Manteigaria Lisboa na mão. Isso é, sem dúvida, um dos maiores prazeres que eu poderia ter.”

mantegaria pastel de nata rj castilho2

Matérias Relacionadas