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UMA FAZENDA, MUITAS CULTURAS

No Vale do Paraíba, a Nova Coruputuba adota o sistema agroflorestal para recuperar o solo e resgatar espécies esquecidas

Por: Prazeres Da Mesa | 27.apr.2018

Por Flávia G. Pinho

Fotos Caio Ferrari

Quando foi fundada, em 1911, a fazenda Nova Coruputuba, em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, era uma imensa área de várzea que ficava alagada após as cheias do Rio Paraíba. A escolha óbvia do proprietário, Cícero Prado, foi plantar arroz. Anos depois, da casca dos grãos, passou a produzir papel – até tornar-se a maior indústria do país. E depois veio o investimento no eucalipto, uma evolução natural do negócio. Nos anos 1950, a Coruputuba era uma potência: mais de 5.000 funcionários e uma infraestrutura de fazer inveja a muita cidade pequena. Mas problemas de gestão levaram todo aquele império à falência, já na segunda metade do século XX. Quando herdou a propriedade, nos anos 1990, o designer Patrick Assumpção assumiu também a missão de reinventar a vocação das terras da família. E apostou todas as fichas no sistema agroflorestal – diversas culturas de hortaliças, frutas e madeira de lei convivendo em harmonia no mesmo espaço.

Deu tão certo que Assumpção tornou-se uma importante liderança no Vale do Paraíba, onde tem divulgado com êxito as vantagens das culturas consorciadas e conquistado a adesão de produtores da vizinhança. Ele também virou uma referência entre chefs – na missão de resgatar espécies nativas do Vale do Paraíba que há tempos saíram do circuito comercial, Assumpção topou com produtos de enorme potencial gastronômico. São raridades como o feijão minicaupi, versão miniatura do manteiguinha de Santarém, cujos grãos são pouco maiores do que a cabeça de um alfinete. Ou, como o feijão-lablab, de grãos vermelhos e contorno branco – eles ficam uma delícia ainda dentro da vagem, que recebe o nome de orelha-de-padre. Também tem chuchu-de-vento, milho-vermelho, bertalha, ora-pro-nóbis e frutas como o bacupari, a uvaia, a sapucaia e o araçá-boi. “Todas são variedades que já foram muito consumidas aqui na região e sumiram por falta de interesse comercial.”

Para cultivar tantas espécies, Assumpção apela para seu talento de designer. “Traço uma planta detalhada da horta, desenho o que vou plantar, definindo os canteiros conforme o tempo da cultura e o tamanho que cada planta vai atingir”, diz. A cada 12 metros, ele planta uma fileira de arbustivas leguminosas nativas da Mata Atlântica, como o feijão-guandu e a tefrósia, responsáveis por fornecer o aporte de nutrientes ao solo. Ao lado delas, pés de leguminosas arbóreas, como a gliricídea e a sesbânia, que ficam altas e garantem sombra. Entre uma fileira e outra, culturas de ciclo anual, como o milho-vermelho. E toda a horta é circundada por uma floresta de guanandis, madeira de lei que por pouco escapou da extinção. Além de contribuir para a regeneração da vegetação nativa, o sistema agroflorestal garante o fluxo de caixa – é possível começar a faturar em poucos meses, com as culturas de ciclo curto, até algumas décadas depois, com a madeira de lei. E o que é melhor: aproveitando áreas de reserva. Para completar, nenhuma colheita se perde. Na Coruputuba, sobras viram geleia, conserva e compota.

Fazer com que tais espécies esquecidas conquistem o público novamente, no entanto, dá trabalho. De nada adianta, por exemplo, levá-las para feiras comuns. Além de estabelecer parceria com chefs renomados, como Helena Rizzo, do Maní, André Mifano, do Lilu, e Rodrigo Oliveira, do Mocotó, cujas criações servem como vitrines para os produtos da Coruputuba, Assumpção criou um evento, a Feira Viva, que tem como objetivo conectar pequenos produtores diretamente com os consumidores que valorizam raridades gastronômicas. Juntas, as duas edições realizadas em 2017, em São Paulo, atraíram 6.000 pessoas. “A gente precisa criar mercado para esses produtos”, afirma Assumpção. “Só assim vamos impedir que eles desapareçam.”

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